Opinião: MANIQUEÍSMO DO SÉCULO XXI: A BRIGA PELO MONOPÓLIO DA VIRTUDE

Uma das confusões mais comuns nas reivindicações de certos integrantes de diferentes grupos de minorias sociais é a do monopólio da virtude. Isto é, muitos desses integrantes, geralmente os menos atentos e os mais extremistas, atrelam, com uma certa frequência, a violência exercida pela maioria social (grupo dominante) ao fato de a pessoa (que exerce a violência) não ser integrante da mesma minoria da pessoa violentada. Em outras palavras, os homens exercem a violência contra as mulheres por serem homens, os brancos contra os negros por serem brancos, os adultos contra as crianças por serem adultos, os cristãos contra as outras religiões minoritárias por serem cristãos e assim por diante.

Quando se assume essa posição, comete-se o erro do essencialismo e, de alguma forma, o do monopólio da virtude, por atrelar a violência a uma caraterística física, psicológica ou comportamental do individuo: homem, hétero, branco, rico, adulto e assim por diante. Consequentemente, endossa-se a tese segundo a qual os membros de grupos de minorias sociais não são capazes de exercer a violência, visto que não pertencem ao grupo hegemônico. É como se só fosse possível exercer a violência pertencendo a um certo grupo, não apenas como individuo isolado que é, em si, interseccional.

Deste modo, perde-se de vista aquilo que é o mais importante no debate sobre a violência em todas as suas dimensões, que é o poder em todas as usas formas, independentemente de quem seja o detentor do poder: negro ou branco, homem ou mulher, homossexual ou heterossexual, cristão ou não cristão, religioso ou não religioso. É importante entender que a violência não é apanágio exclusivo de ninguém por pertencer qualquer um dos grupos supracitados, muito menos da exclusividade de algum desses grupos. Ela é, sim, da exclusividade de quem exerce o poder, não importa o tipo: religioso, político, económico, emocional, etc. seja ela momentânea ou permanente. Dito de outro modo, só pode ser violento ou exercer a violência em suas mais diversas formas, aquele que detém o poder, aquele que exerce a autoridade.  Isso, a priori, não está necessariamente ligado ao fato de a pessoa ser homem ou mulher, muito menos ser branca ou preta. Qualquer um pode ser violento em circunstancias em que exerce o poder.

A crença de que um grupo é essencialmente virtuoso enquanto que os outros não o são, é fundamentalmente, equivocada, altamente perigosa e essencialmente contraproducente. Ela se revela nas falas irresponsáveis e rasas do tipo: o mundo seria um lugar bem melhor se os homens não existissem, o mundo seria melhor sem os brancos, se a heterossexualidade não existisse o mundo seria melhor, e por aí vai. Podemos encontrar vídeos nas redes sociais contendo essas afirmações. Essa crença parte da premissa de que, os integrantes desses grupos minoritários são mais sensíveis à injustiça porque convivem com ela o tempo todo. Portanto, um mundo dominado por eles seria um mundo sem a violência. Só que a esse raciocínio escapa o seguinte: se não existissem esses grupos maioritários (homens, héteros, brancos, etc.), os grupos minoritários (mulheres, homossexuais, negros, etc.) não seriam minoritários, logo, seus integrantes não teriam motivos para serem sensíveis e, concludentemente, menos inclinados a cometer violência de qualquer espécie, visto que não sofreriam a injustiça que os sensibilizaria com a dor alheia.

Se não existissem os homens, e se tudo se mantivesse como está, isto é, se as mulheres não fossem educadas de maneira distinta, de modo a lidar com o poder de maneira diferente da sociedade patriarcal e machista que temos hoje, a violência seria exercida por mulheres que estariam exercendo algum poder ou tendo algum tipo de vantagem em termos econômicos, de padrão de beleza ou de influência. Se não existissem os heterossexuais, os homossexuais com poder exerceriam a violência sobre outros homossexuais e assim por diante. Aliás, não precisamos desse cenário hipotético para chegar a essa conclusão, basta observarmos com mais atenção as nossas relações do dia a dia.

Apenas olhe para a forma como você trata aqueles sobre os quais exerce algum tipo de poder, sejam crianças sob seus cuidados e responsabilidades ou alguém que presta algum serviço a você. A sua empregada doméstica acha que você é incapaz de ser violento com ela, porque isso é da exclusividade dos brancos, dos homens, dos héteros, dos cristãos etc.?  Você a trata como igual. E o seu motorista é tão bem tratado e respeitado por você, como trata o seu professor ou o seu chefe?

A problemática da violência, em todas as suas formas e dimensões, nunca foi exclusividade de um certo grupo humano ao longo da história da humanidade. Em todos os grupos, em todos os tempos e lugares, desde que surgiu o poder e a hierarquia, houve violência em maior ou menor grau. Então, a ideia de que um certo grupo seria incapaz de exercer a violência não encontra respaldo em nada que seja sério, rastreável na história ou cientifico.

A Guiné-Bissau talvez seja o exemplo mais cabal e eloquente de como esse raciocínio de sensibilidade não se confirma, na prática. Na situação do nosso país (extremamente pobre e sofrido), esperava-se que as pessoas fossem menos elitistas e opressoras umas com as outras, mais sensíveis e até mesmo mais paternalistas, seguindo a lógica de sensibilidade com base no sofrimento compartilhado. No entanto, não é o que acontece. Pelo que tenho constatado, talvez a experiência guineense seja o paroxismo da hierarquização e desumanização com base nos critérios mais patéticos, imprecisos e facilmente burlados, o da aparência. Por aqui, desde o seu domínio da língua guineense, passando pela forma como se veste, pelo relógio que usa, pelo carro que tem, pelo lugar onde trabalha, pelo diploma universitário e pelo grau académico que ostenta, etc., tudo isso determina a forma como será tratado.

O que precisamos fazer não é reivindicar o monopólio da virtude com base no pertencimento ou não a um dado grupo, precisamos nos educar e educar as próximas gerações no sentido de saber lidar com qualquer tipo de poder. É fundamental policiar constantemente as nossas ações: como tratamos os nossos iguais, os nossos chefes, os nossos subordinados, os nossos empregadores, os nossos empregados etc. A ideia do monopólio da virtude é péssima na medida em que não possibilita esse policiamento constante, dado que parte da premissa ridícula de que certas pessoas são incapazes, pelas suas condições de mulher, negro, homossexual, etc. de serem agentes da violência, razão pela qual muitas das vezes, maltratam seus subordinados sem se darem conta.

Construir um mundo melhor e mais justo, exige de todos nós um esforço prático (não só teórico) constante e permanente autoavaliação das nossas ações, sem nenhum sentimento de superioridade moral fincado sobre qualquer que seja pressuposto. O preço de uma nova sociedade, livre de todos os abusos, injustiças, padronizações e discriminações que assolam a nossa hodiernidade, é a eterna vigilância das nossas próprias ações, para não reproduzirmos aquilo que denunciamos nos outros.

Por: Fernando Colonia (o bolamense)

Cientista Social

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