Os participantes do 1.º Fórum Regional sobre as Crianças Talibés, realizado na cidade de Gabú, recomendaram ao Governo central a inclusão do ensino corânico no currículo escolar, bem como a concessão de apoio aos mestres corânicos, nomeadamente através da disponibilização de ferramentas agrícolas. Defenderam ainda a integração de imames e líderes comunitários no Conselho Comunitário criado para monitorizar a situação das escolas corânicas.
O Centro Multifuncional da Juventude, em Gabú, acolheu no sábado, 11 de abril de 2026, o 1.º Fórum Regional sobre as Crianças Talibés, que reuniu cerca de 50 participantes, entre mestres corânicos, líderes religiosos e comunitários e representantes de organizações da sociedade civil. O evento foi organizado no âmbito da implementação do Projeto “Moranča di Paz”, executado pela Plataforma das Organizações da Sociedade Civil da Região de Gabú (PONGAB), em parceria com a IMPACT GB, e financiado pela União Europeia.
O fórum teve como objetivo fomentar o diálogo e encontrar soluções conjuntas para garantir o bem‑estar e os direitos fundamentais das crianças talibés, com especial enfoque nos desafios da sua integração social e proteção.
Durante os debates, os participantes destacaram a importância da sensibilização contínua nas tabancas, através de encontros comunitários, para desmistificar questões relacionadas com a proteção da criança. Foi igualmente salientada a necessidade de apoio institucional para reforçar o papel das mulheres da CAMUCA‑Gabú como mediadoras entre as necessidades das comunidades agrícolas e o sustento das crianças da região.
“QUEREMOS CRIAR PONTES E UNIÃO PARA QUE TODOS SE SINTAM RESPONSÁVEIS PELA CRIANÇA” – PONGAB
O presidente da Plataforma das Organizações Não Governamentais da Região de Gabú (PONGAB), Saico Embaló, afirmou que as crianças talibés representam o futuro da região de Gabú e do país em geral. Nesse sentido, enfatizou que os mestres corânicos, chefes de tabanca e imames da região leste da Guiné‑Bissau têm a responsabilidade de transformar o atual cenário de vulnerabilidade em que muitas crianças vivem.

Segundo o dirigente, o compromisso passa pelo reforço do diálogo entre as lideranças tradicionais, religiosas e sociais, garantindo que a proteção da criança esteja no centro das ações desenvolvidas na região.
Esclareceu ainda que o objetivo do fórum não é atribuir culpas, mas sim criar pontes de entendimento e união, de modo que todos se sintam corresponsáveis pelo cuidado das crianças, assegurando que possam aprender sem sofrimento, enquanto futuros líderes da sociedade.
“É com um profundo sentido de responsabilidade e esperança que nos reunimos neste primeiro Fórum Regional sobre as crianças talibés na região de Gabú. Gabú é uma terra de história e fé, onde a religião muçulmana é vivida intensamente. Por isso, temos um grande desafio: trazer para o centro do debate um tema que, no passado, era difícil de abordar. Discuti‑lo entre professores, imames e chefes de tabanca, sem interferências externas, é uma oportunidade única para alcançarmos um entendimento comum”, destacou.
Saico Embaló explicou ainda que o mapeamento em curso no terreno não visa fiscalizar os mestres corânicos nem o método de ensino aplicado, mas sim identificar o número de escolas corânicas existentes na região, o total de crianças por escola e as principais dificuldades enfrentadas, sobretudo ao nível logístico e alimentar.
“Essas informações permitirão a elaboração de propostas concretas a apresentar aos parceiros. Para isso, é fundamental a colaboração de todos no fornecimento de dados aos agentes que estarão no terreno”, sublinhou.
Por sua vez, o representante dos líderes religiosos da região de Gabú, Tcherno Iunussa Djaló, exortou o Governo regional a apoiar os mestres corânicos, de modo a melhorar as suas condições de trabalho e garantir um ensino adequado do Alcorão às crianças.
Defendeu que a forma mais eficaz de evitar que as crianças sejam enviadas para as ruas para pedir esmola é através do apoio estatal às escolas corânicas, uma vez que muitos mestres não dispõem de meios para garantir a subsistência dos alunos.
“As crianças talibés enfrentam enormes dificuldades nas ruas quando são obrigadas a pedir esmola, e isso não é bom para todos nós. Precisamos unir esforços para pôr fim a esta situação, que também prejudica a imagem de Gabú a nível nacional. Estou convicto de que, com apoio às escolas corânicas, as crianças deixarão de ir às ruas. Estamos totalmente disponíveis para colaborar com a PONGAB para ultrapassar, de uma vez por todas, esta situação difícil e vergonhosa para a região”, afirmou.
Por: Assana Sambú





















