Opinião: PENSAR A FOME EM COVID-19

O risco da “pandemia de fome” com que o mundo atualmente se confronta, apresenta-se para muitos países como um risco provavelmente muito mais preocupante do que a própria crise sanitária provocada pelo novo coronavírus, Covid-19, sobretudo nos países com uma longa e consolidada tradição de importação da grande (senão a maior) parte dos seus produtos alimentares, como é o caso da Guiné-Bissau.

Os rácios de contágio e de morte por Covid-19  em África (em torno de 3 e 4 por cento), não só são menores a nível global[1], como também estão muito aquém das 50 milhões de pessoas (homens, mulheres e crianças) lançadas direta ou indiretamente por essa pandemia, ao risco de sucumbirem à fome.

Obviamente esta situação não é necessariamente um apanágio do Covid-19, pois o assunto já vinha à baila muito antes dos seus holofotes: para parafrasear Boaventura de Sousa Santos, “a pandemia (Covid-19) vem apenas agravar uma situação de crise a que a população mundial tem vindo a ser sujeita” (Santos, 2020).

Na verdade, o desempenho africano no domínio de segurança alimentar nunca esteve à altura do desejável. Se o colonialismo teve êxito em desintegrar a economia africana da sua vertente ecológica, a independência, por sua vez, nunca teve mérito de contornar esse legado, razão pela qual, África é o continente com a mais baixa taxa de produtividade agrícola mundial, e por conseguinte, a única região do mundo onde a produção de alimentos per capita ainda se encontra em declínio.

A propósito disso, Carlos Lopes (um dos mais conceituado economistas africanos da nossa atualidade) observa no seu mais recente livro, África Em Transformação, que a produtividade de terra por hectare na Índia, por exemplo, cresceu efetivamente nos últimos 50 anos de 0,95 para 2,53 toneladas, enquanto que, essa produtividade em África, permanece estagnada em torno de 1,5 toneladas,  não obstante a disponibilidade de terras aráveis ser três vezes maior em África do que na China e seis vezes em relação a Índia (Lopes, 2020). 

Ainda sobre este tema, Kanayo F. Nwanze (Presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola – FIDA), durante uma entrevista, à margem da Sexta Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento da África (TICAD), dá-nos conta que o continente africano dispõe de 25% das terras aráveis do planeta, mas gera apenas 10% da produção agrícola mundial.

Desse modo, a importação, mais do que um simples meio de troca que possibilitaria a aquisição de produtos (alimentos) cuja produção dos quais o continente não dispõe de vantagem comparativa – conforme reza a teoria clássica do comercio internacional – afigura-se como um meio sem o qual torna-se impossível assegurar minimamente uma adequada condição alimentar dos africanos.

No entanto, a democratização da crise sanitária, económica e social por Covid-19, principalmente as barreiras impostas ao comercio internacional, inclusive as restrições impostas aos sistemas de ajuda e assistências internacionais, aumentam (talvez como nunca) o desafio e a responsabilidade de cada país na gestão dos seus problemas com base nos seus próprios esforços internos.

Para além disso, a falta de evidências científicas (contundentes) em relação à contenção do vírus num futuro próximo, torna ainda mais acentuada a pertinência desta tese de assunção endógena dos problemas.

Posto isto, cabe aqui uma questão: será que o governo atual coloca estas preocupações no centro da sua atenção, aquando da definição das prioridades? Ou seja, as medidas já implementadas e as que irão ser, aportam sinais de resiliência à crise, sobretudo à crise alimentar ou fome?  Caso contrário, o que deve ser feito e como?

Julgo que, no momento em que nos encontramos, o nosso exercício de cidadania (nós africanos) em relação às avaliações e manifestações pró ou contra o poder político não deve perder de vista estas e outras preocupações da mesma natureza.

Assim sendo, enquanto guineense, interessa-me no âmbito do presente artigo, desenvolver este assunto, particularmente no que tange  o meu país, Guiné-Bissau. Entretanto, não podendo o mesmo ser feito agora por motivos óbvios, procurarei fazê-lo no próximo exercício que, em breve, será   vos apresentado neste mesmo espaço, “si Allah djabi”.

Por: Teodomiro Correia

Lisboa, março/2021


[1] Importa esclarecer que isto não quer dizer que Covid-19 não seja um problema que mereça uma séria preocupação dos africanos, nomeadamente do ponto de vista sanitário, e tampouco tem que ver com a insensibilidade ou insolidariedade para com as suas vítimas, porém, a verdade é que esta pandemia tende a sobrepor-se em África, a semelhança das outras regiões, descurando assim, outros problemas ainda bem mais graves e mais complexos no continente.

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