Guerrilheiras anônimas: SOCORRISTAS DA LUTA ARMADA CONTINUAM A SALVAR VIDAS NO HOSPITAL SIMÃO MENDES

As veteranas de guerra, N’Tandé e Lifté, sobreviventes da luta armada de libertação nacional e que deram a sua juventude para a causa da libertação do país como socorristas, tratando e cuidando dos feridos em combates, continuam a servir como enfermeiras instrumentistas após mais de quarenta anos, no bloco operatório do hospital nacional Simão Mendes. 

Tia N’Tandé e Tia Lifté, como são carinhosamente chamadas pelos colegas de serviço, dado que as duas se encontram já na casa dos 60 e 70 anos de idade, são profissionais respeitadas pelas suas competências e, apesar da idade, continuam a prestar serviço naquele estabelecimento hospitalar e graças às suas experiências particularmente no campo da cirurgia, por vezes chegam a dar orientações aos médicos no momento da cirurgia. 

Depois da luta armada, as guerrilheiras beneficiaram de formação em enfermagem e escolheram a especialidade de instrumentistas que conhecem bem desde o período da luta armada, quando trabalharam com cubanos. Depois da luta, passaram por vários centros de saúde como enfermeiras, sendo colocadas posteriormente nos serviços do bloco operatório do hospital nacional Simão Mendes, entre 1978 e 1984, onde continuam a trabalhar até hoje.

N’TANDÉ: “SOFRÍAMOS DE DOENÇAS E MUITA FOME NA LUTA! O PARTIDO ENCORAJAVA- NOS COM MENSAGENS DE CABRAL”

A veterana de guerra N’Tandé Sambú, esposa do comandante Pansau Na Isna, entretanto morto em combate, aderiu a luta a partir de uma das bases do partido em Tombali, sul da Guiné-Bissau, com apenas 15 anos de idade. Explicou à nossa equipa de reportagem que foi mobilizada por gentes do partido que a encontraram na aldeia de Kudoc, região de Tombali, onde vivia com a sua tia a quem ajudava com as lidas da casa e do campo.

Explicou ainda que na altura, ela e demais meninas, naqueles primeiros tempos da luta, ocupavam-se da cozinha, transporte de armas e de munições e no período da noite, recebiam instruções de manuseamento de armas e manobras de combate.

“Às 04 da madrugada íamos à instrução militar, depois ocupávamo-nos da preparação da comida. Eu era a chefe no meu grupo, porque estávamos organizadas conforme os grupos de guerrilheiros e fazíamos tudo dentro de uma cabana”, contou.

Lembrou que a noite, reuniam-se à volta de uma fogueira, tendo frisado que na altura registavam-se grandes combates nas zonas dos aquartelamentos de Guileje, N´tchuê e Cabedu.

“Sofríamos muito de doenças e muita fome! O partido encorajava-nos cada vez mais com mensagens de Cabral sobre a importância da luta para sermos livres e independentes. A fome nas barracas obrigava-nos a recorrer a aldeias à procura de comida ou um pouco de arroz para cozinhar”, contou.

A veterana de guerra disse que ela e mais 19 meninas foram escolhidas em 1964 para uma formação no Gana, onde foram formadas como socorristas e ao mesmo tempo recebiam instrução militar durante nove meses. Acrescentou que receberam também formação na área de enfermagem (auxiliar) durante um ano na antiga União Soviética, juntamente com as combatentes Titina Sila e a Carmem Pereira.  

“Quando regressamos fui novamente colocada na zona sul, região de Quinara e mais tarde em Tombali, ou seja, eu me movimentei de um lado para outro. Prestámos assistência médica tratando os feridos das 08 e às 18 horas”, relatou.

N’TANDÉ: “MORTE DE PANSAU NA ISNA LEVOU-ME A PENSAR EM DESISTIR DA LUTA E CUIDAR DO NOSSO KABI”

Recordou que depois da morte do seu marido, Pansau na Isna, sentiu-se totalmente desanimada e que a levou a pensar em abandonar a luta e cuidar do seu filho, Kabi Na Isna, que na altura tinha menos de três anos de idade. 

