Cronica Janeiro 2014

O primeiro mês do ano, Janeiro é o mês do começo (mas também do recomeço) do ano, da vida, das coisas que acontecem (ou sucedem) na vida. É o mês do Deus Jano que, segundo a mitologia romana, tinha duas faces, uma olhando para trás, o passado e outra olhando para frente, o futuro. Trata-se, portanto, do mês do presente autêntico, da perenidade temporal.

Se Janeiro é o mês do eterno começo, pode-se dizer, com certa segurança, que é ainda mais o mês da eterna busca. A incessante (e fatigante) busca do homem – e sejamos mais igualitários, da mulher – pelo devir-outro que o carateriza, de per si e, simultaneamente, carateriza o seu existir. Por isso mesmo que por mais que se busque e se procure mais insatisfatória é (e talvez mesmo vã) a tentativa de achar o que se procura.

Devo, sinceramente, partilhar contigo, caro leitor d’O Democrata, certa crença de que quando chega o Ano Novo pelas frestas das janelas de Janeiro sempre acreditamos que tudo vá mudar, que as esperanças serão renovadas, que a vida pode, finalmente, começar a sorrir para nós, que vamos fazer o noivado prometido ou celebrar a festa de casamento há muito desejada, constituir a família. São esperanças nas asas vulcânicas de Janeiro.

Estou em crer que tudo seja verdade, mas também que tudo pode ser a grande mentira, pois sonhos aquém a realidade quotidiana de cada um não constituem, por si, a materialização de quaisquer objetivos propostos. Mas, tal como está na crença mitológica, Janeiro é o mês do ontem e do amanhã, simplesmente, porque sempre presente. Tudo o que nunca existiu não existe, muito menos existirá. É preciso que sejamos objetivamente realistas.

Vejamos, por exemplo, nossas finanças pessoais. Por mais que estejamos preparados, Janeiro sempre nos surpreende com o défice orçamental doméstico e, até mesmo, empresarial.

Não esqueçamos ainda que foi Janeiro em que tudo começou. Foi em Janeiro que nossa pátria-mãe começou a ser engendrada sob o signo da violência. Terá sido a causa das sucessivas crises cíclicas violentas por que passamos? É bom que não se esqueça que foi nesse mês que perdemos o nosso líder maior, que a modelo de mulher guineense guerreira e leader ship competente se despediu no outono de Janeiro, que o primeiro napalm se fez sentir nos momentos pioneiros da nação (em construção) guineense.

Os alicerces que você não pós no chão não pode nunca pretender erguer a casa do nada. Crie as bases que todo o resto acontecerá. Naturalmente. Foi assim que o PAI adiou para Maio moço (de Torga?) sua nova fisionomia e princípios, para que possa, finalmente, cultuar a democracia.

Assim, Janeiro de 2013 veio sereno. Mas nada nos (me) garante que vá continuar a ser sereno. Imolações da nossa vida bissauense vão andando a todo o vapor. Por isso, este mês é a lua nova do solstício do inverno não infernal do nosso quotidiano social sui generis. É o mês da concórdia discordante. E por que não dissonante. É a nota desarmónica das nossas finanças pessoais. É o campeonato da falença em que, quase todos nós, somos jogadores que, de vitoriosos, parece que de nada nos servimos.

Que as aspas que estou a abrir, por intermédio desta crónica, sejam abertas e, simultaneamente, fechadas para o bem da nação. Especialmente da guineidade que está em franco processo de construção, apesar dos sobressaltos rotineiros.

Como disse, implicitamente, até mesmo acontecem surpresas, tais como as que quando se marcam eventos, congressos, simpósios ou colóquios, nada de concreto acontece. Tudo parece efemeridade. Tudo tão sutil e volátil ante nossos olhos. Tal como disse o poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, no poema Receita de Ano Novo, sempre alimentamos a esperança (talvez ilusoriamente) que tudo vá ser diferente. Tente, contudo, fazer o seguinte, seguindo os sábios conselhos do poeta:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não passe telegramas nem mande mensagens, muito menos ainda, acredite que, por decreto de esperança, ou pela benevolência divina, tudo vá mudar-se. Mude-se você! Que o ano novo mudará para o teu sumo bem. Senão você estará, durante todo ano, a espera das mudanças que você não tinha proposto nem trabalhado para que acontecessem.

Para isso, ouça o que o mestre Fernando Pessoa diz no poema Eros e Psiqué sobre a princesa que passava o tempo a dormir.

À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Acorda para a vida! Que Janeiro, o mês do eterno presente está já a consumir-se no cume áureo da vida. E para que você não fique a dormir acordado, faça como o Deus Jano, olhe para trás para corrigir as besteiras consumadas, e para frente, para traçar metas que visem a novas conquistas pessoais e profissionais, a metas pensadas e traçadas, consciente e objetivamente, para a consecução de novos conceitos de vida, novos resultados duradouros para o seu futuro.

Faça, para isso, como na dança manjaca, dê um passo gigante a frente e dois passos (repensados) para trás, coordene-os, em seguida, e avança para os horizontes profícuos do progresso. Que o segredo do sucesso é você! Viva a Vida! Pois, tal como aconteceu ao cronista, o grande amor de sua vida afastar-se-á dele, por razões alheias a vontade dos dois. Que Jano serene a alma dos namorados em separação indesejável! Que tudo flua positivamente, juntando o antes, o agora e o depois.

 

Jorge Otinta é ensaísta e poeta. 

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