Opinião: COVID-19 E O TESTE DE SOLIDARIEDADE: o caso de maus tratos a africanos na China

Corona-vírus (Covid-19 como ficou conhecido), uma doença respiratória, altamente contagiosa e assassina, surgido em Whuan, Região Central da China, em dezembro de 2019, vem sendo de longe, desta parte para cá, o principal assunto no mundo inteiro por danos que vem causando a humanidade. Essa pandemia (assim classificada pela OMS por sua abrangência e letalidade) está ceifando vidas humanas, paralisando o dia a dia das pessoas, provocando confinamento em massa, causando assim prejuízos incalculáveis aos países ao redor do globo. Uma problemática global de saúde pública talvez nunca antes vista, que, segundo especialistas ligados ao Instituto de Relações Internacionais da Pontífice Universidade Católica do Rio de Janeiro, quando analisada, por um lado, sob as perspectivas econômicas e seus efeitos é comparada a crise econômica de 2008; e, por outro, quando essa mesma analise é virada ao campo da Política Internacional é comparada ao fim da Guerra Fria.  

Em tempos de surtos pandêmicos do gênero, todavia, ganham eco questões como: solidariedade, harmonia e fraternidade, sobretudo para com pessoas que necessitam e que estão na situação de vulnerabilidade, muita das vezes longe de casa, como é o caso de alguns imigrantes africanos na cidade de Gwangzhou na China. Estes últimos, no entanto, têm recebido da comunidade chinesa local, de acordo com algumas denúncias feitas pelas próprias vítimas e pelas autoridades consulares de alguns países africanos naquele cidade do país asiático, tratamento desumano e de total preconceito, sendo acusados (acreditem se quiserem) de serem portadores do novo corona vírus e de oferecerem riscos de contagio ao resto da população local, sem serem previamente testados e submetidos a exames que comprovem tais suposições; algo que, naturalmente, causou indignação e perplexidade de muitos africanos (eu me incluo) ao redor do planeta, que, por sua vez, têm demostrado tais insatisfações de maneira contundente nas redes sociais e outros meios de informação.

As relações sino-africanas sempre foram vistas e tidas, tanto pela parte chinesa quanto pela africana (mas talvez mais pela parte chinesa devido aos interesses que este tem no continente negro) como harmónico, solidário, de sinceridade e amizade. São relações muito antigas, de acordo com historiadores e experts no tema, que remontam séculos inclusive… embora só ganhem azo a partir do século XX, em sua segunda metade, quando a potência asiática decidiu desencadear e adensar o seu apoio bélico e logístico aos movimentos independentistas africanos na luta contra a dominação colonial ocidental. As relações entre os dois povos são baseadas e ou ancoradas nos laços sul-sul de cooperação, iniciativa consagrada em Bandung (1955) e que contempla regiões e países em desenvolvimento, tendo como princípios fulcrais a solidariedade, mútuo respeito, igualdade, não-indiferença, harmonia etc.

Algumas iniciativas chinesas como, por exemplo, o Fórum para Cooperação China-África (2000) e Fórum Macau (2003), demostram o apego chinês ao continente e a necessidade de reprodução constante do discurso de solidariedade e de muitos outros valores da sua parte. Agora, resta saber se a referida solidariedade só vale quando o debate é sobre economia, recursos naturais e riquezas africanas ou quando o assunto envolve também seus recursos humanos? Tudo indica que não seja este último, pelas notícias que têm chegado daquele país asiático. A China é, inegavelmente, um dos maiores parceiros da África hoje, em múltiplos domínios, como africanos devemos ter a humildade de reconhecer isso, mas também, por outro lado, devemos ter a coragem e firmeza em tecer, sempre que justificar, uma visão crítica sobre algumas questões envolvendo nossas relações pelo bem comum. Queria deixar isso bem pontuado antes de prosseguir.

