CULTURA: entrevista com Rui Jorge Semedo

ASSOCIAÇÃO GUINEENSE DE ESCRITORES (AGE) : “Sem Intenção” é sua quarta lavra literária que, ao que tudo indica, está composta de duas partes: de um lado, a poesia que procura, sem/com intenção retratar o corpo de mulher como matéria da poyésis da sublimação; e, de outro, um esboço historiográfico (talvez um pouco de crítica literária da literatura guineense. Por que razão estas duas perspectivas em foco?

RUI JORGE SEMEDO (RJ): Sim, “Sem Intenção” é a minha quarta obra, mas, no entanto, terceira do ponto de vista literário. Ela é uma obra constituída por duas partes, mas, em verdade, a primeira, embora traz o corpo da mulher como uma manifestação e elemento do desejo, de todo novo na minha experiência de criação, também outros assuntos como a preocupação com as questões ambientais e da identidade nacional,  a equidade de género, os problemas políticos e sociais são temas também presentes e que, sobretudo, procuram chamar a atenção da sociedade sobre dilemas e paradigmas culturais. Já a segunda parte, dependendo do olhar que o leitor quer ter, em síntese, é uma abordagem histórico-sociológico do processo de construção literária guineense. O propósito nesta parte era também de trazer a versão mais próxima da realidade sobre a situação de vida da literatura na Guiné-Bissau, que embora ainda não existe uma política adequada de incentivo, os literatos têm procurado cumprir a sua missão transcendental e simbólica com a cultura nacional.

AGE: Ainda assim, devo colocar outra preocupação minha (quiçá do leitor d’O Democrata). Na sua escrita existem um tema recorrente que é o da preocupação com degeneração social a que se transformou a vida do bissau-guineense…

RJ: O poeta, o pintor, o músico, o artesão e os homens de arte em geral procuram fazer a leitura da sociedade a que pertencem e não só, pois, e é esse o exercício que procuro expressar nas minhas atividades de criação literária. A degeneração sociopolítico me preocupa como tantas outras situações, mas também a beleza das nossas riquezas naturais e culturais exaltam os meus momentos de inspiração.

AGE: O conceito Guineidade (em construção, se quisermos, Guine’n’dadi, em kriol) perpassa, desde a sua primeira obra Stera di Tchur, que traduz, em termos literários, os conflitos sociopolíticos decorrentes do 7 de Junho, e Retrato, que se debruça sobre o processo da miscigenação cultural Brasil/Guiné-Bissau e agora esta nova obra. Que traços comparativos você vê nessas obras? E que paralelo se pode trazer com a sua ensaística de Ponto de Vista?

RJ: Essa questão é mais complexa e um pouco difícil de responder, mas acredito que cada uma das minhas obras procura contar a sua própria estória partindo de uma convivência com a realidade circundante. Por exemplo, Stera di tchur foi resultado de uma resposta a tentativa de rotura com a consolidação do processo de construção da identidade nacional que ainda prevalece e que sociologicamente coloca em risco o elemento mais essencial da nossa identidade como sociedade que é a Guinendadi. E o Retrato apesar de ser uma experiência diaspórica, um contato com o outro, não esqueceu de observar as raízes de formação cultural que unem a África e o Brasil, mas é sobretudo ao procurar cantar a Guiné-Bissau em kriol que consigo observar melhor a genealogia da perversidade social e humana.

AGE: Em toda a sua produção literária vemos (e apercebemos) de várias nuances e matizes nela embutidas: humildade com humanidade, solidariedade com espírito de trabalho, consciência cidadã com civilidade, etc. Concorda com minha análise?

RJ: Bem, acho que isso é uma leitura que cabe a cada leitor fazer, ou seja, essa conclusão envolve um conjunto de valores sociais, morais e políticos que escapa o autor, e, nessa lógica, devo apenas respeitar e não concordar ou descordar.

AGE: Teça-nos, por favor, um breve comentário sobre o panorama da nossa literatura contemporânea nacional…

RJ:A literatura guineense ainda está em processo de formação e precisa da contribuição e sensibilidade de toda a sociedade para aproveitar a beleza inspiradora que a sua cultura e natureza lhes oferecem e cada vez mais conquistar e proporcionar ao público leitor um produto de qualidade artística e literária.

 

por:  AGE (Associaçao Guineense de Escritores)

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