Opinião: Acordo de paz entre o regime do Macky Sall e o MFDC, patrocinado pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló

Tomamos o conhecimento, na Quinta-Feira passada, dia 5 de agosto de 2022, pela notícia das medias, da assinatura de um acordo de paz entre o Governo senegalês do Presidente Macky Sall e o Movimento das Forças Democráticas de Casamança (MFDC), patrocinado pelo Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló. Um acordo referido pelo Governo Senegalês como “Acordo histórico de paz”, como se fosse, foi o primeiro do género. Pela compreensão dos nossos leitores, da nossa análise a seguir temos logo no início, de conhecer quais os envolvidos no acordo, ou melhor quais as individualidades envolvidas neste último acordo de paz sobretudo da parte do MFDC, a fim de se poder tirar ilações sobre o dito acordo.

Aqueles que tiveram a oportunidade de ler o documento assinado em Bissau concordaram comigo que depois do Almirante Farba Sarr em representação do governo Senegalês no lado do MFDC estavam na cerimônia Lamine Coli; Lassana Fabouré e o general César Atoute Badiatte comandante do quartel de Kassolol da frente Sul do MFDC. César é o oponente radical do Salif Sadjo e que teve mais combatentes até um passado mais recente, mas antes de prosseguir nossa análise temos que contextualizar o MFDC que estamos a tratar.

O MFDC de origem foi criado em 14 de março de 1947 na cidade de Sédhiou, pelos então quadros políticos e intelectuais da região da Casamança que são: Ibou Diallo, Adama Diallo, Emile Badiane, Assane Seck, etc. e o objetivo da sua criação não tem nada a ver com a reivindicação do atual MFDC. O MFDC de hoje, que reivindica a independência da região sul do Senegal está dividido em três alas, facções ou grupos que são: o grupo radical que não quer nada com o governo Senegalês, que ocupa o norte da linha fronteiriça com a Gâmbia e que reclama sempre a independência da região da Casamança é liderado por Salif Sadjo; o segundo grupo é do César Atoute Badiatte que ocupa o quartel de Kassolol no sul, na linha fronteiriça com a Guiné-Bissau e finalmente o terceiro grupo do Nkruman Sané refugiado em França mas que hoje é comandado por Adama Sané. É esta última ala que dirigia Compasse Diatta, mas antes do Compasse Diatta foi dirigida por Ousmane Gnantan Diatta. Aqui é de relembrar porquê Ousmane Gnantan Diatta foi afastado da liderança desta ala, é que ele foi suspeito de negociar com o governo Senegalês sem o aval das suas tropas e estas últimas lhe acusaram de trair os objetivos do movimento, como o Gnantan estava doente foi levado pelas autoridades senegalesas para Foundiougne na região central do Senegal para tratamento e nunca voltou para as matas até a sua morte. È a partir desta altura que o Compasse tomou a direção desta ala, mas compasse foi acusado igualmente de traição quando a sua vez iniciou, também, as negociações com o regime do Senegal, ameaçado de morte pelas suas tropas fugiu para a base denominada de “la deux ou la 2”, é nesta altura que foi substituído por Adama Sané. Então naquele momento, no terreno, houve três comandantes, nomeadamente Salif Sadjo que se reclama ser o chefe do Estado Maior do MFDC, seguido por Cesar Atoute Badiatte comandante do quartel do Kassolol e que teve mais soldados até recentemente e o terceiro comandante que responde às ordens do Nkruman Sané, chamado Adama Sané. Ainda é importante assinalar um outro grupo não menos importante chamado do grupo de Diakaye que também detêm armas e que ocupa uma parte do departamento de Bignona na localidade do mesmo nome, contabilizando este grupo podemos dizer que hoje em dia há quatro facções do MFDC que se opõem um ao outro e se combatem entre elas se se encontram.

