Reportagem Desflorestação: PAU-DE-SANGUE, O NOVO “El DORADO GUINEENSE” 

É triste constatar aquilo que passa nas matas da nossa terra, uma devastação total da nossa mais rica espécie de árvore. Trata-se do “pau-de-sangue”, isto mesmo, constara uma vasta equipa de repórteres do jornal “O Democrata”, que se deslocara a diversas regiões do país, nomeadamente Oio, Cacheu, Bafatá, Gabú, Tombali e Quínara.

São toneladas e toneladas de toros de madeira de uma única só espécie, “pau-de-sangue”, que depois de desbastados nos laterais, tudo para confundir as autoridades florestais que proíbem a exportação de madeiras em toros, estão prontas para exportação para as terras do “sol nascente”, a República Popular da China.

Perante esta dramática situação que podemos constatar de perto, somente nos resta lançar um apelo a todos os guineenses conscientes pela situação em que se encontra a nossa floresta de onde está a sair neste momento aquilo que é de mais precioso de que toda a humanidade precisa, a biosfera.

 Não é por acaso que os nossos parceiros económicos, no caso concreto os chineses, se encontram engajados neste negócio, chegando a ponto de alguns abandonarem as suas próprias profissionais para se envolverem na compra e exportação de toros de madeira, refiro–me aqui no caso de uma médica que decidiu abandonar a profissão para enveredar pelo comércio do novo “el dorado” guineense.  

Este negócio de madeira está a promover novos-ricos, como pudemos constatar, através de conversas com algumas pessoas outrora responsáveis mas que neste momento não representam nada, e a olhos dos populares sob a sua jurisdição não passam de um simples cidadão, pois a sua palavra não vale nada.

Com efeito, por aquilo que pudemos apurar actualmente nem as autoridades tradicionais, nem a pública dá uma directriz que seja cumprida, sobretudo, na forma de exploração das florestas. Nos últimos tempos acentuou – se muito o poder de pertença tradicional, com mais destaque para as zonas rurais. Ali, foi reactivada a pertença dos antepassados como primeiros ocupantes de uma determinada zona, onde “hoje em dia, posso explorar tudo o que existe nessa parcela” que, às vezes, chega a atingir hectares e hectares de terra”.

Com este direito de posse da terra por um antepassado, dá direito segundo as suas compreensões a corte e venda da madeira existente dentro do perímetro referido, muitas vezes, sem documentação legal que os acredita na tal parcela.

Como não podia deixar de ser, casos de género acabam sempre em litígios os quais muitas vezes nem as autoridades tradicionais, nem sectoriais conseguem dar solução acabando as mesmas parar em tribunais onde a solução como se sabe não vão em conformidade com a realidade dos factos e onde o factor favorecimento de quem tem mais posse acaba sempre por vencer.

Este negócio dos troncos trouxe para o país, tal como podemos constatar pelas testemunhas de muita gente por onde passamos, toda casta de indivíduos de toda a sub-região, nomeadamente as nanias, guiné- conakrikenses, senegaleses, gambianos, serra-leoneses, ivorienses, entre outros.   

Entretanto, nos contactos tidos com as autoridades locais (Comités de tabanca) quem gere os assuntos correntes da mesma, este parece não querer saber nada desse negócio, o que não é sem razão, tendo em conta que o mesmo envolve peixes graúdos onde qualquer ingerência, pode custar ou a vida ou mesmo a dignidade deste.

Também os chefes de tabancas queixam–se de que, a par de desrespeito, todos os litígios levados a justiça, neste caso policial, mesmo para quem tenha razão, as cauções a pagar, são compartilhadas por ambas as partes (queixoso e o acusado). Em tudo isto nessas mesmas cauções o chefe de tabanca não beneficia de nada, razão pela qual ninguém está interessado a apresentar–se numa determinada tabanca para exercer este cargo.

Assim, para o velho Queba Dindin Seidi, Presidente do Comité da Secção de Morês, Região de Oio, um ex-combatente da Liberdade da Pátria que certamente aceitou essas funções para matar se impor os ideais pela qual ele dera o melhor da sua juventude.

