Opinião: UMARO SISSOCO DESAFIA-NOS A AGIR EM FUNÇÃO DA NOSSA CONSCIÊNCIA CÍVICA E HISTÓRICA

“O Presidente do Brasil queria vir de visita já em Setembro, por causa das comemorações de 24 de Setembro. Disse-lhe que não vamos manifestar 24 de Setembro neste ano. A data será comemorada no dia 16 de Novembro, dia das forças armadas. Porque para além de 24 de Setembro coincidir com a época chuvosa, será coincidente à AG da ONU, que neste ano será presencial, mas também para não baixar o nível de comemoração que houve no ano passado e poupar recursos para a comemoração dos 50 anos da nossa independência”.

Estas são as afirmações do Umaro Sissoco Embaló em resposta à pergunta de um jornalista que queria saber da eventual visita do Jair Bolsonaro à Guiné-Bissau e que (res)suscitaram o debate sobre o tratamento que, enquanto Presidente da República da Guiné-Bissau, tem dado a datas e marcos com significado histórico no calendário do nosso país.

Para muitos que agrumetam a favor das afirmações acima citadas do PR, o adiamento da data de comemoração da independência deve-se à vigência do Estado de Calamidade decorrente do combate à Covid-19. Havendo ainda quem não veja qualquer tipo de problema em comemorar o dia da independência na data em que é celebrada o dia das forças armadas, 16 de Novembro. Para a primeira justificação, não vamos perder tempo, porque usa um argumento totalmente fora do que afirma o Único Chefe. Mas para quem considera a decisão isolada de um PR adiar a comemoração oficial do dia da independência como normal, uma citação a Cheick Anta Diop é-nos indispensável: “Um povo que não conhece a sua história é um povo perdido”.

Uma Sissoco Embaló tem os seus motivos para desafiar os limites da consciência cívica dos guineenses, mas antes de os afirmarmos, olhemos para o que significa 24 de Setembro no calendário guineense.

Amílcar Cabral e os Combates da Liberdade da Pátria não esperaram pela ONU para iniciar a luta armada pela independência, nem condicionaram a proclamação da independência à falta de recursos financeiros para edificar um palácio pomposo nas matas de Boé, ou se quer lembraram que podia chover naquele dia. A proclamação da independência era o culminar de uma década de luta, com seca e chuva, anos de “sol e suor” para, “na pátria imortal”, finalmente içar “a bandeira da luta”. Uma luta para reconquistarmos o direito à “nossa terra” e para vivermos nela “na paz e na dignidade”.

Quando celebramos esse feito, mais do que um acto simbólico, celebramos a dignidade de ser guineense, celebramos o nascimento da Guiné-Bissau. Um nascimento que não dependeu nem do reconhecimento da ONU, nem do governo português, mas porque, já em 1972, libertámos cerca de dois terços da nossa terra e em 1973 só nos faltava tomar Bissau das armas dos invasores.

Mas como dissemos antes, Umaro Sissoco Embaló tem os seus motivos para trocar nomes de avenidas baptizadas em reconhecimento daqueles que deram a sua vida para que ele hoje seja infelizmente o Presidente do mesmo país. Ele sabe porque prefere dizer que a independência da Guiné-Bissau foi proclamada em 1974, assim como sabe por que acha que em Cabo Verde deve-se dizer que Cabral é cabo-verdiano e na Guiné-Bissau, guineense. Umaro Sissoco Embaló não sabe distinguir o PAIGC seu adversário político e PAIGC com um lugar inquestionável na História do nascimento do nosso país. Para ele, distorcer factos históricos e menosprezar a luta e Combatentes da para a nossa liberdade é uma forma de combater o PAIGC seu adversário político, o que por si é uma tremenda infelicidade, para não dizer mais.

O objectivo do Umaro Sissoco Embaló é sobretudo a consolidação do medo nos guineenses através de militarização dos espaços político e público e, desta forma, amordaçar qualquer tentativa de revolta popular perante a incapacidade do regime por ele encabeçado em responder às reais necessidades da população na educação, na saúde e no funcionamento do aparelho do Estado no seu todo. Por isso é que assina os decretos e despachos com referência às suas vestes de “Comandante em Chefe das Forças Armadas” e é exactamente por que decide celebrar o dia da independência no dia que é para celebração exclusiva das forças armadas. E não é de ficar surpreendido que todo este desfile tenha iniciado com o aparato de chefias militares actuais e os que não estão em activo que se fizeram presentes no acto de posse que ele mesmo baptizou de “simbólico”, saiba-se lá porquê.

Para a nossa infelicidade, porém, as suas tácticas não só conseguem apoios significativos de individualidades que se identificam como intelectuais ou activistas no nosso seio, assim como nos têm mantido divididos mesmo entre aqueles que lhe são opositores, incapazes de encetar uma agenda conjunta para combater os seus caprichos de totalitarismo em ensaio para além das redes sociais, órgãos de comunicação social e de modo individual.

Resistir neste caso em específico quer dizer mobilizarmo-nos de forma massiva, nas diásporas e na Guiné-Bissau, por todos os meios possíveis, e saudar os 48 anos da independência que conquistamos com sangue e suor de quem lutou pera sermos guineenses da Guiné-Bissau e, consequentemente, para termos um PR.

Por: Sumaila Jaló – professor e activista

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