A Associação dos Guineenses Residentes em Cabo Verde afirmou esta terça-feira, 15 de setembro de 2026, que o disparo que feriu um cidadão guineense na cidade da Praia resultou de um assalto e constitui um caso isolado de criminalidade, rejeitando alegações de perseguição ou conflitos entre jovens guineenses e cabo-verdianos.
Segundo a organização, o assalto à mão armada ocorrido no último sábado, durante o qual um cidadão guineense foi atingido por um disparo de arma de fogo, deve ser encarado como um ato isolado de criminalidade.
Apesar desta posição, um grupo de cidadãos guineenses residentes na capital cabo-verdiana denunciou junto da Embaixada da Guiné-Bissau alegada falta de atenção das autoridades às mortes e aos casos de violência que afetam membros da comunidade guineense, atribuindo a situação ao agravamento da criminalidade no país.
Confrontado com estas preocupações pelo jornal O Democrata, o presidente da associação, Seny Dabo, apelou à calma e defendeu que o incidente não teve motivação étnica ou nacional.
“Quero esclarecer que não houve nenhum assassinato de guineenses em Cabo Verde. O que aconteceu foi um assalto”, afirmou.
De acordo com Dabo, a própria vítima relatou que se encontrava no local com outros seis jovens quando foi abordada por um grupo de assaltantes.
“Quatro vinham pela frente e dois por trás. Um deles, armado com uma faca, exigiu a entrega do telemóvel. A vítima reagiu com um soco e o agressor caiu. Nesse momento, outro elemento pegou numa arma de fogo e disparou contra a perna da vítima, fugindo em seguida”, explicou ao O Democrata.
O responsável insistiu que o episódio não está relacionado com qualquer perseguição dirigida à comunidade guineense.
“Queremos deixar claro que este incidente não tem qualquer ligação a perseguições ou conflitos entre jovens cabo-verdianos e guineenses. Trata-se de um ato isolado de criminalidade que poderia atingir qualquer cidadão, independentemente da sua origem ou nacionalidade”, disse.
Dabo acrescentou que representantes da associação visitaram a vítima no hospital, onde continua a receber tratamento médico, encontrando-se fora de perigo.
Segundo o dirigente associativo, tanto a Associação dos Guineenses Residentes em Cabo Verde como a Embaixada da Guiné-Bissau estão a acompanhar o caso de perto.
Neste contexto, apelou à comunidade para que evite divulgar informações não confirmadas sobre o incidente ocorrido no bairro de Tira Chapéu, na cidade da Praia.
Entretanto, nas redes sociais, vários cidadãos guineenses relataram que membros da comunidade enfrentam com frequência situações de assalto, agressões e alegados insultos de caráter discriminatório.
Perante as denúncias, o embaixador da Guiné-Bissau em Cabo Verde, Ibraima Sanó, reuniu-se com representantes da Associação dos Guineenses Residentes em Cabo Verde, da Associação dos Estudantes e Investigadores Guineenses e dos manifestantes, com o objetivo de recolher informações e ouvir as preocupações da comunidade.
Num comunicado, a representação diplomática guineense garantiu que está a acompanhar a situação e que procurará obter esclarecimentos junto das autoridades competentes para assegurar um conhecimento rigoroso dos factos e salvaguardar os direitos e a segurança dos cidadãos guineenses residentes em Cabo Verde.
A embaixada apelou ainda à serenidade e à responsabilidade, alertando para os riscos da divulgação de informações não confirmadas.
“Apelamos à não disseminação de informações não verificadas, evitando insinuações suscetíveis de gerar alarme ou tensão social”, refere a nota publicada na rede social Facebook.
Por sua vez, a Plataforma das Comunidades Africanas Residentes em Cabo Verde (PCA) manifestou solidariedade para com a vítima e a sua família, condenando aquilo que classificou como um ato de “violência gratuita”.
Em comunicado, a organização defendeu que nenhuma pessoa deve ser vítima de violência, discriminação ou tratamento indigno devido à sua nacionalidade, origem, condição social ou estatuto migratório.
A PCA considerou ainda que qualquer sentimento de indignação deve ser manifestado por vias pacíficas e institucionais, respeitando os princípios do Estado de Direito. Ao mesmo tempo, apelou às autoridades para que realizem uma investigação séria e transparente do caso.
Na nota assinada pelo presidente da organização, José Ramos Viana, a plataforma alertou para o risco de generalizações e pediu à sociedade cabo-verdiana que não utilize um caso isolado para alimentar preconceitos contra cidadãos guineenses ou outras comunidades africanas.
Por fim, a PCA reafirmou a disponibilidade para promover o diálogo entre as comunidades africanas residentes em Cabo Verde e as instituições nacionais, com vista ao fortalecimento de uma sociedade mais inclusiva, segura e respeitadora da dignidade humana.
Os guineenses constituem uma das mais importantes comunidades imigrantes em Cabo Verde, estando presentes em diversos setores de atividade, incluindo a educação, a construção civil e o comércio informal.
De forma geral, membros da comunidade afirmam sentir-se integrados na sociedade cabo-verdiana, embora apontem dificuldades relacionadas com procedimentos burocráticos.
Por: Alison Cabral


















