A capital da Guiné-Bissau viveu um apagão total que teve como consequência, a falta de atendimento de casos graves no único hospital de referência do país, a maioria das rádios e jornais ficou em silêncio por mais de 24h, as mulheres que fazem compras domésticas semanais para a cozinha tiveram prejuízos incalculáveis, etc. Foi um apagão inédito e vergonhoso para um Estado que diz não ser pequeno. É preciso alternativas à empresa Karpower, que fornece a electricidade à Empresa da Electricidade e Águas da Guiné-Bissau (EAGB), para que essa desgraça não volte a acontecer na pátria do Amílcar Cabral e dos Combatentes da Liberdade da Pátria.
A EAGB tem demonstrado a incapacidade para fornecer energia e água a citadinos de Bissau, por manifesta incapacidade financeira. Aliás, os constantes cortes de energia que culminaram no apagão total são exemplos claros desta incapacidade.
Enquanto continuarmos a fazer das instituições do Estado empresas de partidos políticos que acedem ao poder, para empregar os seus militantes e simpatizantes, não haverá o desenvolvimento almejado nem o progresso. A EAGB está como está hoje por cumplicidade dos sucessivos governos que criaram “mordomias milionárias” para os reformados da política no Conselho de Administração da empresa. Até agosto deste ano, segundo dados do ministério das finanças, a EAGB arrecadava mensalmente cerca de um bilião e quinhentos milhões de francos cfa, um valor inferior a sua despesa mensal que é cerca de dois bilião e quinhentos milhões de francos cfa, e o executivo disponibiliza mensalmente à EAGB quinhentos milhões de francos cfa para pagar as constas das instituições públicas. É preciso pararmos e pensarmos se vale a pena continuarmos com uma empresa que não rende ao Estado.
Na minha opinião, temos duas saídas para resolver a crise energética em Bissau. A primeira é a de o governo avançar para a contratação de uma instituição internacional credível para auditar as contas da EAGB, e em seguida realizar um recenseamento presencial dos funcionários para apurar o número real dos efetivos da EAGB e as despesas mensais, de forma a promover uma reforma profunda da empresa e a restruturação da EAGB e a segunda saída é a de contratar uma empresa especializada para acompanhar a Guiné-Bissau nas futuras negociações com a Karpower.
A par destas saídas, deve-se preparar não só um decreto-lei de privatização da EAGB, mas também procurar outras alternativas ao fornecimento da energia elétrica à cidade de Bissau, que, na minha opinião, deve passar pela aquisição de novos grupos de geradores para a empresa.
Segundo o ministro da Energia, o consumo mensal da energia é de 22 a 24 Megawatt (MW) mas pagamos 30MW e em dezembro passa para 40 MW, assim sucessivamente. Não, não podemos continuar a pagar uma fatura que não consumimos. O governo tem de ousar tomar medidas de fundo, sob pena de ser acusado de cumplicidade no acordo mal feito pelos anteriores executivos.
É urgente o governo vender, pelo menos, 80% do capital da empresa, deixando o Estado com 15% e os 5% do capital estariam disponíveis para os trabalhadores. É necessário que o governo diminua, pelo menos, 50% dos subsídios dos membros do Conselho de administração e de outras funções inventadas na EAGB, para aliviar a pressão com que se depara a empresa em cumprir a sua missão de fornecer a energia e água em Bissau.
Por: Tiago Seide
Professor e Jornalista





















