Alberto Zambarletti: “POVO GUINEENSE CONHECE TAMBÉM PLANTAS DE MEDICINA NATURAL”

O Diretor-Geral da Rádio Sol Mansi Padre Alberto Zambarletti afiançou, na Grande Entrevista no “O Democrata”, que o povo da Guiné-Bissau conhece as plantas medicinais que podem ser aproveitadas para o tratamento das doenças e garantiu, ao nosso jornal, que a medida que a nossa população descobre mais plantas medicinais, o país vai trabalhando nos estudos com o intuito de as poder aplicar nos tratamentos das diversas e mais comuns doenças que se verificam no nosso país.

Revelou ainda que há grupos de trabalho que estão instalados, em Mansoa, nas tabancas e em algumas localidades do país que trabalha na recolha de informações junto dos anciões sobre determinadas plantas medicinais para tratamento de doenças. Ainda nas suas palavras as informações sobre plantas são levadas para um pequeno comité científico que tem o papel de analisar a importância da referida planta e as suas aplicações nos tratamentos.

“Como se sabe um dos problemas da medicina tradicional é a sua dosagem, porque não se pode dizer ao doente para fazer um chá com cinco ou dez folhas de uma planta”, explicou Alberto Zambarletti acrescentando de seguida “o Comité Cientifico faz umas análises e estudos completos para determinar a dosagem dos remédios tradicionais, depois instruiu o grupo para a produção do referido medicamento tradicional. Depois de todo o procedimento transformamos algumas folhas ou raízes em comprimidos para ingerir, outros em xaropes e em pomadas”.

O Democrata (D): Celebrou-se recentemente a Jornada Africana da Medicina Tradicional. Senhor Padre, o que é a medicina tradicional?

Alberto Zambarletti (AZ): Podemos definir a medicina tradicional como sendo aquela que é utilizada o saber das populações para o tratamento ou a cura de doenças mais comuns. Em qualquer parte do mundo as populações descobrem plantas medicinas que aproveitam para a cura ou tratamento de doenças. Como se sabe há dois mil anos atrás os chineses descobriram uma planta medicinal que actualmente se chama “Artemisa” que é usada para a cura da malária. Os chineses há muitos anos aproveitavam aquela planta para o tratamento e a cura da malária.

O povo guineense também tem esse conhecimento de plantas medicinais que podem ser aproveitados para o tratamento de doenças. Portanto são coisas ligadas à natureza e por isso são chamados da medicina natural. Na medida em que se a população descobrir mais plantas medicinais nós vamos trabalhar nos seus estudos a fim de aplicá-las nos tratamentos de doenças mais comuns.

D: Quais são os métodos usados para a confeções dos medicamentos tradicionais e que tipos de medicamentos têm neste momento?

AZ: Temos um grupo de trabalho que está concentrado em Mansoa bem como em algumas localidades do país. Este grupo de trabalho recolhe as informações junto dos anciões nas tabancas sobre determinadas plantas medicinais para tratamento de doenças, depois as informações e plantas são levadas para um pequeno comité científico que tem o papel de ver a importância da referida planta e a forma do seu uso para o tratamento.

Como se sabe um dos problemas da medicina tradicional é a sua dosagem, porque não se pode dizer ao doente que faça um chá com cinco ou dez folhas de uma planta. O comité científico faz umas análises e estudo completo para determinar a dosagem dos remédios tradicionais, depois instrui o grupo para a produção do referido medicamento tradicional através das plantas. Depois de todo o procedimento transformamos algumas folhas ou raízes em comprimidos para ingerir outros em xaropes e pomadas para a pele.

Temos três tipos de xaropes que são vendidos na nossa farmácia, designadamente: temos a xarope de pau de sangue que é usado para a anemia e o xarope para o apetite e o xarope para o tratamento de tifóide que está a ser comprado muito pela população devido o seu resultado no tratamento.

D: A medicina convencional (moderna) usa certo procedimento ou processamento para chegar à conclusão na fabricação dos remédios. Será que os mesmos procedimentos são utilizados para a fabrico dos medicamentos tradicionais?

