Afonso Té: “TRAZER MAIS CONTINGENTES MILITARES ESTRANGEIROS NÃO É SOLUÇÃO PARA OS PROBLEMAS DA GUINÉ-BISSAU”

O Presidente do Partido Republicano para a Independência e Desenvolvimento (PRID) e candidato derrotado nas últimas presidenciais,António Afonso Té, considerou, na grande entrevista a O Democrata que trazer mais contingentes militares para o país não é,a priori, uma solução para os problemas que os guineenses defrontam. De acordo com a sua visão, a situação do país é, particularmente, muito diferente da situação da República do Centro Africana, da Líbia e do Mali.

“Os nossos problemas internos são problemas que podem ser resolvidos. Em vez de estarmos a trazer mais forças para permitir que se vá pela extravagância no uso dos meios destas organizações internacionais,o que sugeriria é efectivamente trabalhar no sentido de se criar uma plataforma, ou seja, um espaço de concertação e o diálogo nacional. O deficit da Guiné-Bissau reside precisamente ali, no diálogo nacional. É preciso um diálogo nacional, é preciso que as pessoas conversem. As soluções para os problemas candentes, ou melhor, os problemas de grande vulto da Guiné sejam resolvidos é que haja a participação de toda gente ou de todos os guineenses na resolução desses problemas”, defendeu o antigo militar na reserva.

Para o líder do PRID,não existem motivos e razões de trazer mais contingentes militares estrangeiros para o nosso país porque desde que as forças da CEDEAO se instalaram no nosso país não houve mais problemas. Portanto não se justifica mais a vinda de militares estrangeiros à pátria de Amílcar Cabral.

O DEMOCRATA (D): Uma das questões levantadas nos últimos tempos tem sido a ausência da oposição ao Governo do PAIGC, do qual fazem parte o PRS e outras formações políticas. Qual é a sua opinião em relação a esse assunto?

ANTÓNIO AFONSO TÉ (AAT): Acho que é preciso respeitar a decisão do povo guineense em ter dado a vitória ao PAIGC nas legislativas. Penso que é muito cedo para fazer aquela a oposição ferrenha ao partido no poder. É preciso dar um tempo ao PAIGC e o PRS que estão no poder para poderem demonstrar aquilo que podem ou sabem fazer, porque achamos que já é tempo para fazer coisas concretas e boas para a Guiné.Já é tempo de nos preocuparmos com o país no sentido de tirá-lo da situação em que se encontra.

D: Que leitura faz do desempenho deste Governo ao longo de quatro meses do seu exercício?

AAT: Quero deixar até aotempo que entendemos razoável para fazer alguma coisa de concreto para o país. A partir deste momento, eu faço as minhas análises sobre o desempenho do executivo.

D: Tendo em conta as dificuldades enfrentadas pelo país em diferentes sectores,se estivesse no lugar do primeiro-ministro, quais seriam as suas prioridades neste momento?

AAT: Lamento não estar no lugar do primeiro-ministro, por isso tenho muito pouca coisa para lhe dizer. Apresentei a minha moção de candidatura ao cargo de Presidente da República e o partido apresentou o seu programa eleitoral. Se estivéssemos no poder o que faríamos estaria ligado estritamente aquilo que nós traçamos no programa eleitoral.

De acordo com o programa eleitoral que apresentamos publicamente, entendemos que em primeiríssimo lugar é preciso resolver a situação de emergência que se coloca.Emergência em todos os sectores fundamentais, como nos sectores da defesa e segurança, a emergência no sector da educação, da saúde e da agricultura. Avançávamos depois com o programa de contingência para começar a trabalhar o aparelho de Estado, de forma a resolver a pressão sobre a resolução dos problemas que teremos de enfrentar a médio prazo em relação ao país.

Depois disso avançava-se com outro tipo de plano para resolver o problema da energia. Acho que talvez estejam a resolver o mesmo, mas não tenho certeza. Vejo a iluminação na via pública principal. Se nós tivéssemos ganho as eleições teríamos uma solução mais concreta para os problemas que o país enfrenta em diferentes sectores.Há um partido que ganhou as eleições, portanto esperemos que resolva os problemas que o país enfrenta.

