Meu caro leitor d’O Democrata, começo esta pequena crónica que te ofereço a ti neste chão sagrado de Bissau, ilustrando duas pequenas histórias nelas embutidas introduzindo igualmente este trecho do texto do Pe. António Vieira, sacerdote jesuíta português, no Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda. Assim, o exímio orador conta uma história interessantíssima para o novo cenário de “causos e estórias” dos bastidores da política do país. E, assim, (inscrevendo-nos a nós povo, de novo, na lenga-lenga da política nacional), conta que:
Quiseram as árvores fazer um rei que as governasse, e foram oferecer o governo à oliveira, a qual se escusou, dizendo que não queria deixar o seu óleo, com que se ungem os homens e se alumiam os deuses. Ouvida a escusa, foram à figueira, e também a figueira não quis aceitar, dizendo que os seus figos eram doces e que não queria deixar a sua doçura.
E, em seguida, foram à vide, a qual disse que as suas uvas comidas, eram o sabor e, bebidas, alegria do mundo, e a quem tinha tão rico património, não lhe convinha deixá-lo para se meter em governos. De sorte que assim andava o governo universal das árvores, como de porta em porta, sem haver quem o quisesse.
Narro, todavia, a seguir a história de dois amigos. O primeiro chama-se o Sr. Ganancioso e o segundo, o Sr. Avarento.
Decidiram num rompante que eles, dois amigos do mesmo chão, onde seus ancestrais viverem por muitos longos e compridos anos, que fariam uma viagem à cidade de Bissau. Disseram-lhes que esta cidade acolhia com carinho e hospitalidade de todas as pessoas que vinham tentar a sorte nela.Até mesmo estrangeiros.
E pensaram: “se estrangeiros se dão bem por lá nós que somos filhos desta pátria também nos daremos super bem”.
Os dois, entretanto, empreenderam a viagem até a cidade. Porém, cada um a sua maneira, meninos de criação, chegaram e viram a cidade e sua gente. Hospedaram-se nas respectivas casas de família. Pois, seus pais não dispunham de meios económicos, nem tão pouco financeiros que pudessem garantir-lhes a vida na cidade grande. Foram acolhidos e educados – como manda a linguagem da boa praça – por seus tios e tias.
Cresceram nesta cidade de Bissau. Brincaram. Conheceram gente de toda a estirpe; classe social. Estudaram em escolas diferentes; porém todas elas públicas, mantidas pelo novo Estado que tinha sido proclamado nos primórdios dos anos 70, nas Colinas de Boé. Posteriormente, prosseguiram seus estudos superiores nas universidades europeias. Formaram-se em?
Sonho? Era essa a energia que movia suas vidas. Tinham de vir servir ao país. E alimentaram este sonho. Um dia servirão o país ao mais alto nível. Mas… mas quando subiram… ao invés do trabalho de projeção do país foram engalfinhados no diz-que-diz. Por isso, quando subiram!? Ou fizeram-se subir?
Pelo sim e pelo não, deu-se o (in)previsto: colapso de ideias e de ações.
Afinal das contas, quem se mete em governo dos outros não poderá nunca cuidar do governo de si. E muito menos ainda cuidar do governo comum.
Voltaram e foram trabalhar nos postos da administração pública nacional que convinha aos ramos de formação de cada um deles. Eis que então – aqui perdoe-me meu caro leitor, vou introduzir nesta crónica uma fábula que opõe o sapo ao escorpião. Minha avó contou-me quando criança a história que a seguir transcrevo. Aliás, seja como for, também é uma história universal. Li-a em tempos de Faculdade em São Paulo, no Brasil.
Um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio e lhe fez um pedido:
– Amigo sapo, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?
O sapo respondeu: – Só se eu fosse louco! Você vai me picar e eu vou ficar paralisado e afundar.
Disse o escorpião: – Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos e nos afogaríamos.
Confiando na lógica do que disse o escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, nadando para atravessar o rio.
Quando chegaram no meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo.
Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: – Por que você fez isto? Agora nós dois vamos morrer!
E o escorpião respondeu: “Por que sou um escorpião e esta é a minha natureza.”
Tal como poderá depreender da história, os dois amigos, incautos, deixaram-se envenenar por intriguistas de profissão, e como se isto não lhes bastasse, “futricaram-se” perdidamente nos caminhos sinuosos da política nacional.
Ora bem, colherão os louros daqui a alguns meses como sendo resultado de insensatez. Pois só então após a fratricida guerra inútil é que, isto sim, se derem conta disto, compreenderão que no caminho da travessia da margem de um rio para a outranão deve imperar a falsidade. Um deixou os amigos competentes de lado, outro arranjou-se, a seu estilo soturno, com novos amigos bajuladores para se sentir “grande”.
O sedutor, sem dúvida, implementou a lei da falácia que jorrava de eivos confundidos com a grande capacidade oratória que exacerbava as escusas intenções do falacioso.
Mais cedo ou mais tarde, estou em crer, que o senhor falacioso chegará a conclusão de que quando um homem atinge maioridade não pode e nem deve ser marionete de outrem.
Devia, no entanto, abrir seu caminho pelo mundo, inscrevendo seu nome na história. Mas como ele vive enganando a massa informe nacional – chamada de povo -, vai seguindo a ludubriar as consciências.
O senhor avarento, todavia, que já se livrou dos que lutaram para que chegasse ao trono, sem que desse conta disso,empreendeu o plano inclinado em direção ao abismo. Aliás, diz-se que ele sempre fora assim: faz alianças com a mesma capacidade com que as desfaz, uma vez atingido os seus objetivos. Ou seja, para cada fase de percurso de sua história pessoal ele vai fazendo amigos que o alçam, e depois, livra-se deles, assumindo novas relações de amizade.
Omboplo lembra pago!
Dizem as más línguas que o avarento, mesmo em questões de saúde, economiza-se; tanto é que até ir a tratamento médico no exterior não quer ir para não ter que gastar.
Tal como se pode inferir da fábula que acima transcrevi, para dizer apenas que pessoas assim fazem com que muitos desacreditem no poder da hospitalidade, do espírito de entreajuda, da gentileza, da amizade verdadeira, do amor… qualidades outrora tão caras ao nosso povo…
A história dos dois amigos começou acidentalmente na “política de kakre”, pisar forte no adversário e/ou aliado para subir, e uma vez no topo um chute na bunda – o que se queria já está ao alcance das mãos.
P.S. Qualquer semelhança com o cenário político nacional (não) é mera coincidência.
Jorge Otinta é ensaísta, escritor e crítico literário guineense.






















Caríssimo amigo e colega seminarista, alegro-me tanto com as tuas crónicas , coragem e continuas assim como sempre fostes
Quinho
Grande Jorge Otinta, gostei da cronica, é bastante moralista para os sujeitos. Abraços.