Crise na educação guineense: PERITOS DEFENDEM CRIAÇÃO DE PACTO E UM MEDIADOR SÉRIO ENTRE GOVERNO E DOCENTES

[REPORTAGEM_junho 2021] O ensino guineense anda à deriva há sensivelmente três anos, sem respostas que garantam um ensino de qualidade na Guiné-Bissau. Os especialistas em matéria da educação e, sobretudo os mais atentos à situação do sistema educativo guineense ouvidos pelo nosso semanário, falam de uma área sensível entregue “completamente à desorganização, às greves e à disfuncionalidade” e defendem como possível solução, a criação de um mediador sincero, neutro e imparcial, bem como a aceitação de compromissos que levem a um ensino de qualidade na Guiné-Bissau. Dois especialistas em matéria da educação foram convidados à analisar se existem condições técnicas para a validação do presenta ano lectivo 2020/2021 nas escolas públicas. 

Por exemplo, o professor e ativista social, Sumaila Djaló, mestre em História Contemporânea aponta como possíveis saídas às greves e à disfuncionalidade do setor, a criação de um pacto que faça uma análise sobre o estado atual da organização e desenvolvimento curricular, os principais entraves para a existência de ensino de qualidade e proponha metas que permitam o envolvimento de todos os atores na busca de soluções duradouras para os graves problemas no sistema educativo.

Na visão de Raul Daniel da Silva, director-executivo da Cooperativa Escolar São José, o ano letivo está “completamente comprometido”, porque será “muito difícil” fazer a reposição dos dias letivos perdidos na sequência das paralisações recorrentes no setor do ensino, sobretudo quando os prejuízos ultrapassam os sessenta por cento. Raul da Silva defendeu, por isso, a nulidade do ano letivo em curso nas escolas públicas atingidas pelas greves ou que funcionaram parcialmente e permitir ou dar a oportunidade às escolas que funcionam em regime de autogestão concluírem o presente ano letivo.

Sumaila Djaló, também professor do ensino secundário, afirma que não existem condições técnicas para validar o presente ano letivo nas escolas públicas na Guiné-Bissau, lembrando que 2020/2021 ficará na história como o terceiro ano letivo nulo na Guiné-Bissau e segundo consecutivo: a primeira vez foi em 2002/2003 e as duas mais recentes são os anos letivos 2019/2020 e 2020/2021, desafiando o governo a assumir o “desastroso” fardo da impossibilidade material e pedagógica de salvar o presente ano letivo e liderar um processo de diálogo nacional pela “despartidarização da questão educativa”.

PROFESSOR RAUL DEFENDE NULIDADE DO ANO LETIVO NAS ESCOLAS PÚBLICAS ATINGIDAS PELAS GREVES

Em entrevista  ao Jornal O Democrata para falar da crise no setor do ensino guineenses e que saídas devem ser adotadas para o setor educativo nacional,  Raul Daniel da Silva é da opinião que o Estado da Guiné-Bissau deve ter a capacidade e a vontade de sentar-se à mesa com os sindicatos para dialogar e, consequentemente, procurar encontrar soluções consentâneas para pôr fim a onda de paralisações no setor educativo guineense e procurar soluções duradouras que garantam o funcionamento definitivo, sem interrupções, das escolas públicas do país.

O diretor executivo da Cooperativa Escolar São José fala também  de um mediador  neutro, sincero e imparcial capaz de apresentar propostas concretas como solução e que serão aceites por todos os atores  ligados ao setor do ensino.

Quanto às paralisações das aulas nas escolas públicas desde janeiro deste ano, 2021, Raul Daniel da Silva fala em três anos letivos consecutivos sem nenhum ensino de qualidade na Guiné-Bissau, não três ou quatro meses de paragem.

“Não. Eu não diria quatro ou cinco meses sem funcionamento das escolas públicas do país, mas sim três anos sem um ensino de qualidade na Guiné-Bissau, porque o ano letivo 2018/2019 funcionou como funcionou, sobretudo nas escolas públicas”, indicou.

Raul Daniel da Silva salientou que se uma determinada instituição de ensino perde, por exemplo, mais de quarenta por cento dos dias letivos programados, não consegue cumprir o seu programa relativamente a esse ano letivo, afirmando que “foi exatamente o que aconteceu em 2018/2019″.  

Raul Daniel da Silva lembrou que na inauguração do bloco de Mindara tinha alertado o ministro da educação na altura, para que não usasse a sua prerrogativa de governante ou influência  política para salvar o ano letivo.

