Setor de Bigene: HORTICULTORAS DE TANDE PRODUZEM PIMENTA PARA ABASTECER MERCADOS DE BISSAU E ZIGUINCHOR

[REPORTAGEM abril_2019] As mulheres horticultoras da aldeia de Tande, uma secção de setor de Bigene, região de Cacheu no norte da Guiné-Bissau, transformaram aquela aldeia num grande centro de produção da pimenta verde que é vendido a grupos de mulheres vendedeiras da capital Bissau e de outras cidades do país, como também para as de Ziguinchor, região de Casamança no sul do Senegal. Pimenta é da espécie “Capsicum annuum”, muito utilizado na culinária em todo o mundo.

A secção de Tande é constituída por oito aldeias que no total constituem um aglomerado populacional de mais de mil habitantes. A semelhança de outras aldeias da Guiné-Bissau, enfrenta enormes problemas sociais, desde a falta de um troço de estrada em condições que permita a evacuação dos produtos cultivados naquela aldeia bem como a circulação normal de pessoas e bens.

ONG SOGUIBA APOIA MULHERES DA SECÇÃO DE TANDE NA PRODUÇÃO DE PIMENTA

A aldeia de Tande tem apenas um furo de água potável para toda a população, mas não dispõe de nenhum posto de saúde para, pelo menos, prestar os primeiros socorros aos utentes. A maior parte dos seus habitantes, em particular as mulheres, são horticultoras e trabalham diariamente na produção de pimenta, registando a maior produção na época da chuva.

As mulheres horticultoras das diferentes aldeias que constituem a secção e de outras aldeias beneficiam do apoio da Organização Não Governamental Espanhola – Solidariedade para com a Guiné-Bissau (SOGUIBA) que assiste as horticultoras em materiais para a vedação do espaço bem como em sementes e instrumentos para cultivo.

A SOGUIBA intervém em diferentes áreas, desde a horticultura e agricultura à educação, através de apoios na construção de escolas e ofertas de materiais didáticos às escolas bem como a formação de mulheres para a confeção de rendas.

As mulheres trabalham em conjunto no cultivo da pimenta e na recolha dos mesmos, mas cada uma vende o produto para benefício próprio, apenas disponibilizando uma soma de seis mil francos cfa como contribuição para a compra de inseticidas e de outros materiais necessários ao cultivo da pimenta.

Uma mulher abordada pela repórter confirmou que trabalha naquele campo faz quatro anos e que consegue para já resolver os problemas de sobrevivência da sua família com o dinheiro que ganha da venda das pimentas.

A repórter constatou no terreno um grupo de mulheres a venderem a pimenta num mercado improvisado sob um mangueiro junto de uma casa particular. Vendia-se também a pimenta em baldes e outras amontoadas no chão sob sacos plásticos. Vendiam cinco pimentas a cem (100) francos cfa.

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO REVELA QUE CEM MULHERES TRABALHAM NO PROJETO HORTÍCULA

O presidente da Associação dos Filhos e Amigos de Tande, Aruna Nuanco, explicou na entrevista à repórter que o campo onde as mulheres exercem as suas atividades hortícolas tem uma área de dois hectares vedados, graças a um projeto desenvolvido pela ONG SOGUIBA. Contudo frisou que os arrames utilizados para a vedação dos campos estão danificados e que agora cada mulher é obrigada a procurar varas para vedar a sua parcela.

Nuanco, que preside a associação com mais de 650 membros inscritos, disse que as pimentas produzidas na sua terra são comercializadas na capital Bissau e parte é vendida nas feiras populares de Ingoré e Bula.

“As mulheres vendedeiras saem de Bissau e vêm até a nossa aldeia a procura da pimenta, mas antes de partirem da capital entram em contacto connosco por telefone para fazerem as suas encomendas. Isso permite que as produtoras façam a colheita normal e assim que chegam vão pegar e voltar para Bissau. As senegalesas de Ziguinchor vêm também a procura da pimenta para irem revender, espelhou.

Contou a repórter que mais de cem mulheres têm participado ativamente no projeto, explicando que a horticultura é uma atividade comum das mulheres da sua aldeia e que algumas têm suas hortas em casa. Lamentou, no entanto, a falta de meios para alargar a produção e para o escoamento do produto.