D: As autoridades guineenses pediram a vinda de uma força de estabilização multinacional, na qual tomariam parte contingentes militares da CPLP, da União Africana e da União Europeia, para além do contingente da CEDEAO que já se encontra no país. Enquanto militar de carreira com uma elevada experiência, acha que o país precisa de uma força de estabilização no actual contexto sócio-político?

AAT: Seria estar a pôr muita força militar na Guiné-Bissau que a priori não é a solução dos problemas. A nossa situação tem uma particularidade que é muito diferente da situação da República Centro Africana, da Líbia, do Mali ou de outros países. Os nossos problemas internos são problemas que podem ser resolvidos. Em vez de estarmos a trazer mais forças para permitir que se vá pela extravagancia no uso dos meios destas organizações internacionais,o que eu sugeriria é efectivamente trabalhar no sentido de se criar uma plataforma, ou seja, um espaço de concertação e o diálogo nacional.

O deficit da Guiné-Bissau reside precisamente ali, no diálogo nacional. É preciso um diálogo nacional, é preciso que as pessoas conversem. As soluções para os problemas candentes, ou melhor, a tática para que os problemas de grande vulto da Guiné sejam resolvidos é que haja a participação de toda gente ou de todos os guineenses na resolução desses problemas.

Como se sabe já temos uma força que é multinacional no nosso país. Essa força que, apesar de ser da CEDEAO, é uma força composta por contingentes de diferentes países daquela organização e, por isso mesmo, ela é multinacional. Essa força já demonstrou que tem a capacidade para oferecer um quadro securitário indispensável para a situação em que nós estamos, como também de trabalhar no sentido de fazer o país sair da situação em que se encontra.

Essa força instalou-se no país depois de golpe de 12 de Abril. Desde que chegou ao país não se registou nenhuma situação de guerra, ou da eminência de guerra. Tivemos aqui sim, uma tentativa no dia 21 de Outubro que deu no que deu. Essa tentativa de 21 de Outubro ofereceu um quadro macabro de seis ou sete cadáveres. Depois saímos dessa situação e fomos para outra.Criou-se um boato que acabou por custar a vida a um inocente, ou então, o resultado deste boato deu na morte de um cidadão nigeriano nobairro de Massa-Cobra.

Essas são as situações difíceis que se registaram durante a presença da força de CEDEAO, portanto essa é parte negativa que se pode dizer, uma vez que houve vidas que foram ceifadas em consequência daquelas situações todas. Tivemos duas situações aqui, mas uma foi provocada por indivíduos interessados em complicar a situação que prevalecia naquela altura.

Como se sabe até aqui, não há elementos nenhuns que provem que os nigerianos estivessem a tentar traficar os órgãos humanos. Aquela acção de tentativa levado a cabo ao nível do aeroporto, gostaríamos que essas coisas fossem esclarecidas. Entretanto, o que é que tivemos aqui de bom? Tivemos uma situação de calma que permitiu que todo o processo de retorno à normalidade constitucional se realizasse.

É do que nós precisamos. As eleições foram feitas e em consequência disso há um Governo que tomou o poder e que está a tomar as medidas que acha serem necessárias para os problemas que enfrenta. Não temos um quadro onde haja eminência da guerra ou de conflitos tribais que possa descambar numa guerra civil, portanto não há necessidade de se trazer uma força de estabilização para o país.

Quanto maior for o número de forças militares num país, maior poderá ser as possibilidadesde confronto. Eu digo isso, porque cada país tem o seu código de valores e estes códigos de valores podem não ser consentâneos com aqueles que virão mais tarde. Quero dizer aqui, que se aumentarmos mais o número de forças estrangeiras, significa que estamos a aumentar as nossas complicações.

D: Há possibilidade de haver confusão no país com o aumento de forças militar estrangeira?

 

AAT:Sim.Há a possibilidade de haver mais confrontos no país, se aumentarmos mais forças militares. Também estaríamos a transportar aquela guerra diplomática que aconteceu durante a transição, entre a CPLP e a CEDEAO para um campo já mais prático que é o campo militar. Será que isso nos interessa? Ou quem está interessado nisso nesta terra?Uma presença de forças de estabilização na Guiné-Bissau pode aumentar o risco de confusão. Já temos a situação da normalidade constitucional resolvida, portanto para mim essa força de estabilização da CEDEAO deve começar já a trabalhar no sentido de se retirar. Para quê estarmos a aumentar forças no país? Para quê?

