O Comité da comunidade de Acoco, Caramó Augusto, disse que essa localidade da zona insular do país enfrenta muitos problemas sociais e que é urgente uma intervenção das autoridades locais e do governo central para travar a fuga de jovens para os centros urbanos, com a implementação do ensino complementar na ilha.
Em entrevista ao jornal O Democrata, Caramó Augusto contou que a aldeia enfrenta diversos problemas sociais, tendo em conta a especificidade da ilha, onde se deparam essencialmente com a falta de água potável e de infraestruturas sanitárias e escolares nessa comunidade.
Soube O Democrata que a aldeia de Acoco não possui nenhum posto de saúde funcional, nem eletricidade pública, os seus habitantes recorrem a painéis solares e lâmpadas a pilhas ou velas. As crianças de Acoco,para estudar até 4º ano de escolaridade são obrigadas a percorrer 4 km diários até a tabanca de Acuno, que fica a 2 km de distância. Para estudar de 5º a 9º ano percorrem 6 km diários para o centro de Abu, que fica a 3 km. Para continuidade aos estudos liceais, tem duas opções; a primeira opção é Bissau e a segunda é Bubaque, caso contrário ficam sem estudar.
CURANDEIROS TRADICIONAIS SÃO “BALÃO DE OXIGÉNIO“ DAS GRÁVIDAS DA ALDEIA DE ACOCO
A aldeia é conhecida por ter grande número de curandeiros tradicionais, se não recorrer ao centro de saúde situado em Abu, os habitantes de Acoco são assistidos pelos agentes de saúde comunitária, em alguns casos por curandeiros tradicionais e madronas, principalmente quando se trata de trabalho de parto, de acidentes no trabalho ou quando caem das árvores ou palmeiras, mordidas de cobras e febre-amarela.
Com grande número de jovens e adolescentes a abandonarem as aldeias para Bissau, grande parte de famílias perdeu a capacidade de fazer grandes produções, bem como contribuir diariamente nas atividades em prol da sua comunidade.
“Pedimos que nos coloquem mais professores e aumentem o nível de escolaridade aqui na ilha para evitarmos a saída precoce dos nossos filhos de cá e de outras localidades para Bissau ou Bubaque”, implorou.
Neste momento, segundo avançou, a aldeia não tem poço, utilizam a fonte natural à beira dos rios que, por vezes, são condicionados pela maré, principalmente a maré alta, misturando a água doce com a salgada.
“A nossa maior preocupação é a água potável. Às vezes ficamos horas e horas sem água até baixar a maré e a distância para esse poço é de dois quilómetros, o que significa que percorremos quatro quilómetros para ter água em casa. O poço que tínhamos dentro da aldeia na tentativa de melhorá-lo acabou por desabar devido à forte pressão da água”, disse o comité, sublinhando que os doentes em estado greve são evacuados pelos familiares, tanto ao nível da Formosa como para Bissau ou Bubaque.
“Se tiver doente grave aqui em Formosa, recorremos às motorizadas. Se não tiver, usará canapé até chegarmos à localidade de Abu. Já não há peixe como antes, há espécies que já não encontramos agora como peixe-espada e peixe Berga. Há pescadores que vêm de fora para pescar aqui. Nós da Acoco fazemos parte da gestão do parque comunitário de Urok, temos calendarização até para a exploração dos moluscos porque sentimos que há diferença entre o que tínhamos e que hoje não temos ou está a escassear-se aos poucos. Aqui quase todos os homens pescam, mas como é uma zona de parque, não é uma atividade principal para a nossa sobrevivência”, indicou.
Considerou boa a relação entre a comunidade e as autoridades de preservação e fiscalização (Guarda Costeira, IBAP e Tiniguena), porque “o parque de Urok é Comunitário onde as decisões e regras são tomadas numa Assembleia Geral”.
Informou, neste particular, que a presença dessas entidades trouxe mudanças, principalmente da Tiniguena, que contribuiu significativamente no desenvolvimento não só da ilha de Formosa, como do Urok.
“Não se pode falar da Formosa ou de Urok sem mencionar a ONG Tiniguena”, enfatizou e disse que os grandes conflitos comunitários são na maioria resolvidos ao nível de um conselho liderado pelo comité da aldeia e são raras as vezes que precisaram ir às autoridades policiais.
