Presidente José Maria Neves: “ÁFRICA NÃO PODE SER UM CONTINENTE MARGINAL E MUITO MENOS UM MURO DE LAMENTAÇÕES”

[ENTREVISTA_outubro 2022] O Presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves, disse que as lideranças africanas têm consciência que mundo está em transformação e que está a emergir uma nova ordem mundial, por isso a África não pode continuar a ser um “continente marginal”, nem um “muro de lamentações”.

“A África tem de fazer o seu trabalho de casa e tem de procurar respostas na linha do que dizia o Amílcar Cabral: “acelerar o passo para encontrar as melhores respostas”, para resolver os problemas que ainda existem não só no domínio da segurança física, mas também temos questões de segurança alimentar, sanitária e outras questões muito pertinentes em relação às quais teremos que dar respostas”, assegurou o chefe de Estado cabo-verdiano, durante a entrevista conjunta concedida ao Jornal O Democrata e agência portuguesa (Lusa) para falar da sua visita de três dias efetuada à Guiné-Bissau e do estado da cooperação entre os dois países, bem como da situação da segurança e da instabilidade política que grassa a sub-região.

Sobre o acordo do domínio dos transportes marítimos e que permite o engajamento de Cabo Verde para enviar um navio para fazer a ligação entre as ilhas de bijagós e Bissau, José Maria Neves prometeu trabalhar para incentivar o diálogo entre os empresários dos dois países e procurar formas de construir parcerias. Defendeuu que o governo deve apoiar as iniciativas empresariais que existem para haver mais trocas entre os dois países e poder viabilizar os transportes aéreos e marítimos entre os dois países.   

Relativamente às questões da violação dos direitos humanos e da ameaça à liberdade de expressão denunciada pelos políticos e organizações da sociedade civil, o chefe de Estado de Cabo Verde disse que não pode intrometer-se nos assuntos internos da Guiné-Bissau.

“Repito que caberá aos guineenses resolver os seus problemas e os seus desafios… o que eu posso dizer é que sempre conversando, dialogando, podemos encontrar as luzes para que as nossas relações entre Cabo Verde e Guiné-Bissau sejam boas. As relações entre os Estados, independentemente de quem esteja conjunturalmente no poder, são importantes para reforçarmos as relações entre os Estados”, notou.

O Democrata (OD): O Presidente terminou uma visita de três dias a Bissau. Qual foi o ponto mais alto da reunião entre as duas delegações para discutir o aprofundamento das relações bilaterais? Pode explicar-nos, de forma sintética, os principais pontos debatidos no encontro e quais são setores prioritários para dinamização da cooperação entre os dois países?

José Maria Neves (JMV): Acho que esta visita foi muito positiva na linha da nossa ideia de reforço das relações de amizade e de cooperação entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau. São dois países lusófonos na região, que participam em espaços de cooperação muito importantes desde logo a CEDEAO, mas também a CPLP e a União Africana e sempre é importante a troca de opiniões para concertarmos posições na arena internacional.

Mas também para falarmos sobre as nossas relações bilaterais e criar as bases para que haja mais mobilidade de pessoas e bens entre os nossos países, haver mais trocas comerciais e oportunidades de negócios, mais, poderemos contribuir para o crescimento económico dos nossos países, bem como reforçar a cooperação técnica e cultural, designadamente nos domínios da educação, da ciência e da inovação. Temos enormes desafios enquanto dois pequenos Estados insulares em desenvolvimento e que estão confrontados com os desafios do crescimento económico que tiveram enormes problemas com a Covid-19 e agora todos os reflexos da guerra na Ucrânia, no caso de Cabo Verde com anos sucessivos de seca.

Estamos a trabalhar para fazermos face a essa enorme devastação social, económica e sanitária provocada pela pandemia, que teve como consequências o aumento generalizado de preços, agravado com a guerra no leste europeu, mas também fazer face aos conflitos aqui na região. Temos três países onde houve golpes de estado, existe alguma instabilidade político institucional nesta região e toda a instabilidade no corredor do Sahel. Globalmente falamos sobre todas essas questões e acho que há caminhos, condições para reforçar as relações entre os nossos dois países, para melhorar a nossa concertação política e diplomática e sermos positivos na busca de soluções para a região.