Em 2016, quando o Yahya Jammeh perdeu as eleições em Gâmbia e queria recusar entregar o poder, uma parte do MFDC lhe queria ajudar, é nesta circunstância que nasceu um outro grupo comandado por Paule Alukassime, é este Paule Alukassime que o Governo do Macky Sall disse que teve um tenente do nome Ousmane Kabili Diatta que foi preso em Dakar pelas autoridades Senegalesas na famosa história “das forças ocultas” que iam queimar Dakar nas manifestações da oposição senegalesa. È de notar que todos eles eram do grupo do Salif Sadjo, mas saíram dali e foram se juntar com o grupo do Adama Sané na base “la Deux ou la 2”.

No ano passado, em 2021 as tropas Senegalesas, sob o comando e direção do Coronel Candé lançaram uma operação que destruiu a base dos rebeldes que estava em Sicoum e o “la Deux ou la 2”, foi a partir deste momento que Paule Alukassime em fuga a direção do Kassolol, mas não chegou ali fundou a base chamada de “la vingt deux ou la 22” junto à Aldeia de Bugnak. Recordamos que os grandes chefes do atual MFDC são: Salif Sadjo; Cesar Atoute Badiatte e Adama Sané, este último responde somente às ordens de Nkruman Sané exilado em França.

O acordo de paz que o governo do Macky Sall assinou na passada Quinta Feira dia 04 de agosto em Bissau sob o patrocínio do Presidente Sissoco e que foi apresentado ao povo Senegalês e aos observadores atentos, foi rubricado por um chefe conhecido por todos que é César Atoute Badiatte.

O interessante a saber na história do Cesar, é que ele tinha dito uma vez que “ele não estava ligado com as questões de assinatura de acordo de paz porque ele é um soldado, um militar e que se o governo Senegalês queria negociar deveria o fazê-lo com a ala política do MFDC.” Mas no documento assinado em Bissau, no passado dia 04 de agosto de 2022, é o mesmo César militar, Cesar combatente que o rubricou e que o governo do Macky Sall, representado pelo Almirante Farba Sarr foi negociar o dito protocolo de Paz. Uma outra coisa na historia do Cesar Atoute Badiatte que assinou o acordo de paz de Bissau, é que ele foi condenado junto com René Catem Bassene e Oumar Ampouye Bodian pela justiça Senegalesa a pena perpetua no processo de assassinato de 14 pessoas da Aldeia casamansense de Bofa Baiote. Os dois, Bassene e Bodian estão na prisão, mas o César que ordenou a matança não estava presente no julgamento, mas condenado por acostumas e um mandato de captura internacional foi lançado contra ele. Foi este César que o governo do Macky Sall foi assinar um acordo de paz, um acordo apresentado como uma grande revolução e que com este acordo a paz voltará à Casamansa de forma definitiva. A anomalia evidente é que alguém com um mandato de captura internacional, condenado pela justiça Senegalesa a pena perpétua é quem negociou com o governo do Regime de Macky e assinante de um acordo de paz.

A incompreensão mais grande reside no fato que a Guiné-Bissau e o Senegal assinaram múltiplos acordos e dentre estes há um acordo de extradição e de perseguição de criminosos, como é possível o Senegal assinar um acordo de paz, com alguém que ordenou a execução sumária de 14 pessoas, julgado e condenado à pena perpétua? Como este alguém pode viver tranquilamente em cacheu, na Guiné-Bissau sem que o mandato de captura lhe seja aplicado?

Uma realidade adicional é que desde 2018, Cesar Atoute Badiatte não está nas matas de Kassolol, tem problema de vista. Um dos seus olhos tem catarata e foi por isso que em 2018 aquando do assassinato que teve lugar em Bofa Baiote ele estava a subir uma operação de olho em São Domingo ou nos arredores e presentemente ele vive em Cacheu com a sua família conhece-se a sua casa naquela cidade.