INSUFICIÊNCIA DOS PROFESSORES NAS ESCOLAS PÚBLICAS PREOCUPA A INSPECÇÃO SETORIAL DE CARAVELA

A inspetora de Educação do setor de Caravela, Laurinda da Costa dos Santos Cabral, considera a situação do ensino naquele setor de Caravela como pior ao nível da região de Bolama-Bijagós, cujas infraestruturas escolares são precárias, insuficientes. Explicou que quase todas as escolas não têm condições e capacidades de atender as necessidades das suas comunidades e porque cada escola tem apenas duas salas de aulas, com exceção da escola localizada em Abu, centro administrativo de Formosa.
Denunciou que na Ilha de Formosa, a inspeção funciona nas salas dos professores e na residência privada da inspetora setorial. Para se fazer inspeção nas escolas, a inspetora é obrigada e pedir emprestado uma motorizada para se chegar às escolas mais distantes, cuja distância varia até 8 quilómetros dentro da ilha de Formosa e para as outras ilhas recorre a boleias nas pirogas da pesca, o que constitui um risco e uma ameaça à sua integridade. Segundo a Laurinda, as suas condições de trabalho são do conhecimento da inspeção geral.
Dados estatísticos indicam que o setor conta apenas com quinze (15) escolas, das quais cinco (5) privadas e dez (10) públicas e conta com apenas 39 professores distribuídos da seguinte forma: Caras quatro professores, duas escolas, uma em Ampintcha e outra em Binte e leciona até ao quinto ano. Secção de Carnaval tem três escolas, 12 professores, em Anipoco, Bitele e Caret, cujos níveis variam até ao sexto ano. Em Nago uma escola, três professores e leciona até ao quinto ano. Chediã tem uma escola, três professores e leciona até ao quarto ano. Em Formosa oito escolas, 17 professores e leciona até 9º ano de escolaridade. Ao nível do setor, Abu-Formosa é a única escola que funciona em regime de autogestão.
No universo de 39 professores, apenas um tem qualificação para o terceiro ciclo e para cobrir esse ciclo as escolas são obrigadas a contratar pessoas locais com domínios em matemática, Biologia e Química de modo a assegurar o funcionamento do terceiro ciclo.
Denunciou que há escolas que não têm banheiros, água potável e eletricidade e deparam-se com a falta de materiais didáticos.
Laurinda explicou que, para colmatar o défice de professores, foi adotado o sistema de contratação de professores comunitários de forma a aliviar os sacrifícios dos alunos em percorrer 12 km diariamente, que em alguns casos ficam de fora do sistema educativo.
“Em Catem decidimos escolher um professor dentro da comunidade. Em Ancanac temos apenas três professores. Queremos este ano implementar o ciclo em algumas escolas e espero que o governo coloque mais professores, sobretudo do terceiro ciclo, porque há uma necessidade de implementar, com a máxima urgência, o terceiro ciclo em outras localidades”, disse.
“As comunidades que não têm professores, os alunos são obrigados a percorrerem quilómetros e quilómetros para ter acesso à escola”, revelou e mostrou-se preocupada com a falta de escolas em Caravela.
“Temos falta de escolas e há aldeias que nem sequer têm nível pré-escolar. Está em curso uma mobilização para a construção de pavilhões para que as crianças das aldeias mais longínquas tenham acesso ao pré-escolar”, sublinhou.
Revelou que há uma recomendação, ao nível da região de Bolama, para a implementação do nível pré-escolar em todas as escolas públicas. Também o ministério ordenou o funcionamento das aulas apenas em dois turnos, de manhã e à tarde, tendo em conta a situação precária das escolas.
Finalmente, considerou positivo o nível de aproveitamento dos alunos no ano transato porque também houve esforço por parte dos professores que tiveram poucas ausências e as meninas continuam a liderar a taxa de frequência.
LIVROS DE REGISTRO CIVIL DO SETOR DE CARAVELA AMONTOADOS EM BUBAQUE
Em entrevista concedida ao semanário guineense, o secretário administrativo do setor de Caravela, Adulai Balde, confrontado com algumas constatações e opiniões relativamente à situação de vida da população do setor de Caravela, revelou que a administração local enfrenta uma série de dificuldades para executar as suas tarefas e atender as necessidades da sua população a nível do setor de Uno. Denunciou que há anos que o setor não tem serviços de Registro civil, porque “já levou muitos anos que um conservador veio e levou todos os livros para Bubaque e cravou a vida da população de Caravela”.