Segundo este velho, quando questionado sobre quem é que procedia a corte da madeira, disse que todos são guineenses, que se fazem acompanhar dos chineses, os quais adquirem a madeira das suas mãos.

“Neste momento, nas matas da Guiné – Bissau, qualquer cidadão que possuí uma motosserra, pode fazer abate de árvores que posteriormente podem vender aos chineses, desde que cheguem a um acordo no negócio”.

No que tem a ver com os possíveis benefícios que as tabancas auferem com estes negócios, Quebá Seidi disse que as compensações das tabancas são de 250.000 (duzentos e cinquenta mil por cada contentor cheio de toros de madeira, valor esse que segundo ele bem como outros colegas inquiridos, acham de muito irrisório, acrescentando, que fazer, recusar ou aceitar, bate na mesma. Aliás, ainda de acordo com este velho, os comités de tabanca e muito menos ainda os habitantes das tabancas não são consultados e nem tidos em conta neste negócio. “Eles chegam e anunciam que estão aqui para procederem a corte de madeira, quer aceites ou não, procedem abates das árvores, com isto o que vale a tua recusa. O melhor é aceitares e receberes esses duzentos e cinquenta mil francos cfas, em lugar de ficar com as mãos vazias.

De referir que na aldeia de Morês, sector de Mansabá/Olossato, é o campo de concentração de toda a madeira recolhida nas tabancas em arredor desta secção histórica de luta de libertação, onde são colocados em campos separados, conforme os proprietários, como mais tarde pudemos confirmar pelo giro que demos pelas áreas por onde se ouve as motosserras a rugirem.

Ainda sobre a concentração de toda a colheita nesta tabanca lendária, afinal, havia razão mais que suficiente para tal, pois nas outras localidades onde se procede a corte de madeira, os camiões tigres que fazem recolhas dos toros, não conseguem entrar ali por falta de vias de acesso, por isto a razão de se concentrar tudo em Morês, onde graças a um dos seus filhos, a estrada que liga a estrada principal à tabanca, encontra-se reabilitada e em bom estado de circulação.

Assim, depois de deixarmos o velho Quebá Dindin, visitamos alguns campos, nalguns dos quais os operários foram reticentes em falar, mas noutros houve uma cooperação total, como é o caso do senhor Abdú Diop que trabalha num desses campos, pertencente a um oficial de alta patente na qualidade de capataz, que, generosamente, nos forneceu alguns esclarecimentos.

Para este operário, no seu campo trabalham vários operários sem, contudo, precisar o número, já que estes variam conforme o volume dos troncos a desbastar.

Abdú Diop começou por nos dizer que em Morês existem quatros campos, cada um pertencente a uma individualidade, sendo uns maiores e outros pequenos, e diariamente um operário pode desbastar 15 toros, auferindo 1.500 a 2.000 francos cfas por cada um.

Quanto aos toros, por contentores, são de 200 por camião, ou seja, 100 em cada contentor, tendo em conta que um camião transporta dois contentores.

O exemplo de Morês é a mesma coisa que se repete em G’Garangó, onde o chefe de tabanca e os populares se limitaram a receber simples avisos de que a sua zona vai ser alvo de abates das árvores da espécie “pau-de-sangue”, onde os maiores operadores nesta matéria são os militares. E quando é assim a invasão começa, e o que pode fazer a população, como opor a esses intermediários na sua maioria oficiais militares de altos patentes., disse o chefe da tabanca de G’Garangó, Bubacar Camará.

Na conversa tida com o Administrador do Sector de Mansabá, sector a que pertence a secção de Morês, lamenta a actual situação das coisas onde nem ele, nem as chefias de tabancas são tidos ou achados neste negócio.

Como recompensa, as tabancas e não indivíduos beneficiam de uma compensação de 250 mil francos por contentor.

AS AUTORIDADES TRADICIONAIS E LOCAIS DISPROVIDAS DE PODERES NESTE NEGÓCIO

Conforme Alhadje Nhalin Sanó, neste momento o negócio de troncos de madeira está a criar uma nova casta de “ ricos”. Na vila de Mansabá se nota grande movimento de motorizadas, e até de alguns carros, ligeiros e pesados, que são da propriedade dos “tronqueiros”, enquanto do outro lado, se pode constatar uma profunda degradação nos edifícios públicos, que bem poderiam ser restaurados utilizando, caso se aplicasse, os possíveis fundos que poderiam advir dos impostos.