OD: Os setores de transportes marítimo, turismo e educação parecem ser mais prioritários ou de interesse de Bissau. Que mecanismo pode usar para impulsionar o acordo ou avanço deste projeto, particularmente a nível de transportes marítimo…

JMN: Temos que pôr os empresários a dialogarem entre si para encontrarem formas de construir parcerias. É difícil manter um sistema de transporte, se não for viável e não houver trocas de experiências. O governo deve apoiar as iniciativas empresariais que existem para haver mais trocas entre os dois países e assim  podermos viabilizar os transportes aéreo e marítimo entre os dois países.

OD: A Guiné-Bissau é muito criticada a nível interno e externo face à situação dos direitos humanos que deteriora a cada dia, bem como atentado às liberdades de expressões e da imprensa. Sente-se à vontade num país criticado por abusos de poder e atentado às liberdades de imprensa e dos direitos humanos…

JMN: Nós não podemos analisar as questões de uma forma muito unidimensional. As conversas, visitas são sempre muito úteis para trocarmos impressões e conhecermos melhor a situação e para positivamente influenciarmos as coisas. Eu não me intrometo nos assuntos internos da Guiné-Bissau. Repito que caberá aos guineenses resolver os seus problemas e os seus desafios…

O que posso dizer é que sempre conversando, dialogando, podemos encontrar as luzes para que as nossas relações sejam boas. As relações entre Estados, independentemente de quem esteja conjunturalmente no poder, são importantes. Sermos positivos, otimistas, não nos imiscuimos nos assuntos internos de cada um e deixamos que a própria dinâmica política na Guiné-Bissau avalie a situação e encontre as melhores soluções.

OD: Que apreciação faz do estado da democracia na África lusófona, bem como a situação dos direitos humanos e da liberdade de expressão…

JMN: Risos… Bom, acho que há diferentes indicadores internacionais e não me cabe a mim comentar a situação. Caberá a cada país avaliar os indicadores que existem, quer interno, quer externamente e tomar as melhores posições. Portanto, não gostaria nem de avaliar, nem de comentar as questões internas dos diferentes países da África Lusófona ou da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

OD: O espaço da CEDEAO depara-se com muita instabilidade política, sobretudo a multiplicação dos golpes de estado e ameaças do terrorismo. Vai participar em Dacar (Senegal) no Fórum Internacional sobre a paz e segurança. Que expectativa tem sobre este fórum para a sub-região…

JMN: Relativamente a essas questões, eu acho que temos de trabalhar mais com muita eficácia para que não continuemos a ser um continente e uma região de instabilidades ou de roturas constitucionais. Caso contrário, não teremos nem paz nem desenvolvimento. É fundamental resolvermos os problemas de governabilidade e sermos muito mais eficazes nos resultados e buscar soluções para os problemas do continente e dos africanos.

Nós, as lideranças africanas, temos consciência que o mundo está em transformação, que está a emergir uma nova ordem mundial e a África não pode continuar a ser um continente marginal. Temos um continente riquíssimo com enormes riquezas naturais, grandes talentos, muitas capacidades humanas, sobretudo um continente com uma diáspora riquíssima. Se mobilizarmos todos os nossos recursos, recursos naturais e financeiros, mobilizarmos todas as capacidades humanas, melhorarmos todas as condições de governabilidade e formos mais eficazes na governança, conseguiremos fazer face a essas situações.

Eu defendo discussões. Devemos continuar a discutir. Há uma “Batukadera” cabo-verdiana que canta e diz: “que é da discussão que nascemos…” então, é bom discutir e colocar esses desafios sobre a mesa. Se tomarmos, enquanto líderes africanos, consciência dos desafios que se colocam à África, vamos ainda ao tempo de recuperar do tempo perdido e fazer o caminho que precisamos percorrer para termos uma África onde todas as africanas e africanos vivam com mais dignidade, sobretudo sintam a vontade de viver.

Temos um continente tão lindo, rico e extraordinariamente dotado, portanto temos de nos devolver às africanas e aos africanos.     

OD: A CEDEAO é considerada uma organização impotente hoje, face a situação da instabilidade política que enfrenta, golpes de estado e o terrorismo que se sente a cada dia. Algumas vozes defendem a reforma urgente a nível da organização e até existem vozes que falam da criação de uma força anti golpe para estancar a prática na sub-região e combater ao mesmo tempo o terrorismo. O Presidente partilha a mesma opinião…

JMN: É claro que face aos desafios e como muitas vezes os resultados não são imediatos, há sempre alguma inquietação e muitas vezes algum descontentamento. É claro que nós não temos organizações perfeitas e temos que continuar a trabalhar numa perspetiva positiva para encontrarmos as melhores soluções. O que eu penso é que, tendo em conta os desafios que se colocam a nível da segurança e da estabilidade no continente, é preciso mobilizar mais recursos institucionais e mais capacidades humanas para fazermos face a esses desafios não só na nossa região, como a nível de todo o continente.