“Aconselhamo-lo que usasse uma engenharia, ou seja, que prolongasse as aulas para a reposição dos dias letivos que tinham sido perdidos na sequência da pandemia da Covid-19, não optar pela passagem automática, mas não fomos tidos nem achados e fez-se a passagem automática”, indicou.

Raul Daniel da Silva frisou que no ano letivo seguinte, 2019/2020, as portas das escolas públicas só abriram em janeiro e no mês seguinte, fevereiro, o país foi apanhado pela Covid-19 e só em agosto é que se retomaram as atividades de docência, porque muitas escolas não tinham condições para funcionar no período das chuvas.

“Em 2020/2021, as escolas públicas funcionaram apenas de outubro a dezembro. Nos finais de dezembro começaram logo as ameaças de greve no setor do ensino até ao momento”, assinalou.

Perante estes cenários, o Diretor Executivo da Cooperativa Escolar São José afirmou que o ano letivo está “completamente comprometido”, porque será “muito difícil” fazer a reposição dos dias letivos perdidos na sequência das paralisações recorrentes no setor do ensino, sobretudo quando os prejuízos ultrapassam os sessenta por cento. Raul da Silva defendeu, por isso, a nulidade do ano letivo em curso nas escolas públicas atingidas pela greve ou que funcionaram parcialmente e permitir ou dar a oportunidade às escolas que funcionam em regime de autogestão concluírem o presente ano letivo. Contudo, admitiu que a nulidade de qualquer ano letivo tem as suas “consequências catastróficas” para os pais e encarregados de educação, sobretudo os que fizeram investimento de um ano para os seus filhos, mas não conseguiram nenhum resultado palpável, sem contar com os reflexos negativos na vida dos alunos, porque “os dias letivos perdidos não são recuperados tão facilmente”.

Raul da Silva é da opinião que o Estado da Guiné-Bissau deve ter a capacidade e a vontade de sentar-se à mesa com os sindicatos para dialogar e encontrar soluções consentâneas para pôr fim a onda de paralisações no setor educativo, soluções duradouras que garantam o funcionamento definitivo, sem interrupções, das escolas públicas do país.

Questionado sobre o papel das escolas privadas na busca de soluções para o setor do ensino, Raul da Silva frisou que as escolas privadas nunca cruzaram os braços desde que as ameaças começaram, tendo lembrado que quando os alunos das escolas públicas ameaçaram paralisar o funcionamento das aulas nas escolas privadas, impedindo os professores das escolas públicas de lecionarem nas escolas privadas, a Associação das Escolas Privadas teve um papel positivo que levou os alunos das escolas públicas a abdicarem das suas intenções.

“Reunimo-nos no salão de conferências da Cooperativa Escolar São José e informamos ao grupo que liderava a iniciativa que era perigoso avançar com a ideia, porque teria consequências imprevisíveis, tanto para os alunos como para o país”, indicou e disse que o atual ministro da educação tem informações dos trabalhos feitos pelos associados da Associação das Escolas Privadas para fazer com que os alunos das escolas públicas desistissem das suas  intenções.

“Depois desse trabalho, os nossos associados continuaram a encetar contatos junto dos sindicatos e do atual ministro da educação, mas não surtiu nenhum efeito. Embora não tenha sido divulgado pelos órgãos de comunicação social, mas fizemos o nosso trabalho”, frisou.

Raul Daniel da Silva informou que para além dos contatos feitos pela Associação das Escolas Privadas, foi delegado um grupo de personalidades que  envolveu também  a Diocese de Bissau, através da sua Comissão de Ensino e Educação, para procurar soluções.

“Acreditamos que todas as forças vivas se levantaram. O processo envolveu também a comunidade religiosa e a sociedade civil, portanto queríamos que as partes apresentassem soluções para estancar as greves no setor do ensino”, disse.

Instado a pronunciar-se sobre a passividade ou não da sociedade civil face às greves nas escolas públicas, Raul Daniel da Silva não fez nenhum comentário sobre o assunto. Contudo, deixou claro que a política domina o debate nacional.

“Não posso falar da passividade ou não da sociedade civil neste processo, porque a política domina debate nacional em todos os setores da vida pública do país e a sociedade civil não será uma exceção”, precisou.

O Diretor Executivo da Cooperativa Escolar São José defendeu que a sociedade civil deveria ter assumido um papel de neutralidade total, de mediador sincero e de imparcialidade.

“A única entidade que tem assumido, até aqui, papel de neutralidade e de mediador sincero nesse processo são as entidades religiosas, mas ultimamente estão exaustas”, sublinhou.