Bem, têm circulado vídeos e relatos de maus tratos que alguns africanos veem sofrendo na cidade de Gwangzhou na China, sendo alvos de cerceamento de liberdade de ir e vir, de confinamento abrupto e até de despejo de seus alojamentos por parte de alguns (não todos vale assegurar) cidadãos e proprietários chineses, por alegadamente estarem contaminados com a Covid-19 e de serem riscos para a sociedade, muitos jogados a própria sorte sem ter para onde ir e sendo obrigados a dormir na rua. É essa a solidariedade chinesa para com África(nos)? Uma questão para reflexão crítica dos nossos irmãos chineses que quando vão a África esperam ser bem recepcionados e tratados. Na parte final desse texto disponibilizo alguns links com matérias e reportagens que comprovam essa situação mísera e vexatória sob a qual os nossos irmãos africanos foram submetidos naquela cidade chinesa. Esperava-se que fosse a última coisa a acontecer a comunidade africana na China, pelos diversos motivos, alguns dos quais já ressaltados de antemão. O curioso nisso tudo é que esse surto surgiu na própria China, imaginem se fosse o contrário, se surgisse na África. Só imaginem!

Porque só os africanos tinham que estar confinados? Eram/são os únicos imigrantes na cidade? Não há cidadãos de outros continente em Gwangzhou? Porque não foi decretada quarentena geral e somente a um determinado grupo de pessoas? São, naturalmente, questões que não querem calar nesse momento, mas que de fato são necessárias levantar nesse momento. Isso talvez demostre que a tão exaltada e propagandeada solidariedade chinesa para com África(nos) só existe nos discursos políticos e nunca na prática e na vida real. E mais: que a mesma tenha vínculo e efeitos direto apenas quando a questão é econômica e de outra natureza, não a vida, bem-estar e dignidade humana. Quando deveria ser o contrário, até porque somos nós Humanos que construímos riquezas e fazemos a economia e qualquer outra coisa o que ela é. A questão é séria e muito preocupante, visto que pode acarretar mal-estar nas nossas consolidadas relações diplomáticas, mantidas há muitos anos e, sobretudo, criar um clima nada amistoso entre os nossos povos. 

Apesar de tudo, nada está perdido, na medida em que as autoridades chinesas assumam as suas responsabilidades e garantam uma boa integração dos africanos no seu território, corrijam os erros cometidos por alguns dos seus cidadãos e adotem medidas necessárias e justas para uma boa convivência de todos. África e China, podemos juntos sair dessa mais fortes, solidários e otimistas do que nunca. Essa pandemia já demostrou claramente que somos todos humanos, somos todos uma só espécie e ninguém (não importa origem, cor da pele, condições socioeconômicas e papel social) é mais melhor ou mais ser humano que ninguém. Esse é um momento muito importante para as nossas relações, momento de repensarmos as nossas ações, de nos abdicar de nossos preconceitos e sermos de fato solidários um para com o outro. Se assim não for, não restará nenhum cidadão chinês/a no continente, pelo motivo óbvio e que já chamei a atenção aqui: Covid-19 surgiu lá na China, não na África. Mesmo se fosse o contrário, não atribui africano nenhum o direito de prejulgar qualquer cidadão chinês em seu território e muito menos praticar uma situação de descriminação. Mútuo respeito, fraternidade, solidariedade, valores inegociáveis e que têm sido nossas bandeiras, devem de fato sair dos discursos e serem postas na prática para o benefício e bem-estar de todos.

Por: Deuinalom Fernando Cambanco,

Mestre em Relações Internacionais.

Reportagens sobre a situação de africanos em Gwangzhou:

AL JAZEERA ENGLISH: Why are Africans in China being targeted? I Inside Story. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=yqEFMYVLWgo>.

DW AFRICA: Covid-19: África e Estados Unidos acusam China de descriminar os africanos. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/covid-19-%C3%A1frica-e-estados-unidos-acusam-china-de-discriminar-africanos/a-53096604>.

SAHARA TV: Nigeria Consular In Guangzhou, China, Stood Up For Nigerians Displaced By The Chinese Government. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=06W8FdHsNNE>.

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