DON PINA: “É NECESSÁRIO UM “CASAMENTO” ENTRE A VELHA E A NOVA GERAÇÃO DE MÚSICOS GUINEENSES”

O músico nacional, André Pina (Don Pina) numa entrevista exclusiva a ”O Democrata” considera a nossa música de genuína, rica e muito bem trabalhada. Acrescentando que, talvez seja por ser multicultural que é pouco apreciada pelos jovens na diáspora.

Don Pina sublinhou que actualmente os jovens guineenses optam por ouvir mais rap, Kizomba e Afrobeat, ritmos angolanos, moçambicanos e cabo-verdeanos. Pina pediu um “casamento” entre a velha geração e a nova geração em prol do desenvolvimento da cultura guineense.

Pina não escondeu que o país está um pouco atrasado em termos de estrutura de marketing e não só. Ressaltando que “nos outros países é notável o intercâmbio entre os artistas mais velhos e os mais novos”, para que os mais novos consigam ultrapassar o patamar onde os mais velhos estavam.

“Na Guiné-Bissau isso ainda não acontece ou se acontece, ainda se contam pelos dedos, e a cultura musical de nenhum país sobrevive vivendo num só círculo, é necessário juntar a nova e a velha geração no mesmo palco, nos mesmos projectos para que possamos expandir também como outros países. Outro ponto que teremos de melhorar é a imagem dos videoclips, da publicidade na sociedade media que hoje é muito importante para a afirmação de um artista internacionalmente” exortou o músico.

“O DEMOCRATA” (OD): Don Pina como músico, produtor, compositor e intérprete guineense pode falar-nos um pouco da sua carreira musical. Como começou, o que lhe levou a apaixonar-se pela música?

DON PINA (DP): comecei a produzir beats com 9 anos de idade, usando um antigo programa de produção básica que se chamava E-JAY, e com o tempo fui evoluindo para programas mais recentes.

Na altura ouvia muito as músicas que o meu irmão mais velho (Marinho de Pina, que hoje é formado em arquitectura e é escritor) fazia, e eu ia imitando o flow, aprendendo as métricas, etc…nas ruas e na escola fazia Freestyle com os colegas, alguns deles, hoje também são artistas conhecidos no universo PALOP.

Com 11 anos já tinha o meu pequeno estúdio que era um computador antigo dos meus irmãos, (que nem sequer me deixavam usar) onde instalei o cool edit e usava um microfone barato de webcam para gravar. Foi a partir desse meu pequeno estúdio que surgiu depois a necessidade de construir algo maior.

OD: Como é que consegues conciliar a música e os estudos?

DP: Não é fácil pois às vezes privo-me de fazer muitas coisas como por exemplo estar com os amigos e ir a discotecas, para poder estar em casa a produzir ou a escrever. Outras vezes, vou escrevendo no caminho para a escola ou nos intervalos, enfim, há sempre tempo quando a gente quer de verdade.

OD: Don Pina já tem formação no domínio da nova tecnologia. Pode-nos falar um pouco da sua vida académica e musical em Portugal e na Inglaterra actualmente?

DP: Formei-me em Tecnologias de multimédia em Portugal, formação que engloba áreas como webdesign, graphic design, Televisão, Ilustração… isso deu-me maior liberdade para fazer a minha música pois, visto que eu já era produtor, não foi preciso pagar a ninguém para produzir, fazer as capas, os vídeos, e todo o resto dos meus projectos musicais, muito pelo contrário, eu é que passei a realizar esses trabalhos para os meus clientes.

Neste momento estou a terminar a minha licenciatura em Media Productions and Television Films, na universidade de Bolton, no Reino Unido, o que já me dá e dará ainda mais liberdade tanto a nível profissional como académico.

OD: É de conhecimento das pessoas que Don Pina tem um novo álbum, que até já marcou a data do seu lançamento. Para quando será esse lançamento e onde?

DP: Sim, o álbum já está praticamente pronto, intitulado “OMNIPOTENTE” embora a data de lançamento não tenha sido ainda delineada, provavelmente ficará para meados do segundo semestre do ano 2015.

Enquanto isso, já saíram alguns temas que estão dentro do projecto como o “SEMENTE DE ÁFRICA” (Tina), e o FUTURO ME ESPERA, (Rap) e no próximo dia 26 de Junho lançaremos um novo single desta vez num registo de Kizomba, com o título “MUNDOS OPOSTOS”, com a participação da Jéssica Pinto.

OD: Don Pina identifica-se mais com Rap ou RNB. Mas quais são os estilos musicais que farão parte deste novo projecto e quantas faixas fazem parte do mesmo?

DP: Sempre me identifiquei mais com o rap, pois para mim é o estilo mais completo e pode ser introduzido em todos os outros estilos e não só, por exemplo, em apenas três minutos pode-se relatar tudo e mais alguma coisa sobre diversos temas. Também é o mais usado para a intervenção social, é como um sábio dizia, “se querem saber tudo o que se passa realmente na sociedade”, oiçam Rap.

