GUINEENSES RENDEM ÚLTIMA HOMENAGEM AO EX-PRESIDENTE KOUMBA YALÁ

Milhares de populares da cidade de Bissau e não só, assim como familiares e militantes vindos de todo o país, inundaram a Avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria, para render a última homenagem ao ex-Presidente da República, Koumba Yalá. A Praça da Cidade de Lisboa, localidade em frente ao Palácio Colinas de Boé (ANP), era muito reduzida para o mar de pessoas que queriam acompanhar aquele que é considerado um dos percussores da democracia na Guiné – Bissau. Também se notava a presença dos homens grandes Balantas, etnia que Yalá pertencia, com os seus barretes vermelhos na cabeça ladeando a viatura da Polícia Militar que transportava a urna funerária do malogrado.

O corpo do Presidente Yalá saiu da sua residência no Bairro Internacional para a sede do Partido da Renovação Social (PRS), onde foi rendido uma homenagem por dirigentes, militantes e simpatizantes do Partido de “Milho e Arroz”. A sede do partido estava repleto de populares que queriam tocar e ver a urna funerária do líder carismático dos renovadores.

“Hoje, de todos os quadrantes políticos, deixamos de lado tudo o que nos diverge, e unimo-nos aqui, para prestar-te as devidas honras e uma última homenagem; viemos trazer a nossa solidariedade e conforto à tua família, em nome do Partido da Renovação Social, em nome dos deputados da Nação, com quem partilhaste, desde os idos anos de 1994, a luta pioneira e abnegada para a implementação do multipartidarismo e a democracia”, disse o Secretário-geral dos renovadores, Florentino Mendes Pereira, na sua mensagem de elogio fúnebre na presença do presidente do partido e de Elisabete Yalá, esposa de Koumba Yalá.

HOMENAGEM DE ESTADO

Depois da homenagem rendida ao malogrado na sede do PRS de que ele foi um dos fundadores, os restos mortais deixaram o edifício partidário rumo à sede da Assembleia Nacional Popular, onde teve lugar a cerimónia de Estado na presença do Presidente da República de Transição, Manuel Serifo Nhamadjo, membros do Governo, Chefias militares, representantes das organizações internacionais, membros do corpo diplomático acreditados no país e chefes religiosos.

No hemicíclo de Assembleia Nacional Popular repleto de pessoas, e muitos das quais tentaram forjar a entrada, pois a ansiedade era de tal forma que as forças de Ordem tiveram que ser chamadas para repor a ordem. Todos queriam prestar a última homenagem a Koumba Yalá, seu líder incontestável.

No decurso da cerimônia na ANP, um grupo de jovens jogadores da equipa de Sport Bissau Benfica cobriram a caixa do malogrado com a bandeira das águias de Bissau, tendo em conta que o malogrado era um dos sócios desta agremiação encarnada.

Ao fazer uso da palavra através da mensagem do elogio fúnebre em nome do Governo da Guiné-Bissau, o titular da pasta dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Fernando Delfim da Silva lembrou que o malogrado que fora Presidente da República de ano 2000 a 2003, foi sempre um quadro político desde a sua juventude e líder de um partido fundador da democracia pluralista na Guiné-Bissau.

“O Partido fundado por Yalá revelaria e continua a revelar-se incontornável na construção de Estado Constitucional de direito democrático. Pois, Koumba Yalá fora uma personalidade que se pode considerar de complexa, muitas vezes controversa, com lances tácitos provavelmente discutíveis, mas, no meio de tudo isso, é possível perceber claramente a linha de orientação estratégica básica que o guiou, as constantes do seu discurso de luta política, as máximas que estruturam as suas ações”, considerou ainda o responsável pela diplomacia guineense.

Dr. Delfim da Silva assegurou ainda que as “promessas da independência construídas nos precisos termos da modernidade, da razão e do progresso não estão a ser cumpridas, mas elas ainda se mantêm de pé, e é verdade que falhamos a construção racional de Estado, com isso, o governo foi perdendo sua legitimidade”, reconheceu

O governante ainda disse que “Koumba Yalá andou de tabanca a tabanca, visitou as bases e santuários de guerra da independência nacional e desvendou completamente o véu das nossas falsidades, e tudo tinha ficado pior do que nos tempos difíceis da luta armada de libertação nacional, mas não se ficou pela retórica da luta contra as injustiças, chamou os injustiçados, os desprezados, os humildes e os humilhados, os marginalizados os esquecidos ´kilis ki n´djutido’, todos para a visibilidade, notoriedade e para o centro da vida política, foi essa a revolução de Koumba Yalá”.