Uma das exigências dos sindicatos tem a ver com o cumprimento integral do Estatuto de Carreira Docente. Sobre essa matéria, Raul da Silva lamentou o fato de os sindicatos do mesmo setor divergirem sobre esse ponto, “que por sinal estava a ser implementado pelo governo”.

Em reação aos últimos acontecimentos nas redes sociais, com iniciativas singulares de jovens com cartazes a pedirem a escola, o Diretor Executivo da Cooperativa Escolar São José disse que quando um regime em governação atua de forma tão dura contra o seu próprio povo, acaba por sofrer as consequências dos seus atos.

Para Raul da Silva, as reivindicações que estão a surgir ou que têm surgido pouco a pouco nas redes sociais, inclusive as dos pais e encarregados de educação que recentemente se barricaram junto do Ministério da Educação, é um sinal de convite à população, que até aqui era tida como passiva, para reagir às diferentes situações sociais na Guiné-Bissau.

“A greve dos transportadores é um dos sinais, porque se analisarmos as declarações de alguns membros do governo antes da greve e depois do início da greve, vamos ver que o governo recuou  nas suas posições anteriores  e decidiu negociar com o sindicato. A posição inicial do governo era que nunca mais negociaria com o sindicato, porque este não podia impor regras ao executivo”, indicou e salientou que a solução para acabar com convulsões sociais será necessário que o governo tenha  vontade política, perceber que  está na governação porque foi eleito pelo povo  e logo tem a obrigação de ouvi-lo e atender as suas reclamações, que é trabalhar para povo para angariar capital político do mesmo.

“Infelizmente, estamos num país onde os políticos aproveitam-se da passividade da população para fazer o que lhes apetece. Como é possível fechar uma estrada que dá acesso a vários bairros e mercados, por muito tempo, sem mexer nenhuma palha e o povo que é vítima de toda essa situação fica passivo, talvez por medo de repressão policial, mas até quando?”, questionou e lembrou o caso Abou Sonko, recentemente ocorrido no Senegal, em que o povo senegalês saiu em massa às ruas e superou qualquer tipo de repressão policial e militar e no Mali também.

“Não estou a incentivar ninguém à violência, mas os direitos dos cidadãos têm que ser respeitados. Se os políticos não respeitam os direitos, estão indiretamente a convidar o povo a reagir um dia. A luta de libertação nacional começou exatamente nesses moldes”, lembrou.

Apesar de admitir que as relações entre as escolas privadas e o Ministério da Educação são excelentes, Raul da Silva criticou a política usada pelo governo na uniformização dos uniformes escolares a nível do território nacional.

“A decisão de uso de uniformes veio como uma imposição a todas as escolas privadas que deveriam aceitar a medida do governo, mas foi bom porque posteriormente o governo reconsiderou a sua posição. Mas não se sabe qual será o próximo passo”, indicou e salientou que não aceitaram tal decisão porque não houve nenhuma proposta assumida pelas escolas privadas e por se tratar também de uma medida unilateral do governo, que acusou de não ter sentado à mesa com os responsáveis das escolas privadas antes de avançar com a decisão.

Questionado sobre o que terá acontecido entre as escolas privadas e o Alto Comissariado para a Covid-19 (AC) que levou ao encerramento de algumas escolas (privadas e públicas) do Setor Autónomo de Bissau e a região de Biombo por um período de um mês, inclusive a Cooperativa Escolar São José, o Diretor Executivo da Cooperativa Escolar São José esclareceu que, em relação à sua escola, tudo nasceu de um pedido informal, oral, feito pelo Alto Comissariado à sua instituição para realizar despistagem, “que era normal porque estávamos a enfrentar uma doença que estava a infectar pessoas  de todas as faixas etárias ” .

“A escola, no âmbito das relações institucionais deu total abertura para que os testes fossem realizados, mas surpreendentemente vimos nas redes sociais um despacho a elencar os nomes das escolas com casos de Covid-19, entre as quais São José. A grande interrogação que se colocou na altura foi por que razão é que o Alto Comissariado decidiu mencionar os nomes das escolas que tinham alunos e professores infetados, se bem que desde o início do processo só eram avançados os números de pessoas infetadas, mas não os nomes de bairros, de instituições…. Aliás, nem sabíamos quem eram essas pessoas e de que instituições eram”, questionou.  Contudo, disse não ter informação de quais eram as intenções do Ministério da Educação e do Alto Comissariado.

Raul Daniel da Silva revelou que depois de terem sido suspensas as aulas na sua escola, a direção executiva recolheu todos os testes à Covid-19 realizados aos alunos e aos professores nenhum acusou positivo.

