Editorial: VALORES DOS MILITARES NA DEMOCRACIA MULTIPARTIDÁRIA

O progresso dos jovens militares numa democracia multipartidária depende da qualidade dos valores transmitidos pela geração anterior. Se essa geração tivesse sido formada numa Academia Militar onde predominassem os valores democráticos, a geração atual aceitaria naturalmente a circulação de ideias e os princípios da democracia multipartidária.

Se, no passado, existisse uma sólida formação académica militar, haveria hoje uma verdadeira circulação de ideias democráticas na nossa sociedade castrense. Os jovens militares demonstrariam, na prática, os valores da democracia multipartidária. O vocabulário “golpe de Estado” não faria parte da nossa cultura militar. A construção da democracia multipartidária seria fortalecida pela livre circulação de ideias nos meios de comunicação social, na Assembleia Nacional Popular e na formação de um imaginário coletivo democrático nacional.

Os jovens militares assimilariam os valores da Academia Militar como essência do exercício da democracia multipartidária. Esses valores prevaleceriam sobre os sucessivos golpes de Estado que marcaram a história do país. No entanto, entre muitos militares, o termo mais recorrente continua a ser “golpe de Estado”. Infelizmente, alguns jovens militares cresceram sob a influência do legado político e militar associado ao General Nino Vieira e ao General Ansumane Mané. Assim, consolidou-se uma cultura em que o golpe de Estado passou a ocupar um espaço indevido na vida política e militar do país.

O golpe de Estado tornou-se, para alguns, uma prática herdada e normalizada. A experiência política associada a determinados líderes militares ficou marcada por intervenções de força, em detrimento da valorização dos princípios da democracia multipartidária. Como consequência, parte das elites militares habituou-se a encarar a intervenção política como uma alternativa legítima às instituições democráticas.

Infelizmente, alguns generais continuam a dedicar tempo e energia à lógica dos sucessivos golpes e contra-golpes de Estado. Esta realidade tem contribuído para o enfraquecimento gradual da democracia multipartidária na Guiné-Bissau.

Se os generais Nino Vieira e Ansumane Mané tivessem interiorizado, no passado, os valores da Academia Militar e da cultura democrática, a atual geração de militares poderia desempenhar hoje um papel mais relevante na consolidação da democracia multipartidária. Em vez de protagonizar sucessivas rupturas institucionais, estaria comprometida com a estabilidade política, a defesa da Constituição e o fortalecimento das instituições republicanas.

Se existisse uma Academia Militar fortemente orientada para os valores democráticos, capaz de promover o debate de ideias e de rejeitar a participação dos militares em golpes de Estado, dificilmente surgiriam generais isolados dispostos a assumir protagonismo em aventuras golpistas.

A ausência de uma verdadeira interiorização dos valores da democracia multipartidária entre alguns militares constitui uma evidência da persistência de ciclos de golpes de Estado que atravessaram sucessivas gerações de oficiais na Guiné-Bissau.

O país vive atualmente sob uma autêntica propaganda política conduzida por setores militares que, muitas vezes, manipulam ou distorcem as fontes do seu discurso, independentemente da veracidade das informações divulgadas. Em determinados momentos, recorrem igualmente a formas de propaganda cinzenta, nas quais a origem da informação nem sempre é claramente identificada. Esquecem, porém, os princípios da propaganda branca, caracterizada pela identificação transparente das fontes e pela precisão da informação.

Os militares que exercem funções governativas receiam, muitas vezes, que a objetividade e o imediatismo do jornalismo possam contrariar interesses particulares e favorecer uma comunicação mais transparente, orientada para o interesse público.

O país vive atualmente um preocupante défice de notícias independentes, substituídas por agendas informativas alinhadas com interesses específicos do poder. Esta situação limita a objetividade e compromete a função fiscalizadora do jornalismo.

A propaganda política utilizada pelo Conselho Nacional de Transição visa restringir a liberdade de imprensa na Guiné-Bissau. O seu objetivo não é democratizar o acesso da população a temas complexos resultantes da investigação e do conhecimento científico, capazes de contribuir para a transformação da sociedade.

O Conselho Nacional de Transição enfraqueceu os mecanismos institucionais de comunicação pública, reduzindo as oportunidades de diálogo entre o Estado, os meios de comunicação social e a sociedade.

Ao mesmo tempo, a corrupção tornou-se um fenómeno cada vez mais visível. A corrupção na Administração Pública alimenta a corrupção de rua, enquanto esta, por sua vez, contribui para a normalização da corrupção nas instituições. Uma alimenta a outra, num ciclo difícil de quebrar.

A corrupção nas ruas de Bissau transformou-se num verdadeiro epifenómeno social, em que a própria corrupção gera mais corrupção, reproduzindo-se continuamente e enfraquecendo a confiança dos cidadãos nas instituições públicas.

Por: Dr. António Nhaga
Diretor-Geral
angloria.nhaga@gmail.com

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