Opinião: A urgência do ensino das religiões

Decidi escrever sobre este tema. Um assunto sensível. Não pretendo suscitar polémica. Tenho o maior respeito pelas religiões e os respetivos profetas. Do mesmo modo, respeito a ancestralidade atricana com a sua espiritualidade de que sou oriundo.

Sempre tive reservas em relação ao exercício da liberdade de expressão ridiculariza ou caricatura os profetas maiores das religiões. Acho que uma auto-contenção é sempre saudável.

Tenho-me interessado pela história das religiões, sobretudo as das duas mais dominantes na nossa terra: a cristã e a islâmica. 

Quanto mais me informo sobre o seu surgimento, a vida dos seus profetas maiores, a formação dos seus Livros Sagrados e suas variadas versões, as suas correntes, as guerras religiosas, menos certezas tenho e mais relativizo as religiões.

Cada uma das duas religiões pretende ser verdade ontológica única e universal. Essa pretensão de unicidade e de universalidade levou a um conjuto de guerras religiosas no passado e outras ainda em curso.

Motivações religiosas estiveram na origem da guerra de 30 anos entre cristão e protestantes europeus (1618 – 1648), às cruzadas (guerra entre católicos e muçulmanos (Séc.  XII a Séc. XIII), às guerras entre arabes para a imposição do Islão na península Arábica. As rivalidades persistentes no mundo árabe hoje têm motivação religiosa, entre outras. 

A colonização e as invasões árabes também se fizeram para expandir a fé e civilizar outros povos.

Em África, os conflitos que ainda existem, sobretudo no Sahel e na Nigéria, têm motivações religiosas. Nem vou falar das guerras religiosas na Ásia. Só na China, guerras com motivações religiosas causaram o maior número de vítimas mortais de sempre – mais de 30 milhões de pessoas. 

A estabilidade dos países africanos é ainda ameaçada também por causa das religiões. O Sudão dividiu-se, em parte, por motivações religiosas e identitárias. 

A unidade do continente está atrasada, em parte, por motivações religiosas e identitárias. Alguns países do continente não se consideram africanos. A sua pertença identitária e religiosa é localizada na Europa ou no médio oriente.

Voltando às guerras religiosas, recordemos que nos acordos de paz da Westefalia que puseram fim à guerra de 30 anos na Europa, ficou estabelecido que cada Estado era soberano; tem o direito de escolher a sua religião; e que nenhum outro Estado tem o direito de lhe impor a sua religião.

A paz de Westefalia deu, pois, origem ao conceito da soberania tal como entendida nas relações internacionais hoje.

O iluminismo (Séc.  XVIII), que consistiu na colocação da razão e da ciência no centro de tudo, e no abandono do absolutismo e do controlo da Igreja sobre os Estados, levou à lacidade dos Estados europeus e à retirada progressiva das religiões do espaço público.

Os europeus aprenderam bem a lição com as atrocidades cometidas contra si e contra os outros povos, por causa das religiões.

Em África e no médio oriente, o iluminismo ainda está por acontecer. A religião ainda domina o espaço público. Alguns Estados africanos têm religiões oficiais. 

Em África, ainda nos interessa em que igreja ou mesquita as figuras públicas rezam. Quem é ordenado padre, irmã ou imami. Quem mudou de religião.

No meio disto tudo, uma coisa é certa. A fraca cultura religiosa é um perigo para a paz social e para a estabilidade dos nossos Estados e do projeto de unidade do continente. 

Os europeus pagaram bem o preço dessa ignorância e aprenderam bem a lição. Por isso, é preciso ensinar as religiões nas escolas. O que é feito pelas congregações religiosas (islâmicas e cristãs) é paliativo e focado mais na recitação das orações e nos dogmas que nos apelam a crer apenas, não a conhecer ou questionar.

É a literacia religiosa que vai levar à saída progressiva das religiões do espaço público e ao seu confinamento ao plano pessoal e individual, como já acontece em sociedades mais desenvolvidas.

Se há uma lição que devemos aprender com os ocidentais em matéria da religião, é a de que nenhuma religião é superior à outra. Cada um de nós tem o direito de escolher a sua religião. A sua escolha é boa para si. A minha escolha é igualmente boa para mim.

No contexto africano, podemos igualmente aprender com a espiritualidade africana. Os meus ancestrais são bons para mim. Os seus são bons para si. Nenhum deles pretender ser melhor, superior ou único válido.

Assim, viveremos todos em paz com os nossos Deuses e Profetas. E ficaríamos a espera do juízo final. Que nenhum de nós sabe como será e se acontecerá. Os donos da inteligência artificial já nos dizem que estamos perto da vida eterna. O mundo pode não acabar.

Mantenhas!

Banjul, Gâmbia, 24.08.2026

Por: Pedro Rosa Có

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