Então, eu acho que devemos fazer as reformas no sentido de estabelecer uma efetiva governança multinível a nível do continente africano com uma forte participação da União Africana, das organizações sub-regionais e dos Estados. Com uma divisão de trabalho muito clara entre todas essas instâncias de governança no continente, na União Africana, nas organizações sub-regionais e nos Estados, de modo a encontrarmos as melhores soluções, os recursos e para resolvermos os problemas da África.

Tenho insistido nisso e repito que é o tempo de fazermos o nosso trabalho de Casa. A África, não pode continuar a ser um muro de lamentações…! A África tem de fazer o seu trabalho de casa e tem de procurar respostas na linha do que dizia o Amílcar Cabral, “acelerar o passo para encontrar as melhores respostas”, para resolver os problemas que ainda existem não só no domínio da segurança física, mas também temos questões de segurança alimentar, sanitária e outras muito pertinentes em relação às quais teremos que dar respostas.

OD: Entre a reforma da organização, a estabilização política da sub-região e a luta contra o terrorismo, qual deveria ser a prioridade da Guiné-Bissau que dirige a presidência rotativa da CEDEAO?

JMN: Não posso determinar o prioritário para a Guiné-Bissau, porque quem define as prioridades aqui na Guiné-Bissau são os órgãos de soberania. É claro que no quadro da CEDEAO, a conferência de chefes de Estado e do Governo deverá, na próxima cimeira que terá lugar em dezembro, em Abuja (Nigéria), discutir as principais questões. A evolução da situação, designadamente nos três países onde houve ruptura constitucional e a questão do corredor do Sahel, analisar no quadro multilateral quais os contributos das diferentes instituições internacionais.

Refiro-me, por exemplo, às Nações Unidas e à própria União Africana e ajuizar os próximos passos para os próximos tempos. É importante neste momento, tendo em conta a situação, abrir corredores de diálogo, dado que muitas vezes só as sanções não resolvem os problemas.

Por isso, é fundamental abrir corredores de diálogo numa perspetiva, sempre positiva, de encontrar as soluções para os problemas.       

Por: Assana Sambú

Foto: A.S

[ENTREVISTA_outubro 2022] O Presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves, disse que as lideranças africanas têm consciência que mundo está em transformação e que está a emergir uma nova ordem mundial, por isso a África não pode continuar a ser um “continente marginal”, nem um “muro de lamentações”.

“A África tem de fazer o seu trabalho de casa e tem de procurar respostas na linha do que dizia o Amílcar Cabral: “acelerar o passo para encontrar as melhores respostas”, para resolver os problemas que ainda existem não só no domínio da segurança física, mas também temos questões de segurança alimentar, sanitária e outras questões muito pertinentes em relação às quais teremos que dar respostas”, assegurou o chefe de Estado cabo-verdiano, durante a entrevista conjunta concedida ao Jornal O Democrata e agência portuguesa (Lusa) para falar da sua visita de três dias efetuada à Guiné-Bissau e do estado da cooperação entre os dois países, bem como da situação da segurança e da instabilidade política que grassa a sub-região.

Sobre o acordo do domínio dos transportes marítimos e que permite o engajamento de Cabo Verde para enviar um navio para fazer a ligação entre as ilhas de bijagós e Bissau, José Maria Neves prometeu trabalhar para incentivar o diálogo entre os empresários dos dois países e procurar formas de construir parcerias. Defendeuu que o governo deve apoiar as iniciativas empresariais que existem para haver mais trocas entre os dois países e poder viabilizar os transportes aéreos e marítimos entre os dois países.   

Relativamente às questões da violação dos direitos humanos e da ameaça à liberdade de expressão denunciada pelos políticos e organizações da sociedade civil, o chefe de Estado de Cabo Verde disse que não pode intrometer-se nos assuntos internos da Guiné-Bissau.

“Repito que caberá aos guineenses resolver os seus problemas e os seus desafios… o que eu posso dizer é que sempre conversando, dialogando, podemos encontrar as luzes para que as nossas relações entre Cabo Verde e Guiné-Bissau sejam boas. As relações entre os Estados, independentemente de quem esteja conjunturalmente no poder, são importantes para reforçarmos as relações entre os Estados”, notou.