“A morte de Pansau Na Isna foi a notícia mais triste que recebi na minha vida! Eu estava normal a fazer o meu trabalho e de repente vieram buscar-me no posto para me levar ao campo de concentração em Boké (Guiné-Conacri), onde se encontrava uma das bases do partido, sem me dizerem nada. Fui fazer as tranças. Estava normal com outras colegas, mas ninguém ousou contar-me. Afinal ele tinha falecido há dias em combate na zona norte e tinha sido sepultado em Morés. Fui informada da sua morte por Amílcar Cabral, na presença da Camarada Carmem Pereira”, lembrou com emoção e com lágrimas que lhe caíam pelo rosto abaixo.

Pansau Na Isna que, pela história, era um dos três comandantes destacados do PAIGC que combateram na ilha do Komo na “operação tridente”, faleceu em combate em 1970.

“Não é pela fama, mas ele era um homem e bravo combatente, todos os que lutaram junto dele reconheceram a sua bravura no combate, era um guerrilheiro corajoso”, referiu.

“Eu estava completamente desanimada após a morte do meu marido e porque tinha um único filho! Não queria mais voltar para a luta, porque recordava-me sempre dele. Mas o Comandante João Bernardo Vieira ordenou e disse que precisavam muito de mim lá e mandou pessoas buscar-me, sobretudo voltei a luta depois do ataque das tropas portuguesas às bases de Cabedu e Darsalam, que fez ferver o meu sangue de guerrilheira e voltar a lutar para a libertação do meu país” narrou, assegurando que foi aí que resolveu voltar a mata para se juntar aos guerreiros e que foi enviada para o posto de Madina de Boé, onde ficou até a independência.  

A veterana de guerra disse que após a luta continuou a trabalhar na região de Gabú e passados quatro anos, em 1978 foi transferida para o setor autónomo de Bissau e concretamente para o hospital nacional Simão Mendes, nos serviços do bloco operatório, como enfermeira instrumentista e onde está hoje a salvar vidas.  

“Infelizmente não herdei nada do meu marido que deu a sua vida para a libertação do país das mãos de tugas! Aliás, nem o nosso Kabi Na Isna chegou de receber nada como pensão ou algo do género em nome de quem foi o Comandante Pansau Na Isna” afirmou, para de seguida, esclarecer que vive da sua própria pensão de tenente, bem como daquilo que ganha na prestação do serviço no hospital nacional Simão Mendes e dos pequenos negócios que faz em casa.

Não obstante da situação em que se encontra, confessou que não está arrependida por participar na luta armada e dar toda a sua juventude para a causa da independência.

“Valeu a pena passar fome, encarar os feridos, o medo que sentíamos de sermos atingidos por balas das forças portuguesas ou bombas dos seus aviões. Mas nunca me senti arrependida por tudo o que fiz e tudo que passei na luta. É verdade que este não é o país que sonhamos construir e que Cabral nos dizia que podíamos construir depois da luta, mas a grande verdade é que fizemos a nossa parte que é a conquista da independência”, referiu. 

“Como posso dizer que me arrependo se o que conquistamos é mil vezes maior? Libertámos o nosso povo e vários países africanos inspiraram-se na nossa luta. Quem se diz arrependido por ter lutado contra os tugas é porque nunca soube a razão da luta e não aprendeu nada com as mensagens do nosso líder e do partido”, enfatizou.

LIFTÉ N’CORÉ – SOCORRISTA QUE SALVAVA VIDAS E TRANSPORTAVA MUNIÇÕES PARA COMBATENTES

A guerrilheira e atualmente enfermeira instrumentista, Lifté N’Coré, aderiu à luta armada na zona norte, concretamente na barraca de Sara, setor de Mansoa, região de Oio, através do seu tio que a mobilizou para entrar na luta e que na altura também tinha cerca de 15 anos de idade. A enfermeira instrumentista tem hoje 63 anos de idade e foi colocada no serviço do bloco operatório do hospital Simão Mendes em 1984, onde trabalha até hoje.

“O partido pediu-nos para levar arroz à barraca e quando ali chegamos, eu fui mobilizada pelo meu tio que que lá se encontrava. Pediu-me que para ficar e combater os tugas” explicou, afirmando que foi assim que aderiu à luta e que de vez em quando eram destacados para transportar as armas e munições de uma localidade para outra nos primeiros tempos.