Aruna Nuanco informou que a aldeia dispõe de um centro hospitalar construído pela comunidade local, mas que devido a falta de materiais e de pessoal não está a funcionar. Acrescentou que os habitantes, em caso de problemas de saúde, deslocam-se ao centro de saúde de Ingoré.

ASSOCIAÇÃO ENALTECE APOIO DA ONG SOGUIBA NA CONSTRUÇÃO DE UMA ESCOLA

Aruna Nuanco realçou o trabalho e o apoio que a organização espanhola SOGUIBA tem prestado à população daquela zona em diferentes áreas, tendo assegurado que, com o apoio da SOGUIBA, a comunidade conseguiu construir um pavilhão de quatro salas de aulas.

Sublinhou que as quatro salas de aulas construídas não são suficientes tendo em conta o número de crianças na aldeia e nas tabancas arredores que se inscreveram naquela escola. Adiantou ainda que devido à falta de escola obriga-os a colocar em cada uma das salas mais de 50 alunos por período, como forma de inscrever maior número de crianças.

A escola funciona em dois períodos de manhã e à tarde, de 1ª classe e até a 4ª classe, como ensino básico. Este ano conseguiram aumentar de 5ª classe ao nono ano de escolaridade (9ª classe), a fim de poderem inscrever as que concluíram a 4ª classe e que não têm como prosseguir os estudos nas grandes cidades do país, observou.

Relativamente à questão do roubo de gado e outros animais, disse que o chefe de tabanca em colaboração com os responsáveis da associação ajudaram na resolução de vários problemas bem como na mediação de pequenos conflitos devido à ausência de uma entidade estatal (forças de segurança) que tenha o papel de manter a segurança a população.

Nuanco explicou à repórter que a cada ano a sua organização reúne os seus associados com o intuito de traçar grandes projetos e atividades em diferentes domínios e os que devem ser tidos como a prioridade para a aldeia, de acordo com as suas necessidades. Adiantou, no entanto, que este ano a sua organização perspetiva construir uma pequena ponte de madeira que vai ligar a aldeia de Tande à tabanca de Barraca. Justificou que a falta de uma ponte tem dificultado muito a população local como também afeta a produção de arroz nas bolanhas.

O funcionamento da ponte improvisada facilitará a ligação entre as aldeias e permitirá o estabelecimento do comércio entre as aldeias através de feiras populares organizadas pela associação, de forma a permitir trocas e vendas de produtos cultivados localmente, contou o jovem.

Avançou ainda que a sua organização improvisou um mercado local que permite às populações vender os seus produtos localmente para evitar a deslocação até a pequena cidade de Ingoré, onde encontram grandes dificuldades.

Relativamente ao problema da água salgada que afeta as bolanhas devido a danificação dos diques que impedem a entrada de água, disse que a comunidade está a trabalhar intensamente para a recuperação dos diques e consequentemente proteger as bolanhas de água salgada. Contudo, apelou à intervenção das autoridades bem como das organizações não governamentais no sentido de ajudá-los na recuperação das bolanhas como também no apoio em sementes e materiais para aumentar a produção.

Por: Epifania Mendonça

Foto: E.M

2 comments

  1. Tibna na Fonte disse:

    Boa tarde, após ter lido esta reportagem, aproveita esta oportunidade para agradecer ao magnifico trabalho feito pelo jornalista, que chegou lá onde poucos jornalistas que ficam atras de politiquices na cidade de Bissau, mais uma vez peço a este reporter que continua a dar voz aos que não tem voz nem vez para apresentarem os seus problemas, onde o estado inexistente nunca chega se chegar os politiqueiros é só na hora de pedir votos…..campanha de aldrabar os inocentes…
    bem haja mais reportagens deste genero para nos fazer sentir Guiné Bissau, porque estamos cansados de assistir Bissau com seus gatunos de dois pés, vangloriando de politicos.

    • Aruna Nhancu disse:

      muito obrigado pelo reportagem, que Deus vos dé a força, saude e a tranquilidade no sentido de poder trabalhar ao serviço da polpulaçao com baixo nivel de vida em todo cantos do territorio nacional.

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