Estas mesmas infraestruturas poderiam até beneficiar de restauro, utilizando os próprios recursos locais, madeiras como ripas para melhorar a cobertura e as vigas para o suporte da estrutura. Um exemplo flagrante de tudo isto é o edifício onde funciona o Comissariado da Polícia de Ordem Pública, instalações que para além de avançado estado de degradação, não tem nem mesa ou camas para os agentes, gabinete de serviço para realização de justiça ou outras acções que dizem respeito a sua atribuição.

No sector de Mansabá/Olossato existiam outrora matas consideradas sagradas e que constituíram baluarte para os combatentes que lutavam pela independência da Guiné–Bissau. Hoje, estas localidades transformaram-se em simples savanas, isto depois da razia que se está a levar a cabo nas mesmas.

Ao longo do percurso Mansabá/ Bafatá, indo pela antiga estrada que liga as duas localidades, percurso que tivemos a oportunidade de fazer, podemos constatar vários campos, designação que utilizam para denominar as localidades de concentrações de troncos de “pau-de-sangue” em número superior a uma dezena com centenas e centenas de troncos a aguardar a chegada de contentores para os transportar para Bissau.

Sobre esta situação de dilapidação das nossas matas, ouvido o responsável florestal do sector António Queiroz, este disse a equipa do jornal “O Democrata” que nada tem a ver com o negócio, e nem dispõe de poderes para o parar, embora seja obrigatório a apresentação das licenças à sua pessoa, mas nem este verifica.

Mesmo assim quando questionava aqueles que praticam esta actividade de licenças e origem das mesmas, respondiam sempre que a obtiveram de Bissau,

Segundo António Queiroz, na verdade só a Direcção–Geral das Florestas é a entidade competente pela concessão de licenças, e isto só se faz em Bissau.

Presente nessa conversa com o responsável florestal do sector de Mansabá, estavam dois membros da Brigada de Protecção de Natureza e Ambiente, uma estrutura para–militar adstrito a Direcção–Geral da Floresta, e conforme um desses elementos, a sua presença nesta localidade prendia-se com a fiscalização das irregularidades inerentes aos abates das árvores, sobretudo a veracidade das licenças concedidos.

Durante a sua estada no sector de Mansabá, segundo o Tenente-Coronel Nino Joaquim da Silva, já conseguiram detectar vários documentos falsos, uns simples fotocópia de documentação e outros muitas vezes fora do prazo. Perante estes casos procedem a apreensão dos materiais de trabalho bem como os produtos já obtidos e foi desta forma que já têm na sua posse cinco mil novecentos e setenta e dois (5.972) troncos de “pau-de-sangue”, que deverá ser posto a disposição da Direcção-Geral Serviços de Floresta.

Entretanto, pelo que apuramos junto deste membro da Brigada de Protecção de Natureza e Ambiente, alguns dos “tronqueiros” apanhados em delitos ilegais e dentro da política da sua instituição, são sensibilizados a procederem o transporte dos troncos para um lugar seguro e procurarem legalizar as suas situações por forma a virem recuperar os seus produtos. Mas, muitas preferem deixar os troncos nas matas, para que estes se apodreçam, ou sejam devorados pelas chamas.

NO SECTOR DE XITOLE IMPERA MAIS A LEI DA PERTENÇA DAS MATAS AOS ANCESTRAIS

No sector de Xitole, Região de Bafatá, onde também a “ febre” dos “pau-de-sangue” já está a imperar, são os próprios autóctones que estão atrás dos negócios de troncos, através de cortes de grandes extensões de parcelas, reclamados legal ou ilegalmente, como sendo dos seus ancestrais que outrora ocuparam essa zona, afirmou-nos o chefe de tabanca de Xitole.

