A escassez de combustível (gasóleo e gasolina) registada nos últimos dias na capital, Bissau, está a dificultar a circulação dos transportes públicos urbanos, nomeadamente táxis e toca-tocas. No entanto, a situação não tem afetado de forma significativa os transportes para o interior do país, segundo relataram motoristas à equipa de reportagem do Jornal O Democrata, na manhã desta terça-feira, 18 de agosto de 2026, na Paragem Central de Bissau.
A falta de combustíveis, que se tem agravado nos últimos dias, começa a criar constrangimentos na mobilidade de cidadãos e trabalhadores dos setores público e privado, refletindo-se em longas filas nas bombas de abastecimento.
De acordo com os motoristas, para contornar a situação, muitos profissionais que operam na capital e efetuam carreiras para o interior têm recorrido a colegas das regiões para adquirir combustível, uma vez que o produto continua disponível sem grandes dificuldades fora de Bissau.
Esta estratégia tem permitido evitar o aumento dos custos de transporte e garantir a continuidade das ligações rodoviárias para o interior do país.
A equipa de O Democrata constatou uma movimentação habitual de passageiros na Paragem Central de Bissau e confirmou junto dos utentes que não houve aumento dos preços das viagens devido à escassez de combustível na capital.
“Falta de combustível afeta transporte público de Bissau e Catió”, dizem motoristas
Em entrevista à nossa reportagem, o vice-presidente da Associação dos Motoristas e Transportadores do Setor Autónomo de Bissau (SAB), Domingos Tibna, afirmou que não se verifica qualquer redução significativa do fluxo de passageiros nem aumento dos preços praticados na Paragem Central.
Segundo explicou, algumas bombas de combustível estão a distribuir senhas para o abastecimento das viaturas. Os motoristas que não conseguem obtê-las recorrem frequentemente a colegas que lhes compram combustível nas regiões.
Tibna garantiu ainda que não há escassez de viaturas para atender os passageiros na Paragem Central, facto igualmente constatado pela equipa de reportagem.
“Não estamos a enfrentar falta de carros aqui na Paragem Central. Todas as linhas de transportes mistos estão a operar normalmente. A única linha que enfrenta insuficiência de viaturas é a de Bissau-Catió”, assegurou.
O responsável acrescentou que a falta de gasóleo verificada no Setor Autónomo de Bissau afeta apenas cerca de 25% dos transportes mistos.
“Os motoristas não nos comunicaram, até ao momento, qualquer aumento do preço dos combustíveis nas bombas. O produto continua a ser vendido ao preço habitual”, afirmou.
O dirigente associativo apelou à intervenção do Governo para resolver as dificuldades que algumas viaturas enfrentam atualmente.
Apelou igualmente aos condutores para que não aumentem os preços dos transportes sem autorização do Governo ou da direção da associação.
“Qualquer motorista que decidir, de forma unilateral, aumentar os preços dos transportes sem autorização assumirá inteira responsabilidade pelos seus atos”, advertiu.
ACOBES manifesta preocupação
Em entrevista telefónica ao Jornal O Democrata, o secretário-geral da Associação de Consumidores de Bens e Serviços (ACOBES), Bambo Sanhá, afirmou que a organização acompanha com preocupação a atual escassez de combustíveis.
Explicou que os preços dos combustíveis são atualizados mensalmente através de um Conselho Consultivo liderado pela Autoridade Reguladora do Setor dos Combustíveis Derivados de Petróleo e Gás Natural (ARSECO). Segundo destacou, essa atualização depende das flutuações do mercado internacional.
“A empresa Petromar efetuou uma nova importação, mas, devido à conjuntura internacional, considera arriscado vender o produto com base na antiga estrutura de custos, por entender que isso poderá provocar perdas. Neste momento, a empresa pretende uma atualização dos preços que reflita os atuais custos de importação. Que eu saiba, não existe qualquer aumento de preço anunciado pelas autoridades. Nas negociações dos últimos dias ficou claro que uma eventual revisão dos preços dos combustíveis apenas poderá ocorrer em setembro deste ano”, afirmou.
Bambo Sanhá revelou ainda que o Governo, a ARSECO e técnicos do Ministério da Energia estão a trabalhar para encontrar uma solução consensual para a situação. Segundo disse, já terá sido alcançado um entendimento entre o Executivo e a Petromar para que a empresa continue a comercializar combustível com base na atual estrutura de preços.
De acordo com o responsável da ACOBES, na segunda-feira, 17 de agosto, foi retomada a distribuição de combustíveis para várias bombas de abastecimento a partir das instalações da Petromar, através da CLC, no Porto de Alto Bandim, em Bissau.
Apesar disso, na manhã desta terça-feira ainda eram visíveis longas filas em diversas bombas de combustível, refletindo a preocupação da população quanto ao acesso ao produto.
“Esperamos que esta dinâmica prossiga e que o processo de abastecimento não seja interrompido. A ACOBES defende uma distribuição generalizada e não limitada apenas às bombas da Petromar. Caso contrário, será difícil ultrapassar esta crise. O que recomendamos é uma distribuição integral para garantir um acesso mais amplo ao combustível”, advertiu.
Por fim, apelou ao Governo para reduzir impostos e algumas taxas associadas à importação de combustíveis, com o objetivo de aliviar os custos dos operadores económicos e facilitar o acesso dos consumidores aos produtos.
Governo garante medidas para superar a crise
Também esta terça-feira, 18 de agosto, o primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té, afirmou que a escassez de combustível resulta de fatores ligados à conjuntura internacional. Contudo, assegurou que o Governo já está a implementar medidas para ultrapassar a situação e evitar um aumento dos preços no mercado nacional.
O chefe do Executivo falava aos jornalistas após uma visita às instalações da INACEP, onde se inteirou do andamento dos trabalhos de produção de boletins e outros materiais destinados ao referendo nacional marcado para 30 de agosto.
Na ocasião, Ilídio Vieira Té anunciou que o Governo chegou a um entendimento com a empresa importadora de combustíveis para manter a estabilidade dos preços dos combustíveis no país.
Por: Natcha M’Bundé e Filomeno Sambú


















