Camarada Amílcar

No chão vermelho

Do teu sangue, camarada,

Caiem como gotas de orvalho

As lágrimas sinceras de dedicação.

As flores da nossa luta

Que tu com carinho plantaste,

Estão a desabrochar

Em gargalhadas infantis.

 

E descansa, camarada Amícar,

Descansa que não secarão.

Serão sempre regadas

Com o nosso suor e sangue,

Serão Sempre alimentadas

Pela força a nossa vontade.

E serão camarada Amílcar,

Serão livres… livres…

Livres como as gargalhadas que soltam,

Livres como o sol do nosso hino,

Livres como o vento que desfralda

A nossa bandeira,

Livres, como a liberdade com que sonhaste.

É assim camarada,

É assim…

Uns chegam ao fim,

Mas outros ficam pelo caminho

Não por desfalecimento,

Mas pelo seu valor e coragem.

E dentre todos,

Os mais felizes

Serã os que conseguirem plantar

As flores que deixaste,

No canteiro livre

Da Guiné e Cabo Verde.

 

AGNELO AUGUSTO REGALLA, in Mantenhas para quem luta! A nova poesia da Guiné-Bissau – 1993.

 

 

Em género de homenagem à memória do camarada Amílcar Cabral

 

Na noite colonial

Sou apenas a máquina

Que tritura o teu nome

Num ritmo dolente.

Sou a sombra apagada

Que busca uma luz para se refugiar.

Sou o pintor fanático

Que será sem tintas e sente a inspiração nascer

 

Sou alcoólico louco

Que não tem vinho mas tem necessidade de beber

 

E olha, lembras-te…

Sou como o velhinho

Que dormita cansado de ainda viver.

Sou o remorso oco

Dum edifício louco

Sou o doido incompreendido

Que foge e procura a solidão para renascer.

Sou o esfomeado

Que grita mais e mais até ficar rouco

E exausto chorar:

As lágrimas caem

O sorriso apaga-se

O eco vai-se

Perde-se contigo

Na imensidão opaca

Que te tragou.

E a máquina

Apática

Insensível e feia

Continua sozinha

Num ritmo dolente

A triturar teu nome

Pela noite adiante.

Mas nós, irmão

Carne duma mesma carne africana,

Sangue dum mesmo sangue,

Somos

O Eco triste da voz materna

Que chora calada

Até que cansada

Se vai prostar orando na angústia do amanhã,

As mágoas tristes do nosso discurso, sem nada dizer.

 

Eu sinto, sinto como tu sentiste a rebeldia faminta do meu corpo

Convulsionando-se contra as amarras de aço,

Que me tiram os movimentos,

E me recalcam o orgulho são

Desta devina vontade de criar.

E ponho-me de joelhos, beijo o aço, beijo a poesia

E adoro aminha loucura.

E juro-te, farei como tu fizeste.

Darei o meu sangue palpitante por esta terra bem amada,

E mesmo que o faça com um fio de lágrimas

A beijar-me o rosto menino,

Quero que saibas

No frio da tua tumba,

Que o faço com orgulho e esperança

De que os nossos pais repousem em paz

E os nossos filhos nasçam libertos

Por uma Guiné e Cabo Verde voltados para o progresso.

 

NAGIB SAID, in Mantenhas para quem luta! A nova poesia da Guiné-Bissau – 1993.

 

 

 

 

Mantenhas

 

Mantenhas de luta tenho!…

Mantenhas, para quem luta!…

E não só…

Mantenhas…são mantenhas

Tenhas ou não participado…

Mantenhas trago para ti

Mantenhas de quem o povo serviu

Mantenhas de quem, sendo simples

Grandemente o povo serviu

Mantenhas daquele que sucumbindo

Com o próprio sangue o inimigo acertou

(A luta é assi, exige Sacrifícios)

Por isso mantenhas…

Mantenhas para os que merecerem

O merecimento de Pindjiguiti

O merecimento de Como

O mereceimento de Cassaká

O merecimento de Guiledje

O merecimento de Cabral

O merecimento da Luta

O merecimento das mantenhas

A mantenha Combatente!!!

A mantenha para àqueles

Que engajados continuam

Mantenhas para que não mais haja

Botas estrangeiras espezinhando o nosso sentimento

A nosa cultura…

A nossa razã…

Por isso mantenhas…Mantenho

Decididamente, mantenhas!!!

Mantenha de firmeza

Mantenhas militantes

Mantenhas na certeza

De que nada será, como ontem

Jamais as nossas crianças

Matarão a sede

Com as lágrimas da fome.

Por isso mantenhas, mantenho nas mantenhas.

 

ANTÓNIO SOARES LOPES JR (Tony Tcheca), in Mantenhas para quem luta! A nova poesia da Guiné-Bissau – 1993.

 

 

Cal codade de amanhã Maria

 

Nô odjau bu sibi

Suma lua cheia na céu

Dinti di bu garaça na lumiâ…

 

Nô odjau bu na riâ,

Suma lua nobo que tchigâ

Bu larma i sereno na noti sucuro!

Bu sibi cu bu rebess

Bu gastá bu curpo, bu pirdi bu tempo

Bu sitbi cu bu tadjo

Bu gastá quil que sobrâ bu cabantá bu folgo

 

Flur bonito que bu lantá

Flur bonitoque na murtchâ

Amanhã, bu na mati amanhã.

Má, cal coldade de amanhã, Maria?

 

Quebur Nobo

 

Malam labradur

Bai nha armon, molâ bu n’oroto

Riâ blanha, faci bu quebur

Na calur, Malam, na calur

Má sin bumba, sim dur.

Cu utro balur, Malam, cu utro balur,

Pa sapo cumé si labur,

Cu calur, Malam, sin dur nin tchur.

 

JOSÉ CARLOS SWARTZ, in Mantenhas para quem luta! A nova poesia da Guiné-Bissau – 1993.

 

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