D: Continua a defender que só através do diálogo é que se pode resolver o problema da Guiné-Bissau. Que estratégia acha deveria ser adoptada para a criação de um espaço de concertação nacional?

AAT: Sei que havia muitas iniciativas no passado que não deram bem, mas também isso tem a ver com a metodologia usada. A estratégia que deve ser utilizada passa pela selecção de individualidades neutras para tratarem disso. O que nós propomos dentro dessa metodologia é o seguinte: a criação de três pilares de base para a criação de um espaço de concertação nacional.

Esses três pilares seriam criados da seguinte forma: Um pilar para as organizações internacionais a que nós pertencemos; segundo pilar seria sustentado pela organização da sociedade civil e o terceiro pilar seria constituído pela classe política guineense.

D: Quais seriam as tarefas destes três pilares?

AAT:Cada um teria a sua tarefa muito bem definida. A tarefa do primeiro pilar seria a tarefa do aconselhamento e de contribuição para se encontrar a melhor forma de se sustentar a mesa. A tarefa dos políticos seria de saberem colocar-se acima de querelas políticas ou das quezilhas entre as diferentes facções políticas que existem, a fim de colocarem o interesse da Guiné-Bissau acima de todos os interesses políticos.

Para isso, eles teriam que dialogar entre eles no sentido de assumirem posições que pudessem ser levadas à mesa. Eu não digo que isso eliminaria todos os problemas, mas poder-se-ia encontrar soluções para as questões importantes sobre a vida do país. A intervenção da sociedade civil permitiria regular, porque ela é tida como neutra e, por isso regularia toda a situação dentro do contexto de espaço para que as pessoas pudessem,de facto,falar com serenidade para encontrar as soluções sobre os problemas do país que são gritantes.

D: A Assembleia Nacional Popular pretende retomar a iniciativa da reconciliação levada a cabo no passado, mas que está muito longe do formato que acabou de apresentar. Acha que essa caminhada do Parlamento vai dar certo?

AAT: Simplesmente vamos retomar os trilhos que nos levaram ao fracasso. Porquê é que excluem as pessoas que poderão ter vozes, se calhar, até vozes muitos úteis para a solução dos problemas do país?!É bom que fique claro: ninguém tem exclusividade para resolver os problemas da Guiné-Bissau.Todos os guineenses devem participar na resolução dos problemas que temos enfrentado.

Os guineenses confiaram a resolução dos seus problemas à assembleia. Quantas assembleias existiram? Aos partidos políticos, quantos partidos políticos existem? A sociedade civil, quantos elementos da sociedade civil existem? Aos militares, quantas vezes os militares interviram nos assuntos políticos do país? O que é que aconteceu?Nada… É preciso que haja um espaço em que toda gente esteja. Quero trazer aqui um exemplo, quando chegamos a independência não demos ouvidos a ninguém. Pensávamos que tínhamos o monopólio da verdade.

Pensávamos que podíamos fazer, que sabíamos fazer e até por que combatemos os portugueses e foram-se embora. Deixou-se de ouvir os anciões que podem ter boas soluções para os problemas que temos. Não foram ouvidos, ou seja, não se escutou ninguém. Entramos para um quadro institucional, depois da democracia como se estivéssemos num país onde não hávia problemas.

Ou então, como se estivéssemos num país, onde a democracia já tinha uma longa tradição. Ainda estamos na aprendizagem da democracia. Portanto não vamos entrar na aprendizagem da democracia pensando naquilo que os outros fazem na terra deles, porque a realidade é diferente. Devemos inventar soluções para os problemas que temos, de acordo com a realidade que temos. A Guiné-Bissau tem as suas particularidades como qualquer outro país do mundo. Portanto são essas particularidades que devem ditar o comportamento dos guineenses no sentido de buscar soluções para os problemas.

D: Que leitura faz da demissão do ministro da Administração Interna, Botche Candé?

AAT:Se os factos corresponderem ao que está a circular na comunicação social, o senhor ministro deve apresentar a sua demissão. O titular da pasta da Administração Interna neste momento tem sob a sua alçada a segurança e a contra inteligência do país, a ordem pública interna, as fronteiras, como também tem a administração do território e do poder local.Outra coisa, a função do ministério de Interior é uma função fundacional do Estado, então é uma das funções da soberania onde não se deve cometer erros.