O Democrata (OD): O Presidente terminou uma visita de três dias a Bissau. Qual foi o ponto mais alto da reunião entre as duas delegações para discutir o aprofundamento das relações bilaterais? Pode explicar-nos, de forma sintética, os principais pontos debatidos no encontro e quais são setores prioritários para dinamização da cooperação entre os dois países?

José Maria Neves (JMV): Acho que esta visita foi muito positiva na linha da nossa ideia de reforço das relações de amizade e de cooperação entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau. São dois países lusófonos na região, que participam em espaços de cooperação muito importantes desde logo a CEDEAO, mas também a CPLP e a União Africana e sempre é importante a troca de opiniões para concertarmos posições na arena internacional.

Mas também para falarmos sobre as nossas relações bilaterais e criar as bases para que haja mais mobilidade de pessoas e bens entre os nossos países, haver mais trocas comerciais e oportunidades de negócios, mais, poderemos contribuir para o crescimento económico dos nossos países, bem como reforçar a cooperação técnica e cultural, designadamente nos domínios da educação, da ciência e da inovação. Temos enormes desafios enquanto dois pequenos Estados insulares em desenvolvimento e que estão confrontados com os desafios do crescimento económico que tiveram enormes problemas com a Covid-19 e agora todos os reflexos da guerra na Ucrânia, no caso de Cabo Verde com anos sucessivos de seca.

Estamos a trabalhar para fazermos face a essa enorme devastação social, económica e sanitária provocada pela pandemia, que teve como consequências o aumento generalizado de preços, agravado com a guerra no leste europeu, mas também fazer face aos conflitos aqui na região. Temos três países onde houve golpes de estado, existe alguma instabilidade político institucional nesta região e toda a instabilidade no corredor do Sahel. Globalmente falamos sobre todas essas questões e acho que há caminhos, condições para reforçar as relações entre os nossos dois países, para melhorar a nossa concertação política e diplomática e sermos positivos na busca de soluções para a região.

OD: Os setores de transportes marítimo, turismo e educação parecem ser mais prioritários ou de interesse de Bissau. Que mecanismo pode usar para impulsionar o acordo ou avanço deste projeto, particularmente a nível de transportes marítimo…

JMN: Temos que pôr os empresários a dialogarem entre si para encontrarem formas de construir parcerias. É difícil manter um sistema de transporte, se não for viável e não houver trocas de experiências. O governo deve apoiar as iniciativas empresariais que existem para haver mais trocas entre os dois países e assim  podermos viabilizar os transportes aéreo e marítimo entre os dois países.

OD: A Guiné-Bissau é muito criticada a nível interno e externo face à situação dos direitos humanos que deteriora a cada dia, bem como atentado às liberdades de expressões e da imprensa. Sente-se à vontade num país criticado por abusos de poder e atentado às liberdades de imprensa e dos direitos humanos…

JMN: Nós não podemos analisar as questões de uma forma muito unidimensional. As conversas, visitas são sempre muito úteis para trocarmos impressões e conhecermos melhor a situação e para positivamente influenciarmos as coisas. Eu não me intrometo nos assuntos internos da Guiné-Bissau. Repito que caberá aos guineenses resolver os seus problemas e os seus desafios…

O que posso dizer é que sempre conversando, dialogando, podemos encontrar as luzes para que as nossas relações sejam boas. As relações entre Estados, independentemente de quem esteja conjunturalmente no poder, são importantes. Sermos positivos, otimistas, não nos imiscuimos nos assuntos internos de cada um e deixamos que a própria dinâmica política na Guiné-Bissau avalie a situação e encontre as melhores soluções.

OD: Que apreciação faz do estado da democracia na África lusófona, bem como a situação dos direitos humanos e da liberdade de expressão…

JMN: Risos… Bom, acho que há diferentes indicadores internacionais e não me cabe a mim comentar a situação. Caberá a cada país avaliar os indicadores que existem, quer interno, quer externamente e tomar as melhores posições. Portanto, não gostaria nem de avaliar, nem de comentar as questões internas dos diferentes países da África Lusófona ou da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

OD: O espaço da CEDEAO depara-se com muita instabilidade política, sobretudo a multiplicação dos golpes de estado e ameaças do terrorismo. Vai participar em Dacar (Senegal) no Fórum Internacional sobre a paz e segurança. Que expectativa tem sobre este fórum para a sub-região…

JMN: Relativamente a essas questões, eu acho que temos de trabalhar mais com muita eficácia para que não continuemos a ser um continente e uma região de instabilidades ou de roturas constitucionais. Caso contrário, não teremos nem paz nem desenvolvimento. É fundamental resolvermos os problemas de governabilidade e sermos muito mais eficazes nos resultados e buscar soluções para os problemas do continente e dos africanos.