A fechar a sua intervenção, Delfim da Silva afirmou que a revolução de Yalá, “só vai gerar todos os seus frutos, e desenvolver toda sua eficácia potencial, produzir seus dividendos, se ela se transformar numa reforma de todos os dias, reforma para juntar qualidade à quantidade, participação e qualificação, rotina e criatividade”.

Acrescentou ainda neste particular que esse é o desafio que o malogrado lançou, que no seu entender é o “ponto principal de uma relação complexa com a sua herança, ou seja, o seu legado político rico, mas nem linear nem inequívoco”.

Falando em nome dos familiares, a esposa do malogrado, Elizabete Yalá  agradeceu à todos por carinho e atenção dado à família durante esses dias. Todavia, recordou ainda que o falecido foi um amigo, irmão, pai, marido e companheiro durante os anos da sua vivência enquanto marido e mulher.

“Quis Deus que nos deixasse prematuramente apenas com 61 anos, é curioso como as pessoas passam pelas nossas vidas e nos deixam com as mais profundas marcas, foi assim contigo meu amigo, e meu confidente sempre com um sorriso no rosto, disposto de ouvir e ajudar a todos que precisavam”, disse.

A viuva Yalá nas suas eternas recordações falou das memórias sagradas das escrituras que gostava de evocar, “por isso sentimos saudades das coisas vivas que poderíamos ter feito e que não fizemos. Porque mesmo que tivéssemos feito tudo mais o tudo nunca é suficiente, e nunca estamos preparados para perda sempre impacientes com o tempo, peço a Deus que a terra seja leve e que a sua alma descanse em paz”, lançou.

Depois dos discursos de elogios fúnebres, o Presidente da República de Transição  Manuel Serifo Nhamadjo rendeu a última homenagem a Kumba Yala, tendo  curvado perante a caixa que continha os restos mortais do defunto para um  último adeus a aquele que fora o seu companheiro de luta política.

Depois deste gesto da parte do Chefe de Estado Interino, os restos mortais foram entregues à comunidade muçulmana, a fim de realizar reza de acordo com o costume da religião que ele vinha praticando, desde que converteu em 2008.

A reza dos restos mortais de Mohamed Yalá, nome adotado quando se converteu, foi presidido por imame (padre) central da cidade de Gabu, Aladje Seidi, na presença de centenas de fiéis muçulmanos que acompanharam os versículos recitados sobre féretro com os restos mortais do malogrado.

Depois da reza o cortejo fúnebre seguiu para a Fortaleza de Amura, no centro da cidade de Bissau, onde teve lugar as últimas cerimónias com a deposição da caixa junto daqueles que a sociedade guineense dignou de chamar os imortais acompanhado de vinte e uma salva de tiros de canhões enquanto se descia os restos de Kumba Yala para a sua última morada.

 

TESTEMUNHO DOS DIRIGENTES DO PRS

 

Alberto Nbunhe Nambeia

O líder do Partido da Renovação Social, Alberto Nbunhe Nambeia profundamente imocionado e com lágrima nos olhos, disse na sua curta declaração à imprensa que “só podemos honrar Koumba Yalá, quando continuarmos com a sua obra”. Nambeia pediu as populações guineenses que rezem para o homem do barrete vermelho, para que a sua alma descanse em paz.

Abel Incada

Para o candidato dos renovadores às eleições presidenciais de 13 de Abril, Abel Incada, não se pode falar da democracia na Guiné-Bissau sem se referir o nome de Koumba Yalá, porque conforme disse, foi ele que ousava levantar a voz na década 1990 a fim de lutar para afirmação da democracia no país.

“Hoje os guineenses podem falar como quiserem, por isso é que ele merece toda homenagem e neste momento de dor e consternação rogamos a Deus para que a sua alma descanse em paz” assegurou o político.