O senhor ministro do interior, para se deslocar a linha fronteiriça é preciso que ele se rodeie de segurança. Os quadros do ministério de Interior são quadros técnicos bons e que já têm muita experiência técnica nos ramos das suas especialidades. Eu não vejo, ou não entendo como é que o ministro do interior terá caido numa emboscada de rebeldes. Isso é muito ridículo, mas muito ridículo mesmo.

D: O que acha que aconteceu de concreto?

ATT: Eu não sei e nem quero imaginar. Quando ouvi que os rebeldes emboscaram o ministro do interior, fiquei muito preocupado e até perguntei se querem invadir a Guiné-Bissau outra vez.Porquê? Para começar, a estabilidade da Guiné-Bissau depende de um relacionamento bom entre ela e os outros países que o circundam.

Porque fazemos parte da mesma região. Costuma dizer-se que podemos escolher os nossos amigos, mas não podemos escolher os nossos vizinhos…A Guiné-Bissau já não deve entrar em outros conflitos para que possa dedicar-se a resoluçãodos conflitos internos que ainda tem. É preciso que ela tenha a paz do lado de fora, ou melhor, que haja uma boa vizinhança com outros países.

Imagina…estarmos aqui a registar casos do ministro de Interior que cai na emboscada de rebeldes. O que é isso? Onde está a soberania? A soberania não é só na boca. Está nos actos práticos que o aparelho de Estado tem que executar para que efectivamente os cidadãos se sintam em segurança. A defesa e a segurança é a segurança colectiva do povo guineense e essa segurança colectiva especializa-se em dois elementos importantes, designadamente: Uma defesa e outro elemento é a segurança para que a população cá dentro esteja segura e que se desloque ou que vá para onde quiser, dentro dos limites das nossas fronteiras.

D: Acha que essa demissão vai aumentar mais a crise a nível interno do PAIGC, tendo em conta o peso político do demissionário?

ATT: Com o PAIGC nada é linear… Eu não gostaria de entrar em comentários que depois podem ser mal interpretados. Porque é preciso termos informações daquilo sobre o qual falamos. E não tenho essas informações.

D: Presidente, se na verdade for apurada a presença dos elementos pertencentes à rebelião casamancesa no território nacional, qual deveria ser a posição das autoridades da Guiné-Bissau, na sua opinião?

AAT:A primeira posição das autoridades guineenses é fazê-los sair do espaço nacional. A segunda é continuar aquelas vizinhanças que já vinham sendo feitas há muito tempo. Estamos a falar de uma situação que leva já mais de 30 anos, portanto imagina se um dia o executivo valorizar a zona de Varela, será que não vai ter dificuldades…

Aquele espaço é nosso, então já chega. Além disso tudo regista-se ainda a pressão dos refugiadosque não nos ajuda, porque o pouco que já temos vamos ter que partilhá-lo com eles.

D: No passado recente uma situação idêntica a essa levou o nosso país ao conflito com uma das facções de rebeldes na região de Cacheu. Acha que o país corre o risco de se envolver mais uma vez num conflito com um outro grupo de rebeldes, desta vez na região de Oio? 

AAT: É por isso que o Governo tem que tomar uma medida eficiente para que a situação não se repita.

D: Que medidas devem ser tomadas neste contexto?

AAT:Muitas.Dentre elas e a principal é fazer sair esses homens do nosso território e a segunda é lançar uma ponte entre as autoridades guineenses e as autoridades senegalesas.A terceira é encontrar uma fórmula comum entre a nossa gente e o Senegal no sentido de se negociar para que essa rebelião conheça o seu fim.

D: Nas últimas eleições o Partido Republicano Independente para o Desenvolvimento (PRID), registou uma derrota retumbante. Essa derrota para muitas vozes, deve-se a falta de uma estratégia política clara e outros entendem que deve-se ao fracasso da liderança de presidente do partido… Quer fazer comentário em relação a isso?

ATT:Que cada um pense o que pensa… O que eu acho é que, para se chegar a uma conclusão e apontar dedos é preciso fazer uma leitura muito mais complexa do que aquela que se faz. O nosso partido estava a liderar o fórum e o fórum foi tido aqui como o maior golpista. A estratégia do PRID com o fórum era concertar a oposição para poder ir para frente. Acho que será difícil uma única organização política combater o PAIGC que já tem mais de 50 anos de implantação no território guineense. É preciso que haja uma estratégia concertada para chegar a este ponto. Enquanto estratega compreendi que efectivamente essa devia ser a solução e continuo a dizer que esta que é a solução. Entretanto, se calhar tenha havido algumas arestas que não foram limadas e que deixaram algumas organizações políticas com quem compunha o fórum na situação de fragilidade.