AZ: Como se sabe a medicina tradicional em si na Guiné não tem meios como a medicina convencional… Até agora a medicina tradicional encontra-se nas mãos dos anciões. Existe apenas uma grande vontade da parte de Grupo de Natureza que trabalha com o apoio de Caritas da Guiné-Bissau nesta matéria, mas não tem meios para esse tipo de trabalho.

Esperamos que com a evolução de tempo conheçamos todas as características e poderes das plantas medicinais que a natureza nos oferece, depois estaremos em condições de fazer um estudo mais adequado sobre a sua aplicação. Descobrimos ultimamente uma planta que se chama de “Djindjer” que é o nome próprio dado pelas populações na zona leste do país e de acordo com as informações recolhidas pela nossa gente aquela planta tem uma grande importância no tratamento de algumas doenças.

Conforme os estudos feitos, as suas raízes são muito boas para o tratamento e a prevenção do paludismo. Descobrimos que vários países africanos como Niger, Benin e Angola já usavam aquela planta e outras até as transformam em cápsulas.

Como não temos meios próprios para fazer o nosso estudo científico, resolvemos tomar os estudos científicos feitos por outros países sobre a mesma planta a fim de podermos fabricar o medicamento. Aliás, é desta forma que estamos a funcionar, através dos estudos feitos por outros países. Se descobrirmos uma planta medicinal, fazemos umas análises para ver se já foi descoberta noutros países.

Estamos a usar um método para ver o efeito dos medicamentos que produzimos é um método local e não é científico. Por exemplo, se 100 pessoas utilizarem um determinado medicamento tradicional que produzimos e se todos elas conseguirem ser tratadas, então chegamos a conclusão que o referido medicamento além de ser bom para o uso indicado nem como consegue tratar as doenças.

Quero apenas esclarecer uma coisa, um medicamento pode estar bom e comprovado, mas (pode) não conseguir ter efeitos esperados no tratamento das pessoas. Por isso é que utilizamos esse metódo. Se o medicamento não consegue tratar as 100 pessoas que o utilizaram então consideramos que é bom, mas infelizmente não consegue tratar as pessoas e ai discutimos outras soluções. Esta é a forma como funcionamos: sem grandes laboratórios para fazer as pesquisas científicas, porque aquilo precisa de mais meios orçados em muito dinheiro que infelizmente nós não temos.

D: Falou da existência de um grupo de trabalho que recolhe informações sobre plantas medicinais junto dos anciões nas tabancas. Como é constituido esse grupo? são médicos modernos ou recrutaram pessoas simples nas tabancas?

AZ: Escolhemos voluntários que trabalhavam connosco e que têm vontade de ajudar outras pessoas. São pessoas com certos conhecimentos sobre a medicina tradicional. Este grupo de trabalho é constituido também por pessoas com (certo) nivel de escolaridade e algumas são professores,  eles conseguem fazer trabalhos da recolha das informações.

Dentro deste grupo de trabalho de natureza temos um pequeno grupo de pessoas que constituem um comité científico, que têm a missão de fazer pequenos estudos científicos de plantas medicinais descobertas.

O referido comité é composto por: um farmacêutico, um botânico do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), um médico formado na medicina convencional e um curandeiro tradicional com grande experiência e conhecimento. O comité analisa todas as informações das plantas medicinais recolhidas, de onde são extraídas informações com as quais se produziu um livro sobre as plantas medicinais da Guiné-Bissau.

Conseguimos produzir o primeiro volume do livro de 400 páginas, onde constam os nomes de todas as plantas que existem na Guiné-Bissau e que servem para fazer tratamentos. Publicamos o livro para ajudar as pessoas servirem–se dele e poderem tirar o maior proveito dos tratamentos e medicamentos propostos.

D: Há quanto tempo é que este grupo de trabalho da medicina tradicional está na Guiné-Bissau?

AZ: A medicina tradicional já existe na Guiné há muitos anos, ou melhor, desde os tempos dos nossos antepassados. Nós que somos da medicina convencional conseguimos descobrir a medicina tradicional há bem pouco tempo, sobretudo eu na qualidade de estrangeiro.