Este negócio, conforme Sori Baió, é de tal forma tão flagrante, a ponto de acordar as velhas fantasmas das propriedades muitas vezes esquecidos e já ocupado por outras gerações e agora alvos de disputas que, às vezes, os próprios autoridades locais não conseguem solucionar sendo a solução muitas vezes são encontradas nos tribunais de sectores ou região, o que só serve para exacerbar os ânimos e com isto desavenças que arrastam tempos indefinidos.

Nesses negócios, muitas vezes, são os próprios agentes das autoridades que se posicionam ao lado de um dos elementos de contenda contra os próprios ocupantes da área. Estes factos estão na origem de muitos dos habitantes ou ocupantes procederem as cortes antecipadas das árvores procuradas que vendem a quem tenham chegado a acordo, tornando cada vez mais fraco o poder das autoridades tradicionais que sempre tem ajudado o estado a impor a ordem ou a solucionar pequenas querelas antes de chegar a mais alta instância.

É assim que para constatar o atrás referido, os repórteres de “O Democrata” deslocaram-se a tabanca de Gã–Códia, situado a oriente desta vila, e que faz parte da secção de Minna, sector de Xitole, na conversa com o chefe desta tabanca, uma figura que serve só para simbolizar o poder, uma vez que se encontra esvaziado deste, os “tronqueiros”, vindos de Bambadinca ou de Bissau, contactaram–nos apresentando as respectivas documentações de autorização de cortes.

Gesto que serve apenas para darem conhecimento, sobre o qual não dispõem de poder para impedir, isto segundo as palavras do velho Alhadje Quebá Sambú, não foram eles quem plantou as árvores que existem nas suas matas, como tal, sendo esta da sua zona, pedem que se lhes deem algo, e no caso concreto dos quatro contentores já exportados, estando ainda a faltar um dos quais vão beneficiaram quinhentos mil francos cifa.

Um caso particular que pudemos constatar é de que nessa zona as árvores a abater têm que ter no mínimo 25 centímetros de diâmetro para cima, para baixo já não podem ser abatidos.

Refira–se que Gã–Códia encontra–se dividida em duas tabancas (uma mandinga e outra Balanta), respectivamente . 

MORADORES DAS TABANCAS DAS ZONAS A EXPLORAR ENTRAM NA “FESTA”

Já num outro campo, este pertencente a um proprietário particular, ou seja, um pequeno empresário em busca de ganha-pão ou mais-valia, o que demonstra que o negócio de madeira já extrapolou dos ditos graúdos para “salve–se quem puder “. No caso concreto, o proprietário deste campo adquiriu a madeira de populares de uma das tabancas abrangidas pelo “tufão” pau-de-sangue, que aproveitaram as suas árvores e assim puderem auferir alguma coisa vendendo – as eles próprio, como é neste caso concreto, as venderam a este pequeno operador económico, este depois de as desbastar apresenta o produto aos chineses, estes adquirem – na caso a acharem de boa qualidade.

O que está na venda destes toros e como é que foram adquiridas, conforme um dos operários do campo, os habitantes das tabancas onde existem árvores de pau-de-sangue em lugar de virem a ser abatidas por outras pessoas, preferem ser elas próprias a apropriarem destas madeiras, assim alugam as motosserras para derrubar as árvores que, por sua vez, podem ser vendidas a qualquer pessoa, e exemplo desta tabancas, existem um pouco por todas zonas por onde passamos e podemos confirma – los.

Se na Região de Oio, norte do país, os repórteres de “O Democrata” puderam constatar apenas este facto, já no sul, parece que é o que mais prevalece, chegando os habitantes de uma tabanca situado numa zona classificada de reservada por se situar há alguns quilómetros da fronteira entre as duas Guinés (Bissau e Conakry).

Na tabanca de Sare Lalé que dista cerca de 25 quilómetros da vila de Xitole, uma zona de difícil acesso, os habitantes dessa localidade por se encontrarem num isolamento total, com falta de infraestruturas de toda ordem, segundo o chefe da tabanca Mamasamba Djamanca, decidiram por sua livre vontade, contactar um “tronqueiro” que vive na cidade de Bafatá, com quem estabeleceram parceria nos seguintes moldes:

Na zona em causa, onde se preveem explorar troncos para pelo menos dez contentores, o “tronqueiro” vai ficar com nove e o valor do décimo será para tabanca. Por outro lado, o comprador dos troncos, vai assumir a responsabilidade de abrir uma estrada até a tabanca, vai construir uma escola, uma mesquita e abertura de um furo de água. Isto porque na época seca, ninguém consegue entrar em sua casa, as mesmas são disputadas com as abelhas devido ao calor que se faz sentir nessa altura do ano.

