Crônica: A CARONA DO CORONA (E O VÍRUS?)

Não sei exatamente o que me motiva a escrever estas parcas linhas, nem sei se as minhas magras ideias neste confinamento secular; ou seja, neste retiro forçado, quiçá, forjado por razões sei se de saúde de verdade ou se de pavor à famigerada pandemia.

Ou para parafrasear alguém é muito bom rir-se deste demónio que apavora as pessoas. Um demónio que, por sinal, começou as suas peripécias na Ásia, e de repente, começou por invadir as grandes economias do mundo, da Europa à América, e muito recentemente a nossa África. Esta a sempre recetora do que de pior há no mundo, segundo os presumíveis donos do mundo.

O meu desapontamento seria se esta merda tivesse começado no continente negro. Seríamos expulsos do planeta terra para irmos viver no planeta dos macacos. Graças a Deus que escapamos de mais uma acusação infame.

Assim começo por narrar a história que me pôs a traçar o tracejado que interessa ao meu compasso de escrita; pois é com este compasso que vou percorrendo o mundo que me cerca, e que me envolve imaginativamente:

Conta-se que em tempos de muita fome no reino animal quatro amigos fugindo do flagelo foram encontrar-se numa casa abandonada. Lá sem que haja um balão de escape para eles, decidiram acomodar-se já que não havia alternativa para a situação que estavam a viver naquela soturna solidão.

Coisas da vida…

Trata-se do Leão, da Onça, da Cobra e do Lobo. Cito-os por ordem de chegada ao abrigo.

Bem, como o diabo da fome os reuniu naquela casa, e não havendo muita empatia entre os quatro animais, reconhecendo porém cada um de que era preciso conviverem naquela espaço que não era nada agradável para eles; cada um pensou de si para si, e quase que telepaticamente sabiam que era preciso definir as regras de convivência para fazer face à fome que os fustigava a todos. Ou pelo menos regras que pudessem permitir uma convivência aceitável entre eles.

Foi então que o Leão tomou a palavra e disse:

– Meus caros penso que em tempos de penúria devemos definir as regras do jogo por forma a garantirmos um ambiente de convivência saudável entre nós.

Todos olharam para el; desconfiado, entrelharam-se. No meio deles havia um mutismo fúnebre. Ele então voltou a dirigir-se aos colegas do confinamento – não este nosso provocado pelo pandemónio (ou melhor pandemia) – a fim de alertá-los de que era necessário que o escutassem e o ouvissem, principalmente sobre a proposta que tinha e que contava apresentar. Todos quase que ao mesmo tempo acenaram com a cabeça concordando em ouvi-lo.

Deu a si a palavra, dizendo quase em alta voz mas com um tom professoral:

– Já que estamos em situação de fome, seria bom que definíssemos que se quisermos nos manter vivos é importante alimentarmo-nos, e bem, senão morremos todos de fome. Ao que o responderam em coro:

– É verdade. Estamos todos ouvidos Sua Majestade.

– Ok, estamos a começar bem. Gostaria que cada um tivesse seu dia de ir à caça.

Neste caso, cada um de nós trazia o produto da caça para saciarmos a fome.

– Mais uma vez todos concordaram.

– Assim sendo, começo eu, depois segue-me a Onça, e depois dela, a Cobra e finalmente o Lobo. Tudo isto seguirá um ordem rotativa.

– Aceitaram todos a ordem da caça.

Sabendo o Leão de que não bastava a rotatividade. Pensou de si para si e pediu a todos que respeitassem um ao outro, mas que gostava que cada dissesse do que não lhe agradava num ambinte como àquele em que animais de índoles diferentes, e certamente, de personalidades distintas podiam conviver sem grandes atritos em tempos de fome.

Pediu a cada um que disse o que lho podia provocar a ira ou o mal-estar, começando por ele o autor da proposta:

– Não gosto de barulho, de incomodação.

– Da minha parte não gosto de desrespeito, de insulto à minha honra – disse a Onça.

– Não gosto que me pisem. Fico muito bravo e sou capaz de picar a alguém – avisou a Cobra.

– Não gosto que me façam perguntas. Nada de perguntas seja de que natureza for, assegurou o Lobo.

Decidido a rotatividade da caça e definido o que poderia trazer problemas ao grande lar dos quatro animais, começaram a caça.

O Leão foi, trouxe, e todos comeram. Sendo a vez da Onça, esta trouxe e partilhou com todos o fruto da caça. A Cobra foi, e fez-se o mesmo. Chegando a vez do Lobo, ele, o animal que caçou, comeu-o no local, voltando para casa, e ocupando o seu lugar no quarto em que dormia. Sem dizer nada aos colegas.

No entanto não se contentando com a atitude do Lobo, todos dirigiram o olhar reprovativo ao Leão, este acalmou-os com um piscar de olhos. Porém nenhum deles disse nada ao lobo, nem uma palavra sequer, uma vez que ele já disse a todos que não gostava que lhe fizessem perguntas.

Começou o segundo round. O Leão, a Onça, a Cobra trouxeram para o lar os animais caçados. Todos dividiram a caça num grande banquete regada a vinhos, a champanha, e risadas das boas. Uma noite de felicidade geral.

Quando chegou a vez do Lobo, ele teve o mesmo comportamento da rodada anterior. Todos os demais colegas entreolharam-se entre si numa atitude reprovativa. A Onça não se conteve, e dirigiu-se ao Lobo:

– Por que razão nós os três trazemos o fruto da caça e comemo-lo a todos, de igual para igual, e só tu desafias, e comes e vais deitar-te ao teu quarto como se não tivesse explicação nenhuma a dar-nos, nem tão pouco alguma satisfação. Nada. Isto é falta de repeito.

Ao que o Lobo retorquiu.

– A regra foi clara . A nenhum de vocês assiste-lhe o direito de dirigir-me uma pergunta sequer.

Nisso instaurou-se uma confusão geral. Os dois entraram em contenda. Avançaram para as vias de fato. Choque de princípios: a Onça (respeito); o Lobo (perguntas). A Onça matou o Lobo, mas acabaram por provocar um barulho insuportável ao Leão. Este investiu bruto e feio sobre a Onça, derrotando-o. Contudo teve a infelicidade depois de eliminar a Onça de pisar mortalmente na Cobra; todavia este, em reação rápida, injetou-o o veneno no corpo.

Preciso é dizer que os todos animais perderam a vida.

QUID JURIS?

Caro Leitor aquele abraço fraterno de muito encorajmento nesta prisão socio-doméstica, para que o Covid 19 não nos traga ao mesmo tempo o desassossego neste solo pátrio e mátrio.

Bissau – Praça dos Heróis Nacionais -, 29 de maio de 2020.  

  

Por: Jorge Otinta de Sá

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