D: Estou a perguntar do grupo de trabalho da natureza…

AZ: Este grupo começou a trabalhar em Março de 2000, em Bubaque (Bolama/Bijagós). Havia um grupo de irmãs que trabalhavam no centro de saúde de Bubaque e como havia dificuldades em conseguir medicamentos modernos, uma delas que tinha conhecimentos em medicina tradicional com os índios da Amazonia (America Latina) e resolveu usar a sua experiência junto dos anciões para a produção de produtos de medicina tradicional para tratar pacientes com doenças comuns.

Naquela altura eu era o director das Cáritas. Seguiamos os trabalhos das irmãs em Bubaque. Depois de algum tempo resolvemos aplicar a experiência das irmãs para ajudar a população que tinha dificuldades em conseguir medicamentos modernos.

Nós das Cáritas resolvemos assumir o acompanhamento do grupo. É por essa razão que o grupo de trabalho da natureza tem as suas instalações na sede das Cáritas. A população está apostar na medicina tradicional e a procura dos medicamentos tradicionais pela população tem vindo a crescer.

 

 

 

D: Quais são os resultados obtidos até agora?

AZ: Gostaria que esta pergunta fosse respondida pelos colaboradores que temos no grupo de trabalho, porque eles mesmos têm-me dito que notam o apreço que as autoridades nacionais têm para com os remédios da medicina tradicional.

Uma vez fizemos uma exposição num dos hotéis da capital. Registou-se uma enorme procura da parte das populações e das grandes figuras do país. Agora nota-se a procura da medicina tradicional pelas altas figuras ao nível do continente, porque actualmente todos os países africanos produzem remédios através das plantas medicinais.

Actualmente os voluntários são procurados pelas populações nas tabancas para verem os seus filhos doentes, como se fossem médicos da medicina convencional. Isto tudo aumenta a vontade e a paixão dos voluntários pelo seu trabalho, porque sentem-se agora como pessoas importantes no seio da sociedade. Em termos económicos não ganham nada, mas em termos sociais conseguiram grande prestígio na sociedade e eles mesmos reconhecem isso.

Quero realçar que mesmo em termos económicos está-se a registar um pouco de lucro, porque lembro-me que no ano passado fizemos uma exposição e conseguimos obter quase dois mil Euros da venda dos medicamentos tradicionais. Este ano conseguimos através das exposições ou vendas dos medicamentos uma soma de 1900 Euros. Para nós isso demonstra o interesse que a população em geral tem já pelos medicamentos tradicionais.

O que nos dificulta um pouco é encontrar voluntários que tenham a mentalidade solidária, o bem das populações, e não a de aproveitar apenas para o seu interesse particular. Há alguns jovens que já avançaram com o pedido para entrarem no grupo e estão a solicitar a formação na área.

D: Como é que se vendem os medicamentos tradicionais… Qualquer pessoa vai e compra ou é necessário apresentar uma receita médica?

AZ: Nós produzimos medicamentos apenas para as doenças mais comuns… É como acontece nas farmácias que vendem os medicamentos da medicina convencional, porque ali quando se compra paracetamol e outros medicamentos para as doenças comuns não é preciso uma receita médica.

É assim também que funcionamos, porque produzimos apenas medicamentos tradicionais para as doenças comuns. Agora se a pessoa tem um problema mais sério então nós ajudamos e instruímos essa mesma pessoa a procurar uma consulta médica nos hospitais, a fim de poder receber um tratamento mais específico feito por um especialista. Para nós o mais importante é que haja uma boa colaboração entre a medicina tradicional e a medicina convencional.

D: Será que está optimista quanto ao futuro da medicina tradicional na Guiné-Bissau bem como na África em geral?

AZ: Sim estou muito optimista sobre o futuro da medicina tradicional na Guiné-Bissau e na África em geral. Lembro-me que quando comecei a trabalhar com a medicina tradicional em África nos anos de 1980, as pessoas diziam-me que já conheciam a medicina tradicional, mas preferiam os medicamentos da Europa, ou melhor, remédios da medicina moderna. Percebi que as pessoas não tinham valorizado os medicamentos tradicionais, mas actualmente as pessoas apreciam muito os medicamentos tradicionais.

D: Diz-se que as plantas medicinais têm entre 14 e 15 princípios que a medicina moderna extrai para desenvolver nos laboratórios. Será que a medicina tradicional consegue também extrair esses princípios para produzir remédios tradicionais?