Essa fragilidade vai desde a propaganda negativa do facto de nós termos assumido a gestão da transição que não correu bem, se não a primeira parte. A primeira parte correu bem, a segunda é que não correu bem, mas toda gente sabe o porquê de a segunda parte não ter corrido bem mas ninguém diz isso.

A segunda parte não correu bem porque efectivamente o PAIGC decidiu entrar e fez tudo que podia para dar cabo daquilo. Houve ainda uma ligação entre o PAIGC e o PRS que criou uma situação de fragilidade. Outra fragilidade residia precisamente no facto de o fórum não ter corpo. O estatuto tinha sido feito, mas não foi levado à execução. Foi sob a minha coordenação que o estatuto foi levado à execução. Quando aproximávamos das eleições toda gente queria ir ao fórum e isso provocou uma pressão sobre o fórum.

Outra coisa: as estratégias são delineadas de acordo com as situações e com a realidade que existem. Essas realidades são projectadas para que efectivamente se possa delinear tantas estratégias. O PRID é que teve a organização das eleições nas suas mãos através de um ministro, que é dirigente do PRID. Esse mesmo ministro foi cabeça da lista do nosso partido para as eleições legislativas, portanto esse senhor tinha uma certa responsabilidade nisso.

De acordo com os nossos estatutos, o presidente do partido é cabeça de lista, mas se for candidato às eleições presidências, quem assume a cabeça da lista é o responsável político em termos dos resultados obtidos nas eleições. Não é que eu esteja passar o fogo para outro não é nada disso… A estratégia delineada no quadro do fórum era a melhor estratégia, por isso no cômputo geral dessa estratégia deveria dar ao fórum 30 por cento do eleitorado.

D: O que falhou de concreto e que vos impediu de atingir esse resultado?

AAT:Falhou porque as pessoas fugiram, por um lado. Por outro lado muitas formações políticas não foram capazes de dizer muito cedo que não estavam numa situação regular para irem às eleições. Esses elementos associados à retirada da União Patriota Guineense (UPG) sem avisar o corpo do fórum dificultaram o fórum.

Por outro lado toda gente considerava o fórum de golpista. Entretanto o fórum fez um trabalho junto das representações diplomáticas a nível interno, porque dentre delas havia os que consideravam o fórum de golpista. Os efeitos negativos da posição que tinham em relação ao Fórum deram cabo do nosso bom nome. Quando o PAIGC passou a liderar a transição o que foi que aconteceu…tudo o que era mau vinha para conta do fórum quando no fundo o fórum já não estava no poder.

D: Há informações que indicam que registou-se muita crítica interna a volta da sua liderança dentro do seu próprio partido, depois das eleições. Quer fazer um comentário sobre isso?

ATT:Não… Não se registou esse facto. Aqueles que deram o cabo do fórum ainda querem dar o cabo de PRID, porque sabem que o PRID é daquelas formações políticas sólidas que já se está a transformar em uma instituição. Há três pessoas que são responsáveis disso tudo e essas três pessoas,entraram em inteligência com outras gentes para poder estragar o partido.

D: Senhor presidente, quem são essas três pessoas?

AAT: Não vou dizer os nomes das três pessoas, até porque estamos a tentar resolver esse problema internamente a nível do partido. Esta liderança não é muito criticada. Essas pessoas é que estão a lançar a mesma coisa, mas porquê? Porque eu pedi ou exigi que me fizessem contas das despesas feitas durante a campanha eleitoral. Eu tenho estado a pôr dinheiro num partido e quero saber como é que este dinheiro é utilizado.

Acho que é normal pedir contas. Não há nada de anormal aqui, mas só que utilizaram o dinheiro de forma negativa e não têm condições de apresentar contas. A única saída para eles é lançar farpas. Dizendo que este presidente é contestado. Mas era bom que estivessem ontem quando fui à Bijimita e registassem o acolhimento que as pessoas me fizeram. Após as eleições fui à Gabú e foi a mesma coisa, tive um bom acolhimento da parte das populações.

