Crônica: O PISO E O PESO

Conta-se que num reino muito distante, havia a tradição de certos animais, os mais fortes, é claro, pisarem sem dó nos animais mais fracos. Aparentemente.

Acontece que, com o passar do tempo, os animais que eram pisados, decidiram, de comum acordo, de que havia chegado a hora de se organizarem para arranjar estratégia de escaparem do tamanho descalabro e abuso.

Foi então que um deles sugeriu que, ao invés de contarem apenas com a magnífica ideia que tiveram, deviam, em primeiro lugar, buscar apoio dentro do grupo que os pisoteava. Pois, acredita ele, que nem todos tinham tanto requinte de malvadez. Por isso havia chegado o momento de instaurarem contradição no seio dos mais fortes.

Assim, depois de uma acuidada reflexão, apoiaram a ideia.

Para uns, uma vez havida confusão entre os fortes, era preciso que cada um se safasse como podia. Para outros, era tempo de vingança, e dos piores. O mais franzino de entre eles, calado, desde o começo da reunião pediu a palavra, e disse com a serenidade de dar inveja até nos humanos:

– Para nos livrarmos do abuso, era bom que analisássemos o piso real do problema.

– Que história é essa de piso? Por acaso estamos é numa aula de Economia, com piso dos gastos do governo ou piso salarial para os trabalhadores do reino? Tenha dor?

– Interveio um terceiro personagem, esboçando timidamente o pensamento do Sr. Franzino, afirmando que era bom que ele concluísse a sua proposta.

Ao que todos concordaram. Este, retomando o augusto direito de usar da palavra, arrematou:

– Os mais fortes de entre nós devem garantir a defesa da fronteira do reino; os mais hábeis ficam com a segurança; e os dotados intelectualmente ocupam-se da administração daquilo que é de todos nós; e, finalmente, os covardes gerem a justiça. Estou em crer que, prossegue ele, se fizermos isto funcionar eficiente e eficazmente, o controlo do reino passa às nossas mãos.

Todos aplaudiram -no pé. A partir daquele dia o reino registou progressos significativos. Para variar.

Bissau, N Hala, 5 de agosto de 2022, às 03:32 min.

Por: Jorge Otinta (OTHAS)

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