AZ: Quero explicar que o princípio da medicina tradicional é muito diferente dos princípios da medicina convencional. Vou dar um exemplo. A artimiza, a tal planta medicinal usada pelos chineses há dois mil anos para o tratamento do paludismo, tem dentro de si 14 princípios. A indústria farmacêutica tirou apenas um principio que conseguiu misturar com outro produto químico para fabricar o comprimido chamado “Coarctem” para o tratamento do paludismo.

Neste caso extraiu-se apenas um princípio activo para misturar com outro produto a fim de fabricar o remédio. Este princípio activo tornou-se fraco porque sozinho não consegue fazer nada, mas se se pegar todos os 14 princípios para produzir o remédio vai se ter sucesso. Por isso nós recomendamos mais as pessoas para tomarem o chá de artemiza, porque tem todos os outros princípios.

D: Qual é a forma utilizada para a conservação dos medicamentos, em termos de prazos de validade?

AZ: Temos métodos mais simples. Quando aconselhamos as pessoas a preparar o chá de uma planta, uma das recomendações é que o mesmo deve ser tomado apenas num dia. Não devem ultrapassar essa recomendação porque pode provocar outros problemas. Mesmo os medicamentos preparados em comprimidos, não damos validades superiores a um ano. Acho que na medicina tradicional não é crucial a questão da validade, porque temos as matas e ali há muitas plantas e o mais importante é a forma de preparação dos medicamentos.

Também explicamos muito bem a dosagem. Por isso as pessoas que compram os medicamentos tradicionais devem ouvir muito bem as explicações dos nossos vendedores em relação à dosagem.

D: O senhor é um médico profissional formado na medicina convencional. Actualmente existem doenças que não têm tratamento nem cura. Sida e cancro por exemplo. Tendo em conta a sua experiência, acha que a medicina tradicional pode conseguir a solução para a cura definitiva dessas doenças?

AZ: Acho que se a medicina tradicional e a medicina convencional cooperarem pode-se chegar a um bom resultado. É verdade que muitas das vezes preocupamo-nos em encontrar aquele princípio activo que não conhecemos no sentido de tratar ou curar as doenças cujos tratamentos ainda não dominamos.

Temos um exemplo: o caso do vírus do Ébola que se está a trabalhar afincadamente para descobrir os remédios que o conseguem curar. Temos o caso também da sida que ainda não tem um tratamento definitivo, mas acho que a medicina tradicional tem um grande contributo para dar neste caso. Por exemplo, há um estudo feito que indica que se a pessoa utiliza certos chás de planta que temos na Guiné, como a “Moringa – Nene Badadji” torna o sistema imunitário da pessoa mais forte e capaz de resistir às bactérias.

Uma das coisas que devemos fazer para proteger o nosso corpo é reforçar o nosso sistema imunitário através do consumo de chás das plantas medicinais que temos nesta terra. Porque não há nenhum medicamento neste mundo que sozinho pode combater uma doença.

Quando tomamos qualquer remédio antibiótico ou anti-palúdico a finalidade é ajudar o nosso corpo que tem já uma reação do nosso sistema imunitário, por isso devemos consumir os chás das plantas para fortificar o nosso sistema imunitário. Uma das ajudas que a medicina tradicional pode dar à medicina convencional é o reforço do sistema imunitário através do consumo dos chás de plantas medicinais.

D: Já agora acha que pode ser encontrada a cura definitiva para o vírus do Ébola que se regista na África através da medicina tradicional por meio de uma pesquisa profunda das plantas…

AZ: É difícil afirmar isso, porque a verdade é que até hoje não foram encontradas curas para doenças de origem viral.  Talvez a única coisa que podemos fazer é aquilo que referi acima, isto é fortificar o nosso sistema imunitário através de boa nutrição bem como do consumo das folhas das plantas.

Estes vírus são seres biológicos que não têm muita força em si, mas conseguem ganhar forças quando estamos debilitados, por causa de falta de uma boa nutrição. Muitas pessoas deixaram de se alimentar com folhas de plantas e passaram a usar apenas produtos das lojas, mas qualquer um de nós e mesmo os mais pobres têm a possibilidade de conseguir as folhas de morringa (Nene Badadji) para fazer um bom prato de comida bastante nutritivo, porque encontramo-la nas nossas casas. Infelizmente apenas os cabritos é que se alimentam dessa planta.