Confessou que nunca pegou em armas para enfrentar as forças portuguesas e que foi instruída para trabalhar como socorrista, bem como se ocupava do transporte de armas e munições.

Explicou que não beneficiou de nenhuma formação no exterior no período da luta, mas recebeu uma capacitação de médicos cubanos e russos que estavam na luta e que tudo o que sabe foi graças aos ensinamentos dos profissionais cubanos.

“Nunca beneficiei de uma formação no estrangeiro no período da luta, mas aprendi muito com os cubanos. Tudo aquilo que aprendi naquela altura foi e continua a ser útil para mim nos meus trabalhos do dia-a-dia”, realçou, sublinhando que depois da luta foi selecionada para uma formação na área de enfermagem aqui no país, em 1978.

“Recebemos a formação na área de enfermagem ministrada por cubanos. Eu gostava da área de cirurgia e assistia sempre às cirurgias feita por cubanos. Por isso decidi enveredar mais para instrumentista para apoiar o cirurgião” assegurou, avançando que se tivesse sido contemplada com uma formação no período da luta, pediria que a deixassem formar-se em medicina para poder salvar mais vidas.

Lembrou que, durante a luta, teve contacto apenas uma vez com o líder da guerra, Amílcar Cabral, quando este visitou o internato de Sara para ver as meninas que ali estavam. Frisou que as únicas palavras que Cabral dizia eram as seguintes: “Esforcem-se mais…”

A veterana de guerra disse que, depois da luta foi transferida para Morés e mais tarde para o centro de N’Tchalé, que deixou mais tarde para voltar ao centro de Morés para frequentar o estágio com médicos suecos em matéria de enfermagem e nutrição.   

Informou que foi igualmente selecionada para uma formação de reciclagem em Nhala, em 1979 e depois enviada para Bolama, onde frequentou outra formação com especialistas nacionais que durou alguns anos.

GUERRILHEIRA CONFESSA QUE O PAÍS DEPARA-SE COM FALTA DE MÉDICOS CIRURGIÕES ESPECIALISTAS

Recordou que foi colocada no hospital nacional Simão Mendes em 1984 como enfermeira instrumentista. Acrescentou que naquele período trabalhavam com especialistas estrangeiros, como cubanos, russos e chineses, com os quais aprendeu muitas coisas que lhe permitiram ter uma larga experiência no seu trabalho.

“Fazíamos, com médicos estrangeiros, grandes casos de cirurgias e havia resultados certos, mas também na altura havia condições técnicas e motivação para prestar o serviço. Infelizmente hoje perdemos essa capacidade técnica de fazer grandes casos da cirurgia, mesmo tendo, hoje, médicos especialistas, mas a grande verdade é que não podemos resolver casos como fazíamos na década 80 com os médicos estrangeiros, porque faltam os materiais do trabalho e a motivação”, disse.

A guerrilheira confessou ainda que atualmente, o país depara com falta de especialistas no bloco operatório, sobretudo na área da cirurgia, que segundo as suas contas, nem sequer chegam a cinco cirurgiões especialistas nacionais no hospital Simão Mendes.

Aproveitou a entrevista para aconselhar o governo a investir mais na formação de jovens médicos e apoiá-los com bolsas de especialização, sobretudo nas áreas em que o país se depara com grandes dificuldades.

“Sinto uma diferença enorme em comparação aos meus primeiros anos no hospital Simão Mendes, onde trabalhávamos com os médicos brancos. Hoje falta tudo naquele hospital desde materiais até técnicos e especialista. Muitas vezes instruo médicos em plena cirurgia, dizendo-lhes que devem fazer assim e se insistem em determinados procedimentos acabam por ter sérios problemas. Os que humildemente seguem as minhas recomendações saem bem e fazem melhor o trabalho e aqueles que entendem que sabem tudo…”, referiu. 

Lifté N’Coré disse que não recebe pensão como combatente da luta de libertação nacional não obstante ter feito e depositado toda a documentação exigida. Avançou que apenas vive do pouco que ganha como enfermeira instrumentista pelo serviço prestado no hospital nacional Simão Mendes, contudo confessou que não se arrepende de ter participado na luta armada e que faria tudo novamente, para o bem do país.

Por: Epifânia Mendonça/Assana Sambú

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