A ONU foi criada com o propósito de manter a paz e proteger os direitos humanos; no entanto, a prática revela que o seu poder é limitado. Quando os interesses das grandes potências entram em jogo, a organização raramente consegue impor normas ou impedir decisões unilaterais.
Este artigo de opinião debruça-se sobre a contradição entre o idealismo que norteou a sua fundação e a realidade pragmática do sistema internacional.
Após o fim da Guerra Fria, em 1991 – que resultou noenfraquecimento e dissolução da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – os Estados Unidos da América (EUA) e os seus aliados ocidentais passaram a exercer um domínio preponderante sobre a ONU. Contudo, não houve uma preocupação em atualizar os mecanismos da organização face aos novos desafios do mundo.
Estas potências atuaram, muitas vezes, como uma “polícia mundial”, ditando ordens conforme lhes convinha e invocando a necessidade de garantir a paz e o respeito pelos direitos humanos. Este cenário levou a parte da opinião pública a acreditar que a ONU tinha ganho uma nova força.
A posição ainda frágil da China para se opor e a dependência económica de muitos países em desenvolvimento ajudaram a consolidar essa visão.Todavia, apesar de alguns sucessos, a ONU falhou em muitos cenários, especialmente em conflitos internos, como os verificados em África.
Sem uma compreensão profunda das causas destas crises, a organização limitou-se a tentar punir responsáveis, mas as divergências de interesses entre os Estados-membros condicionaram severamente os resultados.
Perante a dificuldade em resolver questões internas dos Estados, a ONU passou a delegar responsabilidades em organizações continentais e sub-regionais, como a União Africana (UA) e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).
Ficou evidente que medidas isoladas são insuficientes: éimperativo prevenir os problemas antes que se tornem críticos. Sem uma cultura de prevenção, os ideais de paz continuarão inalcançáveis.
O mundo atual, mais instável e em rápida mutação, exige uma responsabilidade acrescida da ONU. Seria fundamental promover um debate aberto com todos os Estados-membros, e não apenas com os mais influentes, na procura por soluções mais justas.
No entanto, as propostas para reforçar o papel da ONU na segurança internacional têm sido rejeitadas por potências ocidentais que temem perder a influência conferida pelo poder de veto. Em resumo, o Secretário-Geral da ONU mantém uma capacidade de intervenção maioritariamente diplomática ou de condenação moral, sem meios para obrigar as grandes potências a respeitar a Carta das Nações Unidas.
Em última análise, a ONU encontra-se numa encruzilhada: ou se reinventa para refletir a realidade do século XXI, ou arrisca-se a tornar-se uma relíquia diplomática. Enquanto for usada como um tabuleiro de xadrez pelas grandes potências, o ideal de uma governação justa permanecerá uma miragem.
O verdadeiro teste para a organização não será a sua capacidade de emitir condenações, mas sim a coragem de colocar a dignidade humana acima dos vetos e dos interesses geopolíticos. Sem essa reforma, a paz mundial continuará a ser, tragicamente, uma utopia adiada.
Por: Ismael Sadilú Sanhá
Doutorado em Políticas Públicas
Mestre em Relações Internacionais





