Nós, as lideranças africanas, temos consciência que o mundo está em transformação, que está a emergir uma nova ordem mundial e a África não pode continuar a ser um continente marginal. Temos um continente riquíssimo com enormes riquezas naturais, grandes talentos, muitas capacidades humanas, sobretudo um continente com uma diáspora riquíssima. Se mobilizarmos todos os nossos recursos, recursos naturais e financeiros, mobilizarmos todas as capacidades humanas, melhorarmos todas as condições de governabilidade e formos mais eficazes na governança, conseguiremos fazer face a essas situações.

Eu defendo discussões. Devemos continuar a discutir. Há uma “Batukadera” cabo-verdiana que canta e diz: “que é da discussão que nascemos…” então, é bom discutir e colocar esses desafios sobre a mesa. Se tomarmos, enquanto líderes africanos, consciência dos desafios que se colocam à África, vamos ainda ao tempo de recuperar do tempo perdido e fazer o caminho que precisamos percorrer para termos uma África onde todas as africanas e africanos vivam com mais dignidade, sobretudo sintam a vontade de viver.

Temos um continente tão lindo, rico e extraordinariamente dotado, portanto temos de nos devolver às africanas e aos africanos.     

OD: A CEDEAO é considerada uma organização impotente hoje, face a situação da instabilidade política que enfrenta, golpes de estado e o terrorismo que se sente a cada dia. Algumas vozes defendem a reforma urgente a nível da organização e até existem vozes que falam da criação de uma força anti golpe para estancar a prática na sub-região e combater ao mesmo tempo o terrorismo. O Presidente partilha a mesma opinião…

JMN: É claro que face aos desafios e como muitas vezes os resultados não são imediatos, há sempre alguma inquietação e muitas vezes algum descontentamento. É claro que nós não temos organizações perfeitas e temos que continuar a trabalhar numa perspetiva positiva para encontrarmos as melhores soluções. O que eu penso é que, tendo em conta os desafios que se colocam a nível da segurança e da estabilidade no continente, é preciso mobilizar mais recursos institucionais e mais capacidades humanas para fazermos face a esses desafios não só na nossa região, como a nível de todo o continente.

Então, eu acho que devemos fazer as reformas no sentido de estabelecer uma efetiva governança multinível a nível do continente africano com uma forte participação da União Africana, das organizações sub-regionais e dos Estados. Com uma divisão de trabalho muito clara entre todas essas instâncias de governança no continente, na União Africana, nas organizações sub-regionais e nos Estados, de modo a encontrarmos as melhores soluções, os recursos e para resolvermos os problemas da África.

Tenho insistido nisso e repito que é o tempo de fazermos o nosso trabalho de Casa. A África, não pode continuar a ser um muro de lamentações…! A África tem de fazer o seu trabalho de casa e tem de procurar respostas na linha do que dizia o Amílcar Cabral, “acelerar o passo para encontrar as melhores respostas”, para resolver os problemas que ainda existem não só no domínio da segurança física, mas também temos questões de segurança alimentar, sanitária e outras muito pertinentes em relação às quais teremos que dar respostas.

OD: Entre a reforma da organização, a estabilização política da sub-região e a luta contra o terrorismo, qual deveria ser a prioridade da Guiné-Bissau que dirige a presidência rotativa da CEDEAO?

JMN: Não posso determinar o prioritário para a Guiné-Bissau, porque quem define as prioridades aqui na Guiné-Bissau são os órgãos de soberania. É claro que no quadro da CEDEAO, a conferência de chefes de Estado e do Governo deverá, na próxima cimeira que terá lugar em dezembro, em Abuja (Nigéria), discutir as principais questões. A evolução da situação, designadamente nos três países onde houve ruptura constitucional e a questão do corredor do Sahel, analisar no quadro multilateral quais os contributos das diferentes instituições internacionais.

Refiro-me, por exemplo, às Nações Unidas e à própria União Africana e ajuizar os próximos passos para os próximos tempos. É importante neste momento, tendo em conta a situação, abrir corredores de diálogo, dado que muitas vezes só as sanções não resolvem os problemas.

Por isso, é fundamental abrir corredores de diálogo numa perspetiva, sempre positiva, de encontrar as soluções para os problemas.       

Por: Assana Sambú

Foto: A.S

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