D: Tendo em conta a sua experiência, acha que está longe ainda de se encontrar medicamentos para o tratamento da doença da Ébola através da medicina convencional e tradicional?

AZ: Conforme informações disponíveis, há laboratórios no mundo que produzem medicamentos, mas não foram ainda testados. O Japão anunciou que tem medicamentos para tratar 20 mil pessoas, a Rússia e os Estados Unidos de América anunciaram igualmente que têm medicamentos.

Alguns destes medicamentos foram testados nos laboratórios em animais, portanto ainda não foram atestados seres humanos. Por isso não podemos ficar iludidos que os medicamentos que conseguem funcionar em animais podem funcionar igualmente nos humanos.

Agora resta fazer os testes em humanos para apurar se na verdade esses medicamentos podem ser usados para o tratamento da doença de Ébola. Precisa-se ensaiar o tratamento em centenas de milhares das pessoas para se certificar o seu efeito. No entanto só quando se conseguir tratar a maioria das pessoas é que se pode afirmar que o medicamento é eficaz. Também há outro problema que é o caso dos efeitos colaterais dos medicamentos, porque um medicamento pode ser eficaz no tratamento de uma doença, mas pode provocar outro problema chamado de efeitos colaterais.

Sempre no momento do estudo de um medicamento deve-se ter em conta essas situações e evitar os efeitos colaterais que podem criar nos pacientes problemas graves. É preciso um estudo muito sério na preparação dos medicamentos e isso exige muito tempo. Infelizmente estamos numa situação de emergência em que é necessária uma resposta rápida e eficaz. Nesta circunstância a Organização Mundial de Saúde é a única entidade que pode pronunciar-se para afirmar que o medicamento está em condição de uso ou não.

D: Qual é o maior método que deve ser utilizado para a prevenção do vírus da Ébola na Guiné-Bissau, no seu ponto de vista?

AZ: Para mim as medidas adoptadas pelas autoridades nacionais estão muito bem pensadas. E uma das primeiras medidas é a diminuição de contactos com as fontes através do encerramento das fronteiras com os países onde já registaram casos da doença de Ébola. A prática de lavar as mãos com lixívia também é uma boa medida, mas acho que uma medida muito importante que deve ser aplicada é o reforço do nosso sistema de saúde, sobretudo ao nível dos centros de saúde que estão nas zonas fronteiriças.

Imagina: se conseguimos ter um bom sistema imunitário através de uma boa alimentação, como também se tivermos bons centros de saúde que conseguem tratar infecções respiratórias ou outras doenças já conhecidas e se restar só o Ébola, o nosso corpo vai conseguir resistir porque já temos um sistema imunitário eficaz que consegue resistir.

Entendemos que é muito importante reforçar o nosso sistema sanitário. E a terceira medida é trabalhar afincadamente na sensibilização das pessoas sobre as medidas de prevenção da doença. Nós aqui na Rádio Sol Mansi temos um programa de sensibilização sobre a prevenção da doença, mas também vamos introduzir um pouco do conhecimento da medicina tradicional onde vamos recomendar as pessoas para utilizarem os chás das plantas medicinais.

D: Uma das estratégias fortes da medicina convencional é a comunicação. Qual é a estratégia que pretendem usar para a divulgação dos resultados alcançados pela medicina tradicional?

AZ: Efectivamente este é um sector ainda fraco. Lembro-me que no passado tinhamos uma pessoa que apresentava um programa radiofónico nas antenas da Rádo Sol Mansi, sobre a medicina tradicional. Tendo em conta as dificuldades que estamos a enfrentar paramos o programa, mas temos em perspectiva a iniciativa de retomá-lo.

Produzimos um livro sobre a medicina tradicional e a intenção é formar pessoas em medicina tradicional, incluindo nos centros de saúde e até nas escolas. Estamos a fazer uma mobilização de pessoas porta a porta sobre o uso de medicamentos tradicional, porque ainda não temos meios para publicitar os nossos medicamentos.