“Se quiser agora aceder a um documento seu, tens que ir a Bubaque tratar do assunto, mesmo tendo sido registado aqui. Todo os livros do setor estão em Bubaque”, denunciou e disse que essa zona insular do país tinha um delegado de registo que estava em Bubaque que percorria as ilhas ao nível do setor para fazer registos, mas depois de emigrar “nunca mais tivemos a sorte de ter uma pessoa dedicada como este senhor”.
Denunciou que instalações do Comité de Estado estão num estado de precariedade, sem eletricidade, com uma bandeirinha rota e ofuscada que indicava a presença do Estado guineense. O edifício alberga também a delegacia de Serviços de Informações de Estado, um pouco dos materiais do Gabinete Técnico de Apoio ao Processo Eleitoral (GTAPE). Uma parte do edifício foi adaptada como residência do administrador.
Explicou que o setor de Caravela é dos que menos oferece receitas ao Estado, tendo em conta que a sua economia é fraca e tem apenas dois boutiques ao nível da ilha de Formosa.
Apesar da estrutura física do Comité de Estado ter sido recuperada pela ONG Tiniguena, neste momento está a precisar urgentemente de uma intervenção, visto que os painéis estão a ter falhas devido ao sistema solar instalado e relatado pelo secretário setorial.
Relativamente aos conflitos, disse que os conflitos são na maioria resolvidos pelos comités das aldeias, enquanto a eletricidade e água potável continuam a ser uma miragem na ilha.
“Aqui não há eletricidade e cada cidadão compra seu painel. Não há luz nem postes na rua. Água potável é só na sede da Tiniguena e no centro de saúde. Quando há crise, consumimos a mesma água que os animais. Não temos mercados e se um cidadão tiver o seu produto para comercializar tem de fazê-lo a pé passando de porta a porta”, disse a administração local.
Sobre o transporte que liga Formosa a Bissau e outras ilhas, explicou que não têm transporte regular para Bissau e vice-versa. O que tem são botes da Tiniguena que permitem fazer a ligação regular onde a população consegue fazer escoamento dos seus produtos e abastecer os pequenos centros onde vendem alguns produtos.
“Antes a ligação era regular, mas agora não. Segundo o comité de gestão de Urok, essa irregularidade nas ligações inter-ilhas e das ilhas com Bissau deve-se aos custos que acarretam. Fazer funcionar um bote é muita coisa. Gasta muito combustível. Às vezes, o número de passageiros é reduzido. Agora fazem mais de uma semana sem fazer carreira, inicialmente tinha uma rota regular. Esperamos que tudo dê certo com o projeto Tiniguena para que a ligação volte a ser regular”, disse.
Relativamente aos setores da educação, Adulai Baldé descreveu como “um problema caricato e crónico neste setor”, visto que os professores chegam atrasados e são insuficientes para dar cobertura às necessidades das populações em todas as secções que compõem o setor de caravela, razão pela qual os jovens que têm concluído o 9º ano de escolaridade abandonam a ilha para Bissau.
Explicou que a maior atividade a nível setorial é a pesca e o cultivo, mas ao nível da Formosa por ser Área Protegida a pesca é fraca. Nos últimos anos, a exploração de moluscos dominou, mas que antes não se fazia, por questões tradicionais e que era desagradável para os “irãs” fazer a exploração em determinadas áreas.
“Agora temos duas situações, uma que é a questão financeira e outra tradicional que criou alguma tensão na comunidade. Felizmente, o comité de gestão de Urok teve uma brilhante intervenção. Estabeleceu um calendário para permitir às pessoas terem ganhos financeiros e respeitar a sua preservação. O Calendário determina que a preservação seja observada entre novembro e dezembro e que a exploração seja feita em novembro ou dezembro e em março fecham. Por três meses é proibido a sua exploração para comercialização, mas para consumo interno é permitido em pequena escala”, informou.
Disse que o setor conta com um posto avançado da Guarda Costeira e são os comités de tabancas que fazem o papel de agentes fiscalizadores e de resolução de conflitos, principalmente derivados das atividades da pesca.
Por seu lado, o delegado de serviço e informação de Estado do setor de Caravela, Rui Formoso, revelou que estão a trabalhar com muita limitação e não conseguem intervir a tempo na resolução dos problemas mais frequentes.
“Temos limitações em termos de meios logísticos para execução da nossa missão. Para nos deslocarmos de uma ilha para outra na nossa área de jurisdição tem sido um dos problemas”, indicou.