OD: Já tem cinco projectos lançados, nomeadamente Revolução Mental em 2009, Don Pina Vs Yannick Tdm – Consciência lírica em 2010, Causa Justa em 2011, Visão Holística em 2012, Efeito Dominó em 2013. Pode-nos resumir como foram recebidos esses projectos, as dificuldades e sucessos dos mesmos?

DP: Foi muito difícil no início, pois nunca tive nenhuma editora nas costas, lembro-me quando fiz o primeiro álbum, o Revolução Mental, em 2009, que foi um álbum totalmente produzido, editado, misturado e masterizado por mim.

Quase ninguém me conhecia na altura, a não ser as pessoas que eu produzia, as do meu bairro, da escola e pouco mais, lembro-me que tive que vender o álbum mão a mão e a maioria não queria sequer comprar o álbum, pois não sabiam de onde eu tinha aparecido.

Felizmente consegui esgotar as 100 cópias que tinha feito e os que compraram o álbum, gostaram tanto que uma dessas pessoas acabou por postar o álbum num site de rap português, e foi a partir daí que aos poucos comecei a ganhar mais público ao longos dos anos.

A cada projecto lançado, o meu público crescia, mas o efeito dominó é que veio para me abrir os horizontes, depois desse projecto tive vários apoios de vários países o que me deu mais motivação para fazer desta vez um álbum pra todas as idades e gostos.

O processo da construção dos meus projectos tem sido o mesmo até hoje, e por ser o criador dos mesmos desde a raiz até aos frutos é que decidi chamar a este meu próximo álbum de “OMNIPOTENTE” que será lançado pela empresa que eu criei a OMNIPOTENTE UNIVERSE e com o suporte da Label pela qual faço parte e que é composta por mais cinco artistas de diferentes países PALOP que é a BRAVO BOYZ.

OD: Como é que vê a música da Guiné-Bissau em relação a dos outros dos países lusófonos. O que é preciso fazer para melhorar a nossa cultura internacionalmente?

DP: A música da Guiné-Bissau é genuína, rica, muito bem trabalhada e talvez seja por ser muito cultural que é pouco apreciada pela malta mais jovem na diáspora, pois actualmente preferem ouvir mais Rap, Kizomba, Afrobeat, etc…

OD: Há quanto tempo não visita o país e como é que acompanha a situação política do país? Qual é a sua perspectiva como um músico atento a situação que o nosso povo vive?

DP: Já há alguns anos que não visito o país, mas tenciono ainda este ano fazer o lançamento do álbum na Guiné-Bissau.

Aqui na Europa. Conseguimos acompanhar melhor tudo o que passa no país graças ao grande trabalho que tem sido feito pelo “Jornal O Democrata” e penso que estamos num bom caminho, ainda é cedo para opinar profundamente mas dentro de 10 anos acredito que daremos um salto muito grande em todas as áreas necessárias para o desenvolvimento de uma nação.

OD: A nossa selecção Os “Djurtus” defrontou no dia 13 deste mês o seu congénere de Zâmbia. Don Pina acompanha a actualidade do nosso desporto. E qual é a sua análise sobre essa matéria. Sobretudo para essa campanha rumo ao CAN 2017 que se realiza em Gabão, onde a nossa selecção defronta no seu grupo as selecções de Zâmbia, Mali e Congo.

DP: Só pelo facto de a Guiné Bissau estar a participar, para mim já é uma vitória. Foi um passo muito grande, e apesar da falta de apoio que os nossos jogadores tiveram, mostraram claramente que temos pessoas talentosas e até de sobra, espero que consigamos chegar ainda mais longe e ver a nossa selecção representar-nos em 2017, no CAN.

OD: Actualmente a Guiné-Bissau é o melhor país de África em judo feminino, com a Taciana Baldé e na luta livre com Augusto Midana. Midana sagrou-se campeão de África de luta livre, recentemente no solo egípcio. Que comentário faz?

DP: São modalidades que acompanho muito pouco, mas graças ao site do jornal “O Democrata”, tive acesso a essa informação, é como referi acima, de pessoas talentosas, temos de sobra, no momento que nos dão a oportunidade para provar o que valemos, a concorrência começa a tremer. Parabéns à Taciana pela vitória e também ao Augusto Midana, e que venham mais medalhas de ouro.

OD: Quando é que virá ao país apresentar o seu novo trabalho ao povo guineense?

DP: Segundo os nossos planos, em Dezembro de 2015, lançaremos o álbum na Guiné-Bissau, por enquanto estamos na fase das gravações dos videoclips, da promoção do projecto e de outros pequenos detalhes em relação ao mesmo, mas podem encontrar mais informações no meu site oficial que é www.donpina.com,

Por: Sene Camará

 

 

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