 

Sola Nquilim Nabitchita

Sola Nquilim Nabitchita, um dos dirigentes dos renovadores que mais contestava a sua liderança, disse que “como qualquer pessoa e alguém que com quem trabalhamos junto, aprendi muito com ele, por isso é que o meu estado de espírito não pode ser de alegria, a não ser de tristeza, porque deixou-nos com uma idade muito jovem 61 anos tinha muita coisa para dar ao país”.

“Todos nós sabemos que um dia vamos morrer, mas o nosso desejo é que pelo menos seja com uma idade mais do que ele tinha. Não esperávamos a morte de Koumba Yalá neste momento, por isso é que foi uma surpresa para mim”, contou.

Sola Nquilim Nabitchita, falou igualmente dos valores de Koumba Yalá, que considera de um grande quadro nacional, dirigente político que no seu entender contribuiu muito na criação do partido e de levá-lo para vitória.

“Trabalhei com ele, e para mim Koumba Yalá é um homem de convição, é um homem que sabe lutar para atingir um determinado objectivo. Ele é combatente pela democracia no nosso país, desde abertura política e principalmente em 1994. Mas também é um homem muito contraditório para quem não o conhece, é difícil compreender, acima de tudo é um homem com grande qualidade política”, disse.

 

Pedro Morato Milaco

Politólogo e Professor Universitário, Pedro Morato Milaco, disse que Koumba Yalá foi uma figura incontornável da política guineense. Sustentou ainda que Yalá, além de ser o percursor da democracia nacional, também é combatente do processo democrático, espelha ainda que o homem de barrete vermelho é igualmente um combatente da liberdade da pátria. Sublinhou que Yalá ingressou muito novo nas fileiras do PAIGC.

Milaco contou a’O Democrataque conheceu Koumba Yalá nos meados do ano 1981, quando ele fora estudar em Portugal, sublinhando que na altura Yalá já tinha terminado os cursos da Filosofia e da Teologia. Ao regresso de estudos, o historiador disse ter trabalhado com Yalá no PAIGC, de quem guarda a imagem de um jovem incansável que andava o país de ponta a ponta, pregando doutrinas ou ideologias do PAIGC.

“Aconselhamos-lhe na altura para parar de divulgar as ideologias do partido, porque se matava andando de um lado para outro, em prol do partido e, quando chegavam as nomeações, são nomeadas outras pessoas e não ele. Em jeito de resposta, Koumba disse-nos que não ia parar. Afinal ele estava a fazer um trabalho, ele era um visionário. Estudava os comportamentos das diferentes etnias e dali, apercebeu-se de que era importante prosseguir, e conseguindo decifrar isto, e entrou no mundo da democracia sem problema”, testemunhou Pedro Milaco.

Ainda, segundo Milaco, Koumba Yalá, além de ser um homem de visão, era igualmente um democrata por convição, assim como crítico dos males das diferentes situações anómalas que aparecem. Destacou que Yalá foi sempre um lutador incansável. Contudo Milaco considerou que a democracia guineense não sofrerá com o desaparecimento físico do Yalá e lamenta que no nosso país, as pessoas só lhes são reconhecidas as suas qualidades e virtudes quando morrem.

Nbunhe Incada

Nbunhe Incada, um dos companheiros na fundação do partido, falou sobre os momentos tristes e felizes que teve ao lado do ex- Presidente da República Koumba. Para Incada, “Koumba Yalá deixa um vazio no partido e um silêncio que mexeu com todos militantes do partido e aos lutadores pela democracia no nosso país; ele ainda ensinou muita gente o que é a política e como fazer a política”.

N´bunhe Incada, lembrou do seu parceiro nos momentos mais difíceis que passaram juntos “na região de Gabú, ele escapou da morte com ajuda de um dos militantes muito activo e dedicado ao trabalho de sensibilização a favor do partido”.

“A melhor forma de homenagear este grande herói e líder fundador do nosso partido é de vencer as eleições, para depois construir uma estátua em qualquer canto do nosso país.”

N´bunhe Incada, asseverou que Koumba Yalá lhe respeitava tanto como respeitava os outros membros do partido. “E o que me marcou durante o mandato do malogrado, ele foi um líder que escutava as nossas ideias, principalmente eu, quando dizia que isso não vai ser feito ele aceitava, e dizia que vou pensar amanhã continuaremos a conversa”, acrescentou Incada, confiante que haverá uma nova figura para substituir Yalá.

 

 Por: Redação

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