D: Actualmente ouvimos publicidades nas rádios de curandeiros estrangeiros que alegam que podem curar várias doenças e até mesmo aquelas doenças para as quais a medicina convencional ainda não encontrou tratamento. Também as pessoas que recorrem ao tratamento destes curandeiros acabam por não conseguir tratamento e às vezes os seus estados de saúde pioram muito com medicamentos tomados. Até que ponto essa situação vos preocupa, tendo em conta a vossa experiência?

AZ: Acho que toda agente que trata doença num determinado país têm uma referência clara, isto é, o Ministério da Saúde, que a meu ver é a entidade que deveria regulamentar e ao mesmo tempo controlar o sector. Para mim nenhuma pessoa deve agir autonomamente, sobretudo no sector de saúde que é muito complexo.

Nós estamos a trabalhar afincadamente não só para sermos reconhecidos pelas autoridades, mas também que haja condições para trabalharmos junto com os enfermeiros nos hospitais. O Ministério da Saúde deve adoptar um critério que permita o funcionamento legal de qualquer curandeiro tradicional na Guiné-Bissau.

O Ministério da Saúde hoje em dia tem apoio de algumas instituições que o podem ajudar na regulamentação do sector, designadamente o Instituto Nacional de Saúde Pública que pode ajudar muito no estabelecimento de regras que permitam o melhor funcionamento do sector. Assim também o Laboratório Nacional de Saúde tem um papel muito importante que pode jogar neste aspecto em colaboração com os curandeiros que alegam ter um determinado medicamento tradicional para o tratamento das doenças.

D: As Cáritas da Guiné-Bissau em colaboração com as Cáritas de Alemanha sempre promoveram o desenvolvimento da medicina tradicional na Guiné. Será que as autoridades nacionais prestam alguma atenção especial a medicina tradicional?

AZ: Estamos a trabalhar neste projecto com uma pessoa da Alemanha que não faz parte das Cáritas daquele país, portanto não é Cáritas. Digo sempre que se promovermos as exposições contamos com bom acolhimento do Ministério da Saúde.

Aquela senhora nos apoiou muito neste sector a partir da Alemanha. Ela trabalhava na Guiné nos anos 80 na saúde materna infantil, portanto ela é uma das médicas que faz a confecções de cartões de consulta das mulheres grávidas. Convidamos sempre as autoridades sanitárias do país e a Organização Mundial de Saúde para todas as exposições dos medicamentos que fazemos, porque como se sabe é a representação africana na Organização Mundial de Saúde que lançou a iniciativa da jornada africana da medicina tradicional.

Quais são outros parceiros que têm, em termos de apoios técnicos e financeiros para a produção dos medicamentos?

AZ: O apoio que temos é apenas através da doutora Sónia que nos ajuda em termos de formações das pessoas e na produção de manuais. A doutora Sónia trabalhava na Guiné, por isso criou uma organização na Alemanha sem fins lucrativos com o nome de “Tabanka”, a fim de ajudar as pessoas.

Apoios financeiros não são precisos por enquanto, porque os recursos estão aqui na Guiné-Bissau. A forma da produção dos medicamentos é bastante simples que não requer nenhum investimento. Precisamos é de um apoio técnico, sobretudo de uma pessoa que em termos científicos vai ajudar-nos no desenvolvimento dos estudos. Não temos grandes parceiros no momento e o grupo funciona nas instalações das Cáritas, pelo que a Cáritas ocupa-se de algumas coisas.

D: O senhor já fez mais de 40 anos na Guiné-Bissau, sempre apostou na luta para o desenvolvimento deste país. Qual é a razão da sua motivação?

AZ: Vim para a Guiné depois da independência no âmbito de uma missão no sentido de vir ajudar o país para crescer nas diferentes áreas, nomeadamente saúde e a educação. Eu tinha a preparação na área da saúde, pelo que me colocaram naquela área. No início colocaram-me no sector de Boé, onde trabalhei juntamente com outros enfermeiros do nosso instituto durante cinco anos.

Conseguimos descobrir durante os tempos que fizemos alí que a medicina simplesmente curativa não dava, no entanto chegamos à conclusão que era preciso o envolvimento das populações no sentido de dotar-lhes de certos conhecimentos, mas acima de tudo consciencializá-las que devem procurar os hospitais sempre que começarem a sentir febres ou qualquer outra doença.