ILHA DA FORMOSA: ENTRE A ESPERANÇA DOS DIAS MELHORES E AS LIMITAÇÕES DO ESTADO GUINEENSE
A Ilha de Formosa é uma das ilhas do setor de Caravela, região de Bolama Bijagós. Tem uma distância de 36 quilómetros de Bissau. A sua área é de aproximadamente 140 km2, de acordo com o censo de 2009 e tem uma população de 1.873 habitantes. Abu, a sua vila principal onde funcionam todos os serviços estatais do setor de Caravela (administração setorial, educação, saúde, segurança pública). Tem a presença do Corpo da Guarda Costeira, Administrador setorial, Serviços de Informação de Estado, Educação, missão Evangélica e a sede da ONG Tiniguena.
As atividades mais frequentes nesta ilha são o cultivo de arroz, feijão e mancara, exploração de chabéu, extração de óleo e vinho de palma, exploração de moluscos e a comercialização de palhas e castanha de Cajú.
Exploração dos moluscos é feita de dezembro a março, permitindo também outras atividades como o corte e a comercialização de palhas e a castanha de cajú. A ilha de Formosa, por ser um centro da gestão das Áreas Marinhas Protegidas Comunitárias das ilhas de Urok, a pesca não é tida como uma atividade de grandes recursos de renda, enquanto a exploração dos mariscos, principalmente conchas e ostras, é uma das atividades mais frequentes entre as mulheres. A exploração destes é calendarizada pelo comité de gestão da área.
No entanto, as questões tradicionais (Usos e costumes) têm contribuído para a preservação de algumas espécies de moluscos, porque “há cerimónias que não podem ser feitas sem alguns moluscos”.
Com um porto precário, que serve para pequenas embarcações que ficam a uma distância de 2 km da vila de Abu, o preço do pescado fixado pela administração local custa 300 francos para peixes da segunda categoria e para peixes da primeira categoria é de 500 francos.
Não possui um mercado de produtos à venda. Os provenientes dos seus recursos naturais são comercializados de forma ambulante, ou seja, de porta a porta e boca a boca. Tem apenas dois boutiques de comercialização de produtos de primeira necessidade.
Formosa é uma das três ilhas que fazem parte das Áreas Marinhas Protegidas Comunitárias das ilhas de Urok, criadas em 20 de abril de 2005 e geridas pela Assembleia Geral Urok. Tem uma superfície de 545 km², dos quais 147 km² da parte continental, 66 km² de mangal, 203 km² de zonas interditadas viscosas e 8 km² de canais profundos.
Relativamente ao transporte, Formosa conta com um bote de alumínio que faz a ligação entre Bubaque e essa ilha. Para se deslocar às outras ilhas, as comunidades fazem-no em canoas de pesca. A ligação com Bissau é feita duas vezes por semana (na segunda sai para Bissau e na sexta regressa à Formosa) e cada passageiro adulto paga 3000 francos e passageiros menores de 16 pagam 1500 francos CFA.
A equipa de reportagem de O Democrata visitou as instalações de diferentes serviços na Vila de Abu, destacando o Posto da Guarda Costeira, uma casinha sem pintura ou identificação. Soube o semanário que o posto conta apenas com três agentes recém-jurados sem salários. A operação da Guarda Costeira é limitada, razão pela qual as suas operações são condicionadas pelas atividades de fiscalização do IBAP-Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas.
Nessas condições, são obrigados a realizar operações de forma seletiva. Ao lado do posto fica uma prisão em condições extremamente precárias neste período chuvoso.
Sobre essa situação, o jornal O Democrata contactou os agentes de lá para uma entrevista sem sucesso, porque o comando superior local terá alegado “estratégias políticas”.
A Administração local não possui nenhum meio de transporte. Em caso de qualquer atividade de cobrança ou problema, recorrem a motorizadas emprestadas. Para se deslocar às outras ilhas para as atividades de fiscalização, principalmente nos acampamentos de fumagem e secagem do pescado em caravela, vão de boleia das pirogas ou de botes.
As duas emissoras das rádios comunitárias, nomeadamente a Fala de Urok e Kossona funcionam em diferentes horários. Por exemplo, a Fala de Urok funciona das sete às 23 horas, sendo alimentada por painéis solares. E a Kossona funciona das 13 às 18 horas, condicionada pela capacidade do seu sistema solar.
Por: Epifânia Mendonça





