Este mesmo exemplo pode ser atribuído aos populares da tabanca de Madina Sama, sector de Sonaco, a única localidade onde se iniciou as actividades de abate de “pau-de-sangue”, pelos tronqueiros mas que no entanto não teve continuidade devido a reacção imediata e enérgico dos populares que exigiram a apresentação da licença que dava direito ao abate de árvores na sua zona, pois já tinham sido alertado pelos responsáveis florestais da região, para em caso de aparecer caso de género, que sejam alertados.

Aliás, uma das razões deste procedimento conforme o chefe desta tabanca Suleimane Marena, situado a alguns quilómetros depois de desvio da estrada que vai dar a vila de Sônaco, foi originado pela desconfiança, pois no dia 07 de Março, apresentou – se já no princípio da noite, por volta das 20H00, um fulano de nome Abduramane Sanó da Região de Bafatá acompanhado de um outro, que se autoanunciava de coronel, e que também tinha ainda por detrás um brigadeiro.

Como não se faziam acompanhar de um agente florestal e ainda menos de documento legal, o chefe de tabanca informou–lhes de que não dispunha de autoridade para os permitir que fizessem cortes. No dia seguinte, comunicaram os responsáveis florestais regionais de Gabú, tendo estes chegado ao local, quando já tinham iniciado os abates, tendo estes apreendido todos os materiais de abates bem como os próprios troncos já abatidos.

Portanto, o caso desta tabanca de Madina-Sama, é o único bem-sucedido por aquilo que pudemos apurar, onde não imperou o poder de força da farda ou agente de alguém.

Entretanto, ouvidos o responsável florestal regional e membro da Brigada de Protecção de Natureza e Ambiente, Júlio Fernandes Dias afirma, segundo ele, que a razão de concentração de atenção no abate desenfreado de árvores, a única espécie “pau-de-sangue,” é por se encontrar vedado a via que permitia ganhar dinheiro fácil, “narcotráfico”.

COMO TUDO COMEÇOU

O primeiro ensaio do negócio de madeira começou em 2012, na Região de Bafatá, onde depois de um levantamento, quase popular (marcha) das ONG’s da região, originou a sua interrupção por algum tempo, depois de acalmia por algum tempo, voltou a tona de uma forma mais intensa e estendeu-se a todo o país com excepção da Região de Gabú.

De acordo com o Júlio Dias, a concessão de licença começa sempre com um simples justificativo de pretender proceder a desmatação de uma determinada parcela para plantação de cajueiros, o qual obtido junto dos Serviços do Ambiente, o interessado é obrigado a passar pela Direcção–Geral das Florestas que lhe concede a licença para os fins justificados.

Na posse destes documentos, estas são aproveitadas para proceder a abates das árvores seleccionados “pau-de-sangue”, onde em lugar de limpar a mata, procede apenas o abate da única espécie, portanto, é assim que conseguem obter as licenças para procederem a presente razia que se verifica nas nossas matas. Ainda na posse desses documentos muitas vezes as mesmas são aproveitadas para continuar noutras zonas coma mesma operação.

Um caso há a destacar na Região de Gabú onde apesar de não existirem “tronqueiros” para disputar o abate de um única espécie, ali funciona uma serração, em cuja propriedade de uma das três serrações que funcionam em toda esta região, localizadas nomeadamente em Mafanco na via que vai dar a cidade, uma outra dentro da cidade de Gabú e uma terceira em Canjufa, na via que vai dar à Pirada.

No caso da primeira, o proprietário de um cidadão da “pátria celeste”, chinês, portanto, da mesma família daqueles que disputam os troncos noutras regiões, aqui em Gabú, ele parece que tem o monopólio de proceder a corte deste única espécie de árvore.