A contestação está na cabeça daqueles que produziram os resultados super negativos, porque entraram em situações de fazer contestações ou guerras internas ao nível do partido numa altura em que não era necessário. Mas se calhar, tinham o interesse de o fazer, porque estavam a ser orientados por aqueles que querem acabar com o PRID.

D: Durante a campanha eleitoral o seu partido foi um dos que fizeram uma campanha considerada milionária. Podia falar-nos da proveniência dos fundos utilizados pelo Partido Republicano para Independência e Desenvolvimento nas últimas eleições?

AAT:O problema é que ninguém questiona a proveniência dos fundos de nenhum partido aqui na Guiné. Porque razão se questiona a proveniência dos fundos do PRID? Por isso é que eu digo que a estratégia com que conduzi a campanha foi a melhor em termos de organização. Por isso tinha que ser atropelado.

As pessoas falaram aqui de muito dinheiro. Não somos nós que pusemos mais dinheiro na campanha. Nós conseguimos colocar uma soma de 350 milhões de francos cfa na campanha eleitoral, mas os efeitos foram como se nós tivéssemos colocados na campanha mais de um bilhão de francos cfa. Porque eu sei fazer este tipo de trabalho e o que conseguimos fazer é delinear muito bem a nossa estratégia de comunicação, que também é algo que sei fazer muito bem enquanto profissional para a estratégia da comunicação.

Tudo o que se fez era a pressão para esmagar o PRID, porque estávamos numa situação de taco a taco com o PAIGC em termos de campanha. Ninguém queria que um golpista ganhasse as eleições, então as baterias convergiram no sentido de dar cabo ao PRID. Eu aluguei não comprei, mas eles pensaram que os carros foram comprados. Eu tive na minha campanha 38 carros, dos quais comprei apenas quatro.

O aluguer de cada um desses carros custou-me 1.200 mil F.CFA (Um milhão e duzentos mil francos cfa) em Dacar por 30 dias. Tenho as facturas e outras coisas mais desses alugueres dos materiais que fiz.Os 35 carros foram alugados por 36 milhões de francos cfa.Paguei pelo aluguer do camião palco uma soma de um milhão de francos cfa por dia. Confeccionei um total de55 mil camisolas, que custaram no total 55 milhões de francos cfa. Paguei 250 mil cartazes que custaram-me 17 milhões de francos cfa.

D: O partido conseguiu algum financiamento para o aluguer ou aquisição destes materiais?

AAT:Nós fizemos angariação de fundos…

D: Fizeram angariação destes fundos da parte dos parceiros ou como?

AAT: Fizemos campanhas de angariações de fundos a nível das comunidades lá fora. Organizamos jantares para a colheita dos fundos. Nós sabemos fazer isso. Portanto o mais importante de tudo isso é a nossa capacidade de comunicação ou de convencer as pessoaspara obter apoios. O problema é a capacidade de convencer, porque partimos de uma base em que não tinhamos nada e fizemos desse nada a nossa força.

As pessoas ficaram muito preocupadas, mas porquê não perguntarem quais os montantes postos por outras formações políticas na campanha? Posso garantir que para as próximas eleições vamos fazer melhor.

D: Muitos guineenses têm admirado muito a sua capacidade académica, mas muitos, evocam o seu passado nas forças armadas como um obstáculo para o seu sucesso. Quer fazer um comentário sobre isso?

AAT: Acho que as pessoas foram surpreendidas pela minha capacidade, porque pensavam que eu era um brutamontes que não tinha conhecimento nenhum e que não sabia senão a sua profissão de militar. Isso foi o que aconteceu. Mas quando descobriram e a partir daquela altura passei a ser uma ameaça. Como ameaça tinha que ser combatido e as pessoas que me combatem foram buscar o meu passado militar.

Sou o militar e tenho orgulho de ter sido militar, fiz muita coisa para a Guiné-Bissau. Primeiro, na idade de 16 anos participei na luta de libertação, quando a luta acabou eu tinha já 20 anos. Antes disso eu estava a estudar aqui em Bissau no liceu e ia ao quadro de honra todos os períodos. Fiz o curso de comandante de castelo e passei, fui promovido ao comandante de castelo. Depois fui promovido ao comandante de grupo.

