Opinião: COMO FICOU A “DIPLOMACIA AGRESSIVA” DEPOIS DO “PANDEMÓNIO” MACRON?

Mesmo antes de se autoproclamar presidente da República da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló já fazia do que chama de “diplomacia agressiva” a sua principal arma política para aos olhos dos guineenses passar a imagem de um suposto respeito ao país pelos parceiros internacionais. Já são incontáveis as suas viagens ao exterior em nome do Estado da Guiné-Bissau, assim como, para o benefício da sua agenda política populista, consegue convencer vários presidentes de outros países a visitarem a Guiné-Bissau. A mais recente dessas visitas foi a do Emmanuel Macron, Presidente da França.

Tal como aconteceu com a visita do Marcelo Rebelo de Sousa em Maio de 2022, a visita do Presidente francês à Guiné-Bissau continua a dominar o debate público, entre os que precipitam júbilos de “primeira visita de um Presidente francês ao pais” e os que questionam as suas razões num contexto de disputas do espaço de influência entre o Ocidente e a Rússia, sendo África um reduto estratégico para as partes dessas disputas, tanto pela sua dependência desses blocos antagónicos em vários domínios, assim como pela manifesta vulnerabilidade dos seus líderes a influências de interesses exteriores a qualquer agenda proposta por África no palco geoestratégico.

Antes de rumar à Guiné-Bissau, Emmanuel Macron, prepotente, criticou, nos Camarões, o que chama de “hipocrisia de África face à invasão russa à Ucrânia” (DW África), uma declaração que já permitia prever o caminho escorregadio estendido ao Umaro Sissoco Embaló no seu modo improvisado de lidar com as funções inerentes ao cargo do Presidente da República. Afinal, o Macron preparava-se para um encontro com o agora presidente em exercício da CEDEO!

Na declaração conjunta dos dois presidentes à imprensa, em Bissau, Umaro Sissoco Embaló não foi capaz do que os seus mestres da sub-região talvez conseguiriam: disfarçar que o encontro com o Emmanuel Macron era sobretudo para juntar pedras do lado francês e ocidental contra a Rússia, na sua inaceitável invasão à Ucrânia (sublinhe-se), mas também uma oportunidade de a França testar as bases para revigorar a sua influência imperialista na África Ocidental, tendo em conta os recentes episódios que envolvem o seu Estado com os governos do Mali e Burkina Faso. Macron conseguiu, em poucas horas de estadia em Bissau, que Umaro Sissoco Embaló colocasse a sua fraudulenta cadeira do presidente da CEDEAO em apuros e a desafiar a expressão de “neutralidade” da União Africana face à invasão da Rússia à Ucrânia.

Se voltarmos ao início do conflito, percebemos como Sissoco e a sua “diplomacia de joelhos no chão” se identificam de forma perfeita:  a 01 de Março passado, Umaro Sissoco Embaló afirmou que a Guiné-Bissau se alinhava na posição da União Africana sobre o conflito na Ucrânia; a 12 de Março, o mesmo Umaro Sissoco Embaló, num encontro com o Presidente da Turkia em Antalya, aconselhou este a assumir uma “postura de neutralidade” no conflito (in O Democrata); e, antes, a 02 de Março, a Guiné-Bissau não votou a resolução da ONU a condenar a invasão da Ucrânia por parte da Rússia. No entanto, o mesmo Umaro Sissoco Embaló, quatro meses depois, afirma que “Efetivamente, a Guiné-Bissau, apesar de ser um país não alinhado, condena esta agressão à Ucrânia” (in DW África).

No plano da CEDEAO, onde a Guiné-Bissau assume a cadeira de Presidente, Umaro Sissoco Embaló precisou de apenas três semanas para confirmar o que os que não se deixam enganar pelo seu básico modo populista estariam à espera. Ao referir-se aos vários dossiês quentes nas mãos da desorientada CEDEAO, o presidente da Guiné-Bissau disse ter convencido o governo militar da vizinha Guiné a dirigir “um período de transição que não ultrapassasse os 24 meses”. O desmentido do governo la guineense não demorou. Através da sua página no Facebook, o Ministro da Administração Territorial desse país afirmou que essa questão nem esteve em conversa com o presidente da Guiné-Bissau e, pasmem-se, também presidente da CEDEAO!

Umaro Sissoco Embaló só consegue surpreender aos mais desprevenidos em relação à postura desinteressada e de aproveitamento populista das vulnerabilidades de boa parte dos guineenses face a questões complexas como diplomacia ou parcerias internacionais, que até algumas figuras que podiam merecer outra consideração se deixam cair na sua cilada. Muitas foram as vozes que se ergueram para celebrar “ganhos diplomáticos da visita do Macron para a Guié-Bissau”, “mestria diplomática do Umaro Sissoco Embaló”, ou o simples facto de ser “a primeira visita de um Presidente francês à Guiné-Bissau”, etc. Porém, as mesmas pessoas nunca foram capazes de dar exemplos concretos de supostos ganhos ínfimos que a Guiné-Bissau consegue com as pândegas diplomáticas do Umaro Sissoco Embaló: O quê que isso muda do ambiente democrático do país entregue a raptos e espancamentos de cidadãos que dizem o que pensam diferente do regime no poder? O quê que isso muda, por exemplo, no Hospital Nacional Simão Mendes sem condições para cuidar de uma mulher e seus quatro filhos gêmeos entregues dolorosamente à morte, ou do Liceu Nacional Kwame N´krumah de portas trancadas por falta de manutenção? São problemas básicos com anos de espera para serem resolvidos! Os 3 milhões de euros de gorjetas que nem as dívidas atrasadas aos professores conseguem saldar? É esse o propalado ganho diplomático de que falam?

Depois do “pandemónio Macron”, o que fica é a certeza de que não existe nenhuma “diplomacia agressiva” do regime do autodenominado Único Chefe, mas um conjunto de festivais de idas e vindas presidenciais que mais não procuram do que pintar o caos do país real de fantasias para embalar a revolta do povo. Uma diplomacia que muda do plano em função do cliente que se tem à frente e de visita que garante mais maquilhagem populista ao regime.

Fica uma CEDEAO finalmente nas mãos de um presidente à imagem do que tem sido esta organização para África Ocidental: um instrumento de manejo nas mãos dos interesses dos seus presidentes mais influentes, estes por sua vez essencialmente ao serviço dos donos do Franco CFA. Mas fica ainda um perigo à segurança da sub-região deixada à mercê de um presidente em exercício que não mede as consequências de tentar aproveitar-se da circunstância das suas funções para agendas pessoais e dos seus padrinhos. Ontem foi o governo da Guiné a desmenti-lo, amanhã e depois não sabemos o que dirão os governos do Mali e Burkina Faso, num contexto regional de profundas crises, mas de uma juventude cada vez mais vigilante dos seus líderes políticos.

Por: Sumaila Jaló

Professor e activista

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