A grande verdade é que conseguimos crescer também com eles. Contávamos com os apoios de alguns organismos internacionais. Lembro-me que chegou uma altura em que trabalhei com cinco médicos na região de Gabú, portanto tudo isso é uma grande experiência. Penso que podemos ser testemunhas da nossa fé através desta pequena obra, sobretudo no meio da população muçulmana, onde trabalhei muitos anos.

D: Senhor é o director-geral da estação emissora Rádio Sol Mansi que promove cidadania e a consolidação da paz na Guiné-Bissau. Acha que isso deverá ser igualmente uma aposta para outros órgãos da comunicação social na Guiné-Bissau?

AZ: Os órgãos da comunicação social desenvolveram-se muito na Guiné. Para mim esta multiplicação de órgãos da comunicação social no país nos últimos 15 anos é uma grande sorte. Cada qual tem a sua linha editorial que o permite funcionar ao serviço do povo. A Rádio Sol Mansi procurou aquela característica de trabalhar para a paz e o diálogo. Como é do conhecimento de todos, a Rádio Sol Mansi foi criada pelo padre David, durante o período do conflito militar de 1998.

Ele dizia que se a rádio é utilizada para ganhar a guerra, porque é que não se faz a rádio para ganhar a paz. Hoje em dia o tipo de jornalismo que estamos a fazer que é o da promoção da paz, do diálogo e do desenvolvimento está a ser apreciado muito fora da Guiné-Bissau. Há dois meses um grupo de cinco jornalistas da nossa rádio foi convidado por uma universidade norte-americana, a fim de ir discutir com eles durante um mês este novo tipo do jornalismo.

Actualmente no mundo grandes canais de televisões, rádios e jornais fazem um tipo de jornalismo de sensacionalismo, onde fazem coberturas de guerras para informar a opinião pública. Tudo isso cria medo à população, no entanto nós estamos convencidos que podemos trabalhar para uma sociedade mais convencida.

D: Como vê os laços da confraternização entre as diferentes confissões religiosas, uma coisa que é rara noutra parte do mundo…

AZ: Acho que é uma coisa muito positiva de que este povo deve orgulhar-se. Trabalhei muitos anos em Boé, onde quase toda agente é muçulmana e naquela altura entendemos que não havia nenhuma razão para abrir uma concorrência com o propósito de roubar alguns fiéis e convertê-los ao cristianismo.

Quando cheguei à Mansoa juntamente com o Padre David, conheci aquele que é actualmente o presidente de Associação dos Imames Muçulmanos. Trabalhamos juntos em algumas acções de desenvolvimento e na formação das pessoas, mas também várias vezes trocamos informações sobre alguns aspectos da religião.

Sempre estamos juntos tanto os muçulmanos e a igreja evangélica, portanto soubemos lidar com as nossas diferenças sem problemas nenhuns. Quando o padre David criou a rádio fez os muçulmanos e os evangélicos criarem um programa na rádio, onde passam as suas mensagens.

Quando os muçulmanos também criaram uma rádio em Mansoa fizeram o mesmo e deram-nos um espaço para apresentarmos o nosso programa. Penso que A relação de amizade e de proximidade existente entre as diferentes comunidades religiosas na Guiné-Bissau deve servir de exemplo hoje para os outros países no mundo.

D: Qual é o seu sonho para a Guiné-Bissau?

AZ: Quando cheguei à Guiné na década  de ,1970 o meu primeiro sonho era de ver um país desenvolvido, mas na altura havia muitas dificuldades. O analfabetismo era muito elevado e também não havia estruturas de saúde. Trabalhou-se muito para combater o analfabetismo e a criação das estruturas de saúde através de apoios de vários parceiros internacionais.

Passamos muitos anos na criação de diferentes estruturas, registaram-se vários problemas que deram num conflito armado. Ficámos muito decepcionados. Mas o senhor Ferazzetta, primeiro Bispo de Bissau, ensinou-nos uma coisa… Ele disse, “olha, nós preocupamo-nos muito com as estruturas de base, mas não nos preocupamos em preparar os homens”. O meu maior sonho para a Guiné-Bissau, passa pela formação do homem guineense.

Por: Assana Sambú

Fotos: Marcelo N´canha Na Rithe

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