[ENTREVISTA] O diretor do Centro de Saúde do setor de Bubaque, Ercénio Lourenço Upate, alertou para a necessidade urgente de criar condições laborais para garantir que os técnicos possam trabalhar em condições de dignidade humana e salvar vidas.
Em entrevista ao jornal O Democrata para falar da situação sanitária em Bubaque e do impacto da greve no setor de saúde decretada pela Frente Social, Ercénio Lourenço Upate defendeu que é urgente criar as condições de trabalho para travar a fuga de quadros de saúde para o estrangeiro.
Neste sentido, aconselhou o governo e outras entidades ligadas ao setor a adotarem política concretas de retenção de técnicos, alertando que se essa situação não for melhorada, o país continuará a ter os mesmos problemas no setor e nunca mais será capaz de controlar a saída sistemática e desenfreada de número significativo de técnicos para o estrangeiro, à procura de melhores condições de vida.
“A falta da criação de condições laborais e salário digno para os profissionais de saúde tem criado muitos problemas no setor. Os jovens quadros estão a abandonar o país porque temem pelo futuro deles. A fuga de quadros é notável em todos os setores, não estamos a falar apenas do setor de saúde. As autoridades devem trabalhar seriamente na definição de políticas de retenção de quadros e garantir as condições para que as pessoas possam trabalhar e ganhar bem. Essa política de retenção poderá servir de uma alavanca para o desenvolvimento do país. O país não pode continuar a formar pessoas e perdê-las do nada, não”, afirmou.
O diretor do Centro de Saúde do setor de Bubaque revelou que o centro local está a deparar-se com insuficiência de técnicos.
Neste momento, por exemplo, o centro conta com cinco médicos que não conseguem colmatar as necessidades das comunidades, por estarem a responder também às outras ilhas circundantes.
“Quando se trata de um atendimento médico, nos dias normais de funcionamento do hospital, os médicos devem trabalhar nos diferentes serviços todos os dias úteis da semana, tendo em conta as especialidades de cada um e durante os fins de semana trabalham em equipa e em turnos”, disse.
Para além da insuficiência de técnicos, disse que o centro de saúde de Bubaque tem enfrentado também problemas relacionados com o saneamento básico, à energia e a água potável, sobretudo nos períodos críticos como no das chuvas, o que obriga a direção a recorrer, no caso de eletricidade, ao uso de painéis solares não só para fornecer a energia ao hospital, como também para a eletrobomba.
De acordo com Ercénio Lourenço Upate, nem sempre a radiação solar consegue garantir que haja fornecimento de energia 24 horas.
“Nestas circunstâncias, fazemos os ouvidos de marcadores, desligamos alguns aparelhos, suspendemos o fornecimento de água e poupamos a eletricidade para manter o centro iluminado vinte quatro horas”, lamentou e disse que essa situação também é recorrente na época da seca, período em que a radiação parece ser mais equilibrada e forte.
Denunciou que o serviço de Raio X do seu centro não está a funcionar e que o hospital carece de outros tipos de equipamentos que estão a dar falta nos diferentes serviços, tendo aproveitado a ocasião para pedir às autoridades no sentido de melhorar a situação do setor de saúde local em termos de recursos humanos, equipamentos e condições de trabalho, para evitar a fuga recorrente de quadros para o estrangeiro.
“Recomendava que as autoridades adotassem uma política de retenção de técnicos, porque se não forem criadas as condições e melhorado o sistema nacional de saúde, o país terá sempre os mesmos problemas e nunca será capaz de conter a fuga dos quadros deste setor chave para o estrangeiro”, afirmou.
Relativamente a casos frequentes, sublinhou que no período das chuvas o centro recebe, com frequência, os casos do paludismo, problemas de saúde ligados a má alimentação (desnutrição), gripe, catar comum, independentemente de período, é uma zona com casos de hipertensão arterial (tensão alta), considerando que é um problema crónico que precisa de seguimento e controlo adequados e recorrentes.
Os sindicatos do setor de saúde em greve estão a exigir o pagamento de dezassete (17) meses aos técnicos novos ingressos, pagamento da dívida contraída com os técnicos de saúde e melhorias de condições de trabalho.
Questionado sobre o impacto da greve no setor de saúde, o diretor de Centro de Saúde de Bubaque informou que a greve decretada pela Frente Social, uma organização sindical que congrega os sindicatos dos setores da saúde e da educação, não tem tido impactos significativos na comunidade e na área sanitária de Bubaque, porque “os atendimentos continuam como antes e os médicos prestam todos os dias os serviços mínimos a utentes”.
De acordo com esse responsável, os técnicos efetivos não aderiram à greve, apenas os recéns colocados que estão nessa reivindicação, tendo esclarecido que os enfermeiros não fazem parte do grupo de técnicos em reivindicações, porque “são efetivados, apenas os médicos recém-colocados aderiram à paralisação”.
“Quando há greve, no centro hospitalar de Bubaque os médicos prestam serviços devido às especificidades da zona. Nestas condições, não se pode tomar outra posição ou decisão, porque estando na greve ou não o centro de saúde de Bubaque não apresenta nenhuma diferença para a comunidade. Tudo se mantém como antes”, afirmou.
Por Jacimira Segunda Sia





