Com isto pode-se dizer que, ao fim ao cabo, a sorte da pobre espécies “pau-de-sangue” não defere em nada do das outras partes do país.

Aliás, esta realidade podemos constatá–lo no percurso que fizemos para a tabanca de Madina Sama. São centenas e centenas de troncos, só que a diferença é  que ele tem o privilégio de fazer a selecção da qualidade, portanto sorte de quem “é filho único”.

Governador da Região de Bafatá ao “0 Democrata”

NA VERDADE NINGUÉM CONSEGUE EXPLICAR A ORIGEM DAS ACTIVIDADES DE “TRONQUEIROS”

“Na verdade, até aqui ninguém é capaz de dar uma explicação plausível do surgimento do fenómeno de cortes de troncos, de forma especial “pau-de–sangue”, começou por afirmar o Governador da Região de Bafatá, quem teve a amabilidade de nos receber mesmo na hora imprópria que o tínhamos abordado por volta das 16H00, mal tinha chegado de uma deslocação à Bissau.

De acordo com Lassana Fati, o fenómeno de abate das árvores iniciou-se na sua região na altura quando ainda não tinha assumido as funções de Governador, mas tal foi intenso a ponto de começar a provocar alarido de toda a população da região e mal foi nomeado como o primeiro representante do poder central a nível da Região. Porém, duas semanas depois de tomada de posse, convocou uma reunião do Conselho Regional, com todos os responsáveis regionais para debater o caso.

No encontro, o assunto mereceu um forte ataque da parte de todos os presentes, a ponto do próprio delegado regional da floresta não foi capaz de responder a onda de perguntas que lhe eram dirigidos, a ponto de se sentir como sendo alvo da parte de todos os colegas presente na reunião.

Passado esse encontro, uns dias depois uma organização denominado de Plataformas das ONG’s e Associações de Base, que agrupa todas as associações de toda região, promoveu uma marcha com todos os seus membros, que procedeu a entrega de manifestos as autoridades locais, nomeadamente ao Comandante Regional das Forças Armadas, ao Comissário da Policia local e ao Governador o qual não surtiu efeito imediato.

Depois destes “demarches”, tomou-se uma outra decisão, que é a de recorrer às Forças Armadas, com vista a estancar os cortes. Passado um tempo, foi enviado uma brigada de Guarda Nacional para controlar o corte das árvores.

Com a chegada destes elementos da Guarda Nacional, formou-se em 2013 uma Comissão, na altura, coordenado pelo comandante Sadjo Sissé, com eles conseguiu-se por travão nessa prática pelo menos por algum tempo, já que a presença desse comandante na região não durou muito tempo, acabando por ser transferido e em seu lugar foi nomeado o major Samuel Fernandes.

No entanto, o que se verificava, era sempre que se interpelava alguém sobre os documentos que lhe dava direito de proceder abates, apresentava muitas das vezes uma fotocópia, o que no entender do Governador da região era normal, tendo em conta que os industriais de madeira sempre que querem abranger grandes extensões de espaços, costuma fotocopiar as suas licenças e entregam aos seus operadores, a lei outorga – lhe esse direito.

Entretanto essas, fotocópias multiplicaram a tal ponto já se torna impossível controlá–los nem detectar as suas origens, tal tem é incontrolável, a ponto de começar a provocar aquilo que, a vista de alguns, podem chamar de guerra institucional, quando as autoridades regionais, no caso concreto na qualidade de Governador da Região, entender tomar certas medidas, por forma a cercear este mal que, ao fim e ao cabo, é o país que vai sofrer com a sua prática.

Muitas vezes, ainda «conforme o Governador, as instituições públicas que geram receitas para os cofres públicos, nunca respeitam suas congéneres similares a nível da região. Estes tipos de posições têm colocado obstáculos no cumprimento das medidas administrativas legais, e isto fez com que fossem accionadas as prorrogativas a que cada Região tem direito em caso de rendimentos económicos de cada uma, que são os vinte (20%) por cento sobre a receita feita a nível da região.