Cheguei a liderar as forças armadas no sentido de transformá-las numas forças armadas regulares vindas das forças armadas irregulares. Disseram que eu é que criara a confusão, eu não criei confusão nenhuma. Antes pelo contrário os políticos é que entenderam que tinham que deitar a mão às forças armadas para poder tirar o PAIGC do poder. As guerras políticas internas é que levaram o país à guerra civil, mas não aquilo que eles disseram que tinha sido: guerra geracional entre os oficiais das forças armadas.

Fui do tribunal militar superior.Fui nomeado e não voluntariamente. Enquanto militar se eu for nomeado, tenho de aceitar a nomeação. Enquanto militar eu servi o meu país muito bem. Para servir o meu país, eu tinha a obrigação de conhecê-lo, portanto conheço o meu país.

Estes capitais de vantagens é que fazem medo às outras pessoas que dizem que como sou militar, devia ficar nas casernas. O meu arcabouço político é superior ao arcabouço político dos outros, mas as pessoas não conhecem o meu arcabouço técnico. Sou o administrador público, sou jurista, sou um oficial inter-armas por ter feito academia militar. Um mestre em artes e ciências militares.

D: O país prepara a reforma do sector da defesa e segurança que algumas pessoas acham que corre o risco se falhar. O que acha deve ser feito para que não se registe uma falha, tendo em conta a sua experiência nessa matéria?

AAT:O Estado deve assumir o processo da reforma do sector da defesa e segurança. O Estado nunca assumiu a reforma. Se o Estado decidir assumir a reforma, portanto o Estado deve reformar-se a si mesmo. As forças armadas não passam de um grande departamento do Estado.

Não servirá de nada fazermos a reforma das forças da defesa e segurança, sem fazermos a reforma do próprio Estado. Quem gere as forças da defesa e a segurança é o Governo. Então se as instituições políticas e civis não estiverem organizadas como poderão gerir as forças da defesa e segurança.

D: O país neste momento prepara uma mesa redonda com os parceiros internacionais. Está confiante que as autoridades poderão obter algum apoio concreto a partir da realização da mesa redonda?

AAT: O que eu posso dizer é desejar que a mesa redonda corra bem, porque estamos nos limites. Estamos sob sanções há muito tempo. Essas sanções vieram bater numa ferida que já existia. A Economia guineense é uma autêntica ferida, portanto as sanções vieram bater sobre essa ferida e as consequências foram carregadas pela população.Eu desejo que o Governo tenha uma boa performance no sentido de captar os interesses dos investidores e que a mesa redonda seja um sucesso.

D: Qual é a sua leitura em relação à exploração dos Recursos Naturais que se perspectiva no país?

AAT:A primeira coisa que deveríamos fazer era fazer um levantamento para sabermos o que temos em termos dos recursos naturais e qual o valor desses recursos. A partir daí teríamos uma informação concreta sobre os nossos recursos e isso permitir-nos-ia negociar com os interessados. Há uma grande opacidade em relação às informações sobre o petróleo,bauxite e o fosfato.

Acho que estamos a mexer numa possível fonte de conflitos outra vez. Será que temos a garantia de uma distribuição equitativa desses recursos para que o país beneficie por igual? E a segunda coisa, será que tecnicamente estamos preparados para levantarmos ou procedermos a exploração destes recursos?

D: Acha que o país estará em condições de lutar contra a pobreza através de financiamentosde projectos da educação, da saúde e da agricultura, se não explorar os seus recursos naturais?

AAT:Eu não digo que esperemos. O que eu digo deveriamos começar de outra forma e não da forma como começamos. Vende-se aquilo que se sabe que existe. Mas para isso é preciso fazer uma avaliação do que temos para apurar a quantidade e o valor no mercado.

 

Por: Assana Sambú

 

One comment

  1. Gostei. sinceramente estou mias acomodado intelectualmente, depois de ter lido esta entrevista do António Afonso Té. Houve alturas em que cheguei a pensar que o meu irmão perdeu o Norte. Pena é ele não estar a ser aproveitado para o desenvolvimento do nosso país. O Afonso Té é indispensável a conjuntura sociopolítico da Guiné-Bissau. Vamos deixar dessas coisas de partidocracias e eleger pessoas aptas para os cargos de responsabilidades – ao Bem da Guiné-Bissau!

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