Continuando o nosso cúmulo de elementos para compreensão do acordo de paz de Bissau, recordamos que alguns meses atras, digamos no início deste ano 2022, a ala do Salif Sadjo prendeu alguns militares Senegaleses e logo depois da libertação destes, seguido da perda de autarquias pelo regime Sall, as forças senegalesas lançaram uma operação ofensiva com o objetivo de destruir todas as bases do MFDC. O que não se entendeu desta operação é que quando as forças armadas senegalesas estavam a bombardear as bases do Salif Sadjo, ao lado destas bases do Sadjo estavam as bases do grupo de Diakaye e as forças senegalesas saibam das posições deste grupo, mas não lhe incomodaram, não foram objeto de bombardeamento. A mesma situação se verificou no ano passado quando o Coronel Candé atacou e destruiu a base rebelde de Sikoum, tomou “la deux ou la 2” e Buniak, mas durante todo o período que bombardearam as bases rebeldes que estavam na linha fronteiriça da Guiné-Bissau, souberam onde estavam o quartel do Cesar Atoute Badiatte em Kassolol, mas não o atacaram até hoje, não foram objeto de bombardeamento e Cesar desde 2018 não estava em Kassolol.

Um elemento desconhecido de muitos é que houve um movimento rebelde que se eclodiu no quartel de Kassolol, que protestou que o Cesar Atoute Badiatte não pode continuar a liderar o grupo por que para além do fato que está a envelhecer tem problemas de vista. Quem dirigiu este golpe interna de Kassolol contra Cesar é chamado Vieux Endrix Diédhiou que foi apoiado pelos jovens combatentes originários da sua tabanca de Siganar que estavam junto com ele no quartel de Kassolol, ele é hoje o líder de fato da base Kassolol, os combatentes que recusaram de reconhecer a autoridade do Vieux Endrix Diedhiou saíram da base de Kassolol e foram juntar-se a base “la vingt deux ou 22” do Paule Alukassim antigo tenente do Salif Sadjo que fugiu para “la deux ou la 2” a Sikoum e depois do bombardeamento desta continuou para “la vingt deux ou 22” não longe de Kassolol. Esta é a realidade presente no terreno, daí que o Cesar Atoute Badiatte não tem mais nenhuma base. Os que estão em posse deste conhecimento da realidade no terreno disseram que o acordo de Bissau foi assinado por um general sem as suas tropas e César foi sozinho assinar o acordo de paz com o governo senegalês. Salif Sadjo e o seu grupo não fizeram parte do acordo; Adama Sané e o Nkruman Sané não fizeram parte do acordo e finalmente o grupo de Diakaye não fês parte do acordo. Lassana Fabouré e Lamine Coli, que estavam em Bissau na altura de assinatura, foram por que René Capin Bassene e Oumarou Ampouye Bodian os cúmplices do Cesar estão a cumprir a sua pena de prisão perpétua.

Em 31 de julho de 2022, a coligação, “Benno Bock Yakhar” do Presidente Macky Sall perdeu a maioria absoluta no parlamento senegalês na véspera do anúncio dos resultados, o regime Sall apresentou ao povo Senegalês um acordo de paz extraordinário com o MFDC mostrando assim a vitória do presidente Macky Sall na questão da Casamança, fazendo nos crer que a paz voltou em Casamança. O objetivo é de utilizar esta chamada vitória para a campanha eleitoral presidencial, o mesmo jogo que utilizaram quando perderam as autarquias, iniciaram o bombardeamento do grupo do Salif Sadjo. O protocolo de Bissau do passado dia 04 de agosto foi nada mais que a repetição daquilo que aconteceu com Ousmane Gnantan Diatta em Foundiougne que também assinou um acordo de paz e lançou o apelo a partir dali um acordo que foi letra morta. O acordo de Bissau não trouxe nada de novo em relação aos anteriores acordos e o Almirante Farba Sarr foi o mesmo no tempo do Abdoulaye Wade a assinar estes tipos de acordos.

Em conclusão podemos dizer que o acordo de paz assinado na quinta Feira dia 04 de agosto de 2022 entre o governo Senegalês e o MFDC, não passa de um cosmético político do regime Macky Sall e não o regresso da paz em Casamança.

Banjul, 12 de agosto de 2022.

Por: Abdou Jarju

Mestre em Ciências políticas e Relações Internacionais: segurança e defesa pela Universidade Católica Portuguesa,

Antigo embaixador

1 thought on “Opinião: Acordo de paz entre o regime do Macky Sall e o MFDC, patrocinado pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló

  1. Claramente está explicado o contexto político que norteou a celebração do famoso acordo de paz.

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