Na Região de Bafatá, existe uma organização denominada de Plataformas das ONG’s e Associações de Base, que agrupa 67 associações de Base e ONG’s, a nível toda região, que de acordo com o seu Secretário Executivo, Abubacar Executivo, para procurar a forma de por cobro a esta actividade nefasta, um dos primeiros que lhes faz perder o sono, convocou-se todos os responsáveis das associações e ONGS membros da Plataforma, para uma Conferência Regional na aldeia de Ganadú.

Nesse encontro, foi transmitido aos participantes as desvantagens que a prática que os abates das árvores podem trazer para a sua região.

Passado alguns dias depois deste encontro, segundo o Secretário-Executivo das Plataformas das ONG’s e Associações de Base, chegou uma delegação, veio de Bissau uma delegação de Direcção–Geral da Floresta que queria saber mais algumas coisas sobre a Conferência bem os conferencistas, queriam ver a cassete dos trabalhos feitos pelos repórteres da RTP–África, tentando desta forma criar obstáculos a difusão das informações recolhidas, os quais contudo acabaram por ser difundidas.

No meio de tudo isto, disse Abubacar Djaló, depois da Conferência, produziu-se uma carta que entregaram as autoridades locais. Como resultado dos trabalhos do encontro de Ganadú, os populares da tabanca de Candama, os populares recusaram ceder os sues troncos de madeira apesar da presença dos militares que foram enviados para a localidade, subiram para as própria viaturas onde ficaram a espera que fosse expulso, e continuaram a fazer face a essa ameaça dos homens de fardas que passado algum tempo, acabaram por ir–se embora; e até hoje continuam a manter as suas posições e nenhuma madeira foi retirada dessa tabanca. Esta é a situação que se vive nalgumas tabancas nesta guerra de devastação da nossa floresta.

No fim de tudo, o Secretário-Executivo das Plataformas das ONG’s e Associações de Base, facultou aos repórteres de “0 Democrata” o censo da população da Região de Bafatá, que é Fundado em 1907 com uma população de 200.884, mas administrativamente, está dividido em seis (6) sectores, vinte e seis (26) secções e uma área de cinco mil novecentos e oitenta e um quilómetros quadrados ( 5.981 Km2).

O PAPEL DOS CARVOEIROS NA DISTRUIÇÃO DO ECOSSISTEMA GUINEENSE

Os carvoeiros não contribuem em nada na devastação do clima guineense, isto mesmo defendeu um dos denominados “tronqueiros”. De acordo com este jovem, os carvoeiros aproveitam os troncos secos das árvores – o que acontece por muitas razões-, tanto para a preparação do terreno para os futuros campos agrícolas, quanto para secar este mesmo terreno por algum tipo de problema fitossanitário. Sendo que, no primeiro caso, o que mais devasta a mata – e são tantos por todo o país-, pois cada ano é cortados vários hectares de terrenos. E isto sem falar dos últimos tempos para plantação de cajueiros. Os carvoeiros não intervêm, deste modo, quer no derrube das árvores, quer em alguma desmatação da floresta, por forma a pôr em causa o ecossistema nacional.

Por: António Nhaga e SA

3 thoughts on “Reportagem Desflorestação: PAU-DE-SANGUE, O NOVO “El DORADO GUINEENSE” 

  1. Excelente trabalho de investigação jornalística, gostei. Espero que o Dr, Nhaga e a sua equipa continuem assim marcar às diferenças, brindando trabalho sério que envolvem os temas de grande interesse. Parabéns!

  2. Todos nós que estamos descontentes com o roubo da madeira nas florestas de todo o mundo por parte de grupos de interesse que prejudicam o equilíbrio da natureza e o sustento das comunidades que dependem exclusivamente da manutenção dos ecossistemas podemos fazer alguma coisa. Uma delas é simplesmente assinar este manifesto: https://secure.avaaz.org/en/petition/Ao_Presidente_e_PrimeiroMinistroda_GuineBissau_mas_vide_manifesto_Salvaguardar_as_florestas_e_recursos_naturais_da_Guine/?ncPdFhb
    Outra é a ajudar a divulgar toda a informação que ainda não chegou a lume sobre este tema.

  3. mais uma excelente reportagem deste Jornal. Parabéns á equipa pelo bom trabalho e pela coragem 😉

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