O relatório da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) sobre discursos de ódio na Guiné-Bissau, entre 1 de setembro e 10 de novembro de 2025, revela que foi registado 54% de incidentes classificados como discursos de ódio online e offline na Guiné-Bissau, dos quais 13% relacionado com a violência das mulheres e 20% teve a base religiosa.
Os dados foram relatados esta quinta-feira, 18 de dezembro, pelo presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Bubacar Turé, durante o Fórum Nacional sobre discursos de ódio online e offline na Guiné-Bissau.
Na sua comunicação, Bubacar Turé afirmou que os números são “muito preocupantes” para a organização e revelam um padrão doloroso para a sociedade guineense.
O relatório mostra que 54% de casos monitorizados tiveram base étnica ou xenofobia, 13% relacionam-se com o género e a violência contra as mulheres, 20% tiveram base religiosa.
O mesmo documento relata que 59% dos casos são de gravidade moderada e 11 % configuram ameaças sérias à paz e à segurança pública, envolvendo incitação direta à violência, aos apelos a golpes de estado e a ataques abertos a grupos étnicos e religiosos.
O Relatório fala ainda de casos de espancamentos de mulheres acusadas de feitiçaria, queima de símbolos religiosos e as publicações que apelam à expulsão de comunidades inteiras, que “não podem ser tratados como meras opiniões”.
No seu discurso, Bubacar Turé defendeu que se deve investir seriamente em programas de literacia digital que ensinem aos jovens a reconhecerem e rejeitar os conteúdos de ódio, formar jornalistas, influenciadores e líderes comunitários para que sejam guardiões da ética no discurso público e, de igual modo, reforçar os mecanismos legais que responsabilizem quem incitar a violência, sem restringir a liberdade de expressão que “é a base da democracia”.
Segundo Bubacar Turé, a Guiné-Bissau tem a oportunidade de mostrar à sub-região e ao mundo que é possível responder à violência verbal com força moral da paz, da justiça e do respeito.
“O Fórum deve ser ponto de partida para um pacto nacional contra o discurso de ódio, num compromisso que una o Estado, a sociedade civil, os media e os cidadãos, num mesmo propósito, proteger o valor supremo da convivência pacífica”, sublinhou.
O presidente da LGDH afirmou que uma análise qualitativa confirmou que as redes sócias têm sido palco privilegiado para a disseminação do ódio, transformando-se em arenas de estigmatização, desinformação e incitação à intolerância, justificando que casos de xenofobia, apelos à exclusão política de grupos étnicos e religiosos, insultos contra mulheres e ataques simbólicos a outras nacionalidades foram amplamente partilhados, alimentado o ressentimento e fragilizam a coesão social.
“O discurso de ódio mina a coesão nacional e destrói o respeito entre as comunidades e distorce o verdadeiro sentido da liberdade de expressão, transformando-a em armas de ataque”, reforçou e lembrou que este fenómeno cria medo, silencia as vozes e marginaliza as pessoas, fazendo-as recuar das conquistas democráticas.
“Cada vídeo partilhado que humilha um grupo , cada Live que apela à exclusão de uma etnia , cada insulto dirigido a uma mulher ou a um líder religioso é uma pedra lançada contra a paz”, insistiu o líder da organização defensora dos direitos humanos no país.
Para a LGDH, o discurso de ódio é a negação da nossa identidade plural e solidariedade, porque “destrói o que temos de mais valioso, a confiança, o respeito, a paz social, alimenta a divisão, mina a democracia e fere o princípio mais sagrado dos direitos humanos, o direito de ver com a dignidade. Por isso, não podemos assistir passivamente a sua expansão”.

No entanto, afirmou que a Guiné-Bissau não é um país de ódio, tendo em conta a sua diversidade étnica e cultural coincidindo com respeito, solidariedade e harmonia. ‶Somos uma nação forjada na luta comum pela liberdade na cooperação entre os povos e na força da diversidadeʺ.
Por: Jacimira Segunda Sia





















