Mobilizado pelo lendário Comandante “Nino Vieira”, ex-combatente da liberdade da pátria, Mamadu Camará, afirma que, nos dias de hoje, os combatentes deveriam ser valorizados pelos esforços consentidos para a libertação do povo guineense do jugo colonial. No entanto, assegurou que a precariedade da vida a que foram e estão submetidos os veteranos de guerra pelo Estado que ajudaram a erguer leva a maioria deles, incluindo ele, a sentir remorsos e a considerar um “desperdício total” os seus esforços na luta de libertação nacional.
Em entrevista esta sexta-feira ao Jornal O Democrata, por ocasião do dia 23 de janeiro, data que assinala o início da luta de libertação, Camará falou dos motivos que o levaram a lutar e do seu envolvimento neste processo. A luta armada contra as forças colonialistas portuguesas teve início a 23 de janeiro de 1963, quando um grupo de guerrilheiros, liderado pelo Comandante Arfam Mané (N’djamba Mané), atacou o quartel de Tite, na região de Quínara, no sul da Guiné-Bissau.
Camará, hoje com 76 anos de idade, explicou que foi mobilizado para aderir à luta pelo lendário General-Presidente João Bernardo “NINO” Vieira, quando tinha entre 14 e 15 anos. Relatou que começou a luta armada em Batambali, no Setor de Empada, região de Quínara, sul do país, depois de manifestar a sua intenção de aderir à luta ao João Bernardo Vieira “Nino” e ao Umaro Djaló “Chefe de Chefe”, quando estas duas figuras da luta de libertação nacional se encontravam na sua aldeia.
ADERI À LUTA QUANDO AINDA NÃO SABIA MANEJAR NENHUM TIPO DE ARMAMENTO

O veterano de guerra disse que não esperava que o país fosse ficar como está agora com crises recorrentes.
“A situação social é precária”, criticou e disse que o objetivo de todos os jovens que aderiram à luta era libertar o país e entregá-lo aos civis para cumprir o Programa Maior, o desenvolvimento da Guiné-Bissau”, afirmou.
Mamadu Camará lembrou que Amílcar Cabral, mentor da luta, defendia que uma das missões da guerra colonial era libertar o país para que as crianças pudessem frequentar a escola sem dificuldades, tirar o povo da repressão colonial para definir a sua própria vida.
Na entrevista, Mamadu Camará afirmou que começou a luta armada na frente sul, quando ainda não sabia manejar em nenhum tipo de arma, ainda assim decidiu integrar a luta por causa das atrocidades dos portugueses.
Lembrou que os Comandantes Umaro Djaló e Nino Vieira tinham-se deslocado a Batambali para sanar um conflito numa das tabancas arredores do setor de Empada.
“Questionaram-me se teria coragem de aderir à guerra? Disse-lhes que sim. Informaram-me das dificuldades que passavam nas matas, ainda assim manifestei-lhes a minha determinação em enfrentar as consequências. Para testar a minha coragem e determinação com a idade que tinha, deram-me Noz-de-cola. Não podia imaginar, comi uma coisa que nunca tinha comido”, disse.
Mamadu Camará informou que depois de apresentar a sua preocupação aos dois, Umaro Djaló falou pessoalmente com Nino Vieira e, depois dessa conversa, deram-lhe uma pistola e a intenção era segui-los sozinho nos dias seguintes para a barraca onde Nino e Umaro Djaló estavam a orientar voluntários para a luta.
“Ri-me deles…sozinho não. Se for em equipa…em número significativo. Quando chegamos à barraca, nas matas de Tombali, reunimo-nos com os dois e daí selecionaram pessoas que iam à Guiné-Bissau. Eu e Saia Braima Na Nhagba fomos incluídos na equipa com indicações claras de Nino e Umaro Djaló para fazer serviço da residência de Amílcar Cabral”.
“EM CONACRI SERVI NA RESIDÊNCIA DE AMÍLCAR CABRAL POR SEIS MESES”

O veterano de guerra contou que ele e os colegas serviram na casa de Amílcar Cabral, em Conacri, por seis meses. Enquanto serviam na residência de Cabral, não eram permitidos frequentar Lar, residência de estudantes, crianças e altos comandantes em Conacri.
Lembrou ainda que um dia, curiosamente saíram bem equipados de calchões, tishert e sapatilhas para dar volta a alguns quarteirões com Fidel Cabral de Almada foram parar no Lar, onde se deram de cara com Amílcar Cabral.
Cheios de medo de serem criticados ou castigados, ficaram meio tímidos, foi então que ele [Amílcar Cabral] começou a perguntar um por um pelo nome, enfim, identidade pessoal. Pouco depois foram enviados para a antiga União Soviética e depois de regressarem ao país entraram de imediato para formação de exército em Boke, Conacri. Depois da formação, ele e companhia limitada foram enviados para Cubucaré, sul. Alguns dos seus companheiros de luta para norte e leste do país. Disse que no sul passaram por muita coisa dura, porque era o berço da luta. De Cubucaré, foram transferidos para Quitafine para reforçar a equipa da antiaérea. A 8 de março de 1968, numa manhã, foram surpreendidos pelas tropas colonialistas portuguesas com ataques aéreos.
“Eu tinha a minha peça no meio de um campo e os meus colegas estavam do lado de uma tabanca dos Nalus [uma das etnias do sul da Guiné]. Os tugas conseguiram aterrar e começaram a atacar-nos com Z3. Nesse ataque deixei para trás Lem-na, um colega atingido mortalmente nesse dia. O nosso comandante, Bacar Camará, foi atingido na perna. Não nos informaram, por precaução. Nunca se conhece por inteiro o estado de espírito de alguém e aquilo poderia ter abalado muitos. No período da tarde, retiramo-nos e vieram buscar-nos para Boké. Lá, os feridos receberam tratamentos médicos”, descreveu detalhadamente.
Depois deste episódio dramático de Quitafine, Mamadu Camará, de 76 anos idade, lamentou que não tenha podido recordar de tudo, sobretudo das datas em que ocorrem esses episódios todos. Segundo avançou-nos a primeira arma que manejou foi DCK e mais tarde chefe de peça da arma “Vladimir”, uma arma de quatro canos e cada cano tem um carregador de 50 balas e eram descarregadas de uma só vez, por meio de um pedal.
Firmemente afirmou que não tem nenhum arrendamento por ter lutado pelo país, porque ” foi a minha escolha pessoal e lutei com orgulho, apenas não nos fica bem ver o que vimos e continuamos a ver neste país” .
“Tínhamos DCK, quatro canos Tcheco, uma das armas que usamos em Quifatine. Eu era segundo comandante de pelotão e Máximo Rodrigo primeiro comandante em Quitafine”, apontou, sublinhando que antes de instalarem-se em Quitafine cortaram as árvores de grande porte para permitir a visibilidade de aviões e isso aconteceu a 7 de março de 68, um dia antes de serem atacados, e Saia Braia Na Nhagba era o comandante.
No grupo da antiga União Soviética composto por 25 homens, Saia Braia Na Nhagba está de vida, apenas tem problema de vista. Confessou que no grupo apenas ele e Sai Braia Na Nhagba continuam a resistir e disse-nos que esteve, durante a luta, em várias localidades do sul, nomeadamente Cubacaré, Quitafine, Candjafara. Em Candjafara foi onde celebraram a independência, dias depois de ter perdido um outro colega que morreu na queda de um avião.
Por: Filomeno Sambú





