“Até porque não estava em causa a suspensão das escolas, desde que se tratasse de uma questão sanitária que colocasse em perigo vidas humanas, porque em 2020 tivemos seis meses de suspensão das aulas”, afirmou. Contudo, salientou que o anúncio de um resultado sem fatos nem nenhuma comunicação, por mais que o assunto fosse sigiloso, não se poderia esconder a verdade de todos os membros de uma família com um deles infetado.

“O número de professores e de alunos mantem-se intacto desde o início do ano letivo, mas ficou a ideia para todo o mundo que temos alunos e professores infetados, o que nenhum diagnóstico conseguiu provar. Todos estão aqui, não temos nenhum caso em que tenhamos sido confrontados em como que perdemos um aluno ou professor por causa da Covid-19. Isto leva-nos a questionar o que estará por detrás de tudo isso. O resto, se é verdade ou não ou se a suspensão das aulas tinha a ver com alunos e professores infetados, era normal!”, desafiou.

Para Raul Daniel da Silva, a emigração não pode resolver as crises que o país enfrenta, nem mudar, nem desenvolver a Guiné-Bissau, mas sim, a mudança de consciência.

PROFESSOR SUMAILA EXORTA CRIAÇÃO DE PACTO SOBRE EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO CURRICULAR

Ao analisar a situação do ensino no país, o mestre em História Contemporânea, Sumaila Djaló, disse que o setor educativo guineense encontra-se “completamente entregue à desorganização”, às greves e à disfuncionalidade.

O também professor do ensino secundário afirma que não existem condições técnicas para validar o presente ano letivo nas escolas públicas na Guiné-Bissau, lembrando que 2020/2021 ficará na história como o terceiro ano letivo nulo na Guiné-Bissau e segundo consecutivo: a primeira vez foi em 2002/2003, e as duas mais recentes são os anos letivos 2019/2020 e 2020/2021, desafiando o governo a assumir o “desastroso” fardo da impossibilidade material e pedagógica de salvar o presente ano letivo e liderar um processo de diálogo nacional pela “despartidarização da questão educativa”.

“Junho é o mês de exames finais e do encerramento do ano escolar. Até porque o céu já dá sinais constantes de chuva e a maioria das famílias guineenses começa a preparar arados, enxadas e outros instrumentos que lhes asseguram a sobrevivência nas bolanhas e mpampans. Tanto a agricultura como a educação praticadas na Guiné-Bissau são rudimentares, longe de servirem às necessidades da população”, disse Sumaila Djaló.

O Mestre em História Contemporânea, com a defesa em Ideologias Educativas, aponta, como saídas para evitar mais paralisações de anos letivos, a convocação de entidades ligadas ao sector educativo, nomeadamente, o Ministério da Educação e centros de pesquisa do país, partidos políticos em atividade, sindicatos dos professores, organizações estudantis, representantes dos pais e encarregados da educação, líderes tradicionais e religiosos, ONG´s que atuam no setor educativo e organismos internacionais que apoiam o sector, para um debate sobre o estado da educação no país, tirar ilações da sua profunda instabilidade e ser estabelecido um pacto nacional sobre a matéria.

Sumaila Djaló detalha que para além de servir de um mecanismo para compromissos social e político com a questão educativa, o pacto em proposta deve estabelecer uma análise sobre o estado atual da organização e o desenvolvimento curricular, os principais entraves para a existência de ensino de qualidade e propor metas que permitam o envolvimento de todos os atores na busca de soluções duradouras para os graves problemas no sistema educativo, “independentemente de quem governa e de quem está na oposição, isto é, salvar a educação de guerras partidárias e controlo do erário público”. Contudo, o docente reconhece que não será uma tarefa fácil, por a educação ser, sobretudo, uma questão política, o que as disputas partidárias também são. 

Sumaila Djaló alerta, por isso,  que a Guiné-Bissau está perante “um grave problema” para o futuro do Estado guineense e das estruturas sociais perante uma necessidade de salvar o país do “obscurantismo em que o seu povo cada vez mais se afoga”. 

Perante estes fatos, defendeu que “é preciso assumir compromissos mais sérios e, pelo menos desta vez e nesta questão, repor os olhos na mesma luz”.

Por: Filomeno Sambú/Tiago Seide

1 comentário

  1. No meu ponto de vista ano lectivo de ser anulado,porque na aproveitamento de conteúdo programdo nem 25% foram atingido,divido onda das greves verifidas no país.

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