Opinião: REUNIÃO DOS PRESIDENTES SISSOCO E ZLENSKY SOB UM OLHAR PRAGMATISTA E REALISTA

Hans Morgenthau, um dos principais e mais importantes teóricos da corrente realista de Relações Internacionais, em sua obra intitulada: “Política entre as Nações”, fez a seguinte observação, “[…] o tipo de interesse que determina a ação política em um determinado período da história depende do contexto político e cultural dentro do qual é formulada a política externa”. (MORGENTHAU, 1978, p. 18).

Dita de outra maneira, isso quer dizer, em conformidade com esse pensador, que o tipo de interesse que alimenta qualquer ação política (aqui entendemos que pode ser tanto no nível nacional, sub-regional ou continental) em um dado momento histórico deve categórica e peremptoriamente observar a conjuntura política na qual está sendo arquitetada tal ação política, nesse caso mais específico a ação política voltada a política externa. Mas esse não parece ser o caso da Guiné-Bissau, de seu presidente e seu staff para assuntos internacionais.

Digo isso porque conforme avançou a assessoria da Presidência da República daquele país bem como alguns meios de comunicações sociais internacionais, nomeadamente a Deutsche Welle (DW, África) – emissora alemã com emissões televisas e radiofônicas em português para África – o Presidente guineense Umaro Sissoco Embalo (atual presidente em exercício da CEDEAO, Organização Econômica Sub-regional da África Ocidental) manteve um encontro virtual-telefônica com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky que hodiernamente está em um imbróglio armado com a Rússia.

Ainda conforme asseguram essas fontes, ao “cair de pano” do encontro, o presidente guineense prometeu realizar uma visita a Kiev em data ainda a ser anunciada, na qual se fará acompanhar de seu homólogo senegalês Macky Sall, atualmente presidente em exercício da União Africana (UA). Uma iniciativa que, baseando nas teses do pensador acima aludido, ignora totalmente a complexa conjuntura pela qual atravessa a geopolítica global e seriamente ameaça colocar a Guiné-Bissau e a África na berlinda perante países/potências que se posicionarão do lado oposto dessa empreitada, como a Rússia (envolvido no conflito com a Ucrânia) e seus aliados como a China, Índia etc.

O esquisito nisso tudo, pasmem, é que esse engajamento do presidente guineense e do seu homólogo senegalês como avançaram as fontes acima mencionadas – apesar de lá atrás ele já ter se oferecido a mediar o conflito russo-ucraniano – só se intensificou após a visita de algumas horas do presidente francês Emanuel Macron a Guiné-Bissau na semana passada, consequência direta do périplo que este fez pelos países africanos.

Ora, o conflito russo-ucraniano já está no seu sexto mês. Por que só agora essa firmeza no contato com Kiev? Terá sido o efeito da visita do presidente francês? Tudo indica que sim. Até porque, em sua passagem pelos Camarões, antes de aterrar nas terras de Cabral, Macron, visivelmente enraivado e frustrado, chamou os africanos de hipócritas por não se posicionarem sobre o conflito no leste europeu, como se a África e os africanos fossem obrigados a o fazer.

Essa aproximação do presidente guineense e provavelmente do seu homólogo senegalês, como já mencionei, nessa altura do campeonato, por assim dizer, não agrega nada ao país e ao continente, senão rancor, retaliação e desestabilização. Destarte, vos asseguro que não é de interesse dos guineenses e dos africanos, pois o interesse dos guineenses e dos africanos nesse momento são, aliás, desde sempre foram os crônicos problemas sociais e econômicas que impiedosamente nos afligem a todos.

Ao invés de nos oferecer como panaceia para os problemas alheios não é melhor focarmos nos nossos próprios? Os conflitos no Sael e no Mali, os já caducos conflitos internos em Moçambique, na Líbia e na África do Sul e em numerosos outros países do continente já foram sanados? As inseguranças marítimas e alimentar, o narcotráfico, o crime organizado… todas essas problemáticas que nos afetam diretamente já foram remediadas? Obvio que não. Então por que é que tem que ser a Guiné-Bissau e a África a encontrarem soluções para o conflito instalado no leste europeu?

Bem, uma coisa é certa e deve ser levada muito a sério por todos. A Guiné-Bissau e a África precisam de autonomia, altivez e protagonismo em tudo o que diz respeito a seus interesses. Não se deve cogitar e muito menos aceitar qualquer tipo de ingerência e pressão para agir nesta ou naquela direção, como parece ser esse o caso de Macron em relação ao presidente Sissoco e Macky Sall.

Em suma, parafraseando Morgenthau, citado logo na introdução desse artigo, as políticas externas guineenses e do continente devem ser responsavelmente conduzidas, não visando o culto de personalidade e de ambições e realizações pessoas, mas sim em estrita sintonia e observância do contexto no qual estão sendo formuladas e dos possíveis benefícios a serem obtidos para o país e o continente de maneira geral. O que não se reflete nessa investida do presidente Sissoco e Macky Sall, que eu, particularmente, concebo como mais uma armadilha da França e o ocidente para com a Guiné-Bissau, a África e os africanos.

Por: Deuinalom Fernando Cambanco

Mestre em Relações Internacionais pela UFBA

REFERÊNCIAS

DW. Guiné-Bissau: Sissoco Embaló promete visitar Kiev. 2022. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/guin%C3%A9-bissau-sissoco-embal%C3%B3-promete-visitar-kiev/a 62715897?fbclid=IwAR2SCA4dKy4pLG5co3mtr5PrapT8Zl7YMJ1YoDe6slJOkuUdb3M4qrK5yiE>. Acesso em: 04/08/2022.

Presidencia da República da Guiné-Bissau. Disponível em: <https://www.facebook.com/presidentesissoco. Acesso em: 04/08/2022.

MORGENTHAU, Hans J. Política entre as Nações. Brasília: Editora UnB, 2002.

2 thoughts on “Opinião: REUNIÃO DOS PRESIDENTES SISSOCO E ZLENSKY SOB UM OLHAR PRAGMATISTA E REALISTA

  1. É obviamente que o continente africano está a ser empurrado a demonstrar a direção que pertence ou seja melhor dizer neste conflito de Rússia e Ucrânia dizer quem tem a razão. Por isso é um caso que exige muita prudência dos líderes africanos porque aqui estamos a falar das grandes potências nucleares do mundo, para isso devemos ainda resolver o nosso problema a nível do continente africano sobretudo os golpes de Estado quase torna-se o modelo na África ocidental.

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