ENTREVISTA: “INSTITUCIONALIZAR O CARNAVAL É DAR-LHE VIDA E BONS HORIZONTES”

O Coordenador do Grupo Cultural “Netos de Bandim”, Ector Diógenes Cassamá (Negado), disse numa entrevista exclusiva a “O Democrata” que a institucionalização do Carnaval é, na sua visão, dar vida a maior manifestação cultural do país, assim como atribui-lo os horizontes que merece.
O jovem Coordenador do Grupo considera que a manifestação do Carnaval da Guiné-Bissau é a terceira e das mais ricas do mundo e das mais bonitas dos países lusófonos, a seguir a do Brasil que é o primeiro.

O grupo cultural “Netos de Bandim” foi fundado no dia 12 de Novembro de 2000 em Bissau, tendo como mentor da iniciativa a Organização Não Governamental “Amigo das Crianças (AMIC)” com o objectivo de realizar uma campanha de sensibilização sobre a Convenção dos Direitos das Crianças. Actualmente, “Netos de Bandim” conta com mais de 120 membros que compõem as diferentes coreografias culturais do grupo.
Negado disse que foi membro da equipa de animadores da ONG AMIC que fazia campanhas de sensibilização sobre diferentes matérias, acrescentando que na altura entenderam que havia uma grande necessidade de realizar campanhas de sensibilização através do teatro, da música e da dança. Sustentou ainda que depois da campanha e como havia interesse da parte dos membros do grupo, chegaram a conclusão de que deveriam manter o grupo e realizar eventuais trabalhos por solicitação de diferentes organizações.

O grupo “Netos de Bandim” integrou pela primeira vez o desfile carnavalesco de 2006 e até esta data tem sido uma presença regular nos concursos do carnaval e tem constado sempre na lista dos três primeiros classificados. Negado lembrou a “O Democrata” que em 2011, o grupo que coordena ausentou-se do país para participar no Carnaval do Brasil, concretamente no Estado de São Paulo. Já em 2012, os “Netos de Bandim” vestiram as cores do grupo Iris de Brá, saindo como vencedor do desfile nacional no Carnaval daquele ano.

Ector Diógenes Cassamá contou ainda que no ano 2014, o grupo não participou no desfile nacional. Essa “ausência” de acordo com o coordenador, deveu-se à saída para o interior do país, em parceria com o Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP), para animar a zona insular, concretamente na Ilha de Orango e fazer-se de jurado do carnaval dessa ilha. Segundo o coordenador, essa saída permitiu-lhes fazer uma recolha de alguns estilos de danças, trajes e músicas tradicionais da etnia bijagó.
“Essa recolha constituíu agora uma das ferramentas fundamentais do grupo no último desfile do carnaval 2015”, contou.

Questionado se o grupo chegou de participar nos festivais culturais internacionais, Negado disse que o seu grupo já representou as cores nacionais no Festival Internacional de Kanilai, terra natal do Presidente da Gâmbia, Yaya Jammeh. Contou ainda que o seu grupo conseguiu arrancar três troféus naquele festival, nomeadamente do primeiro classificado, segunda posição em trajes e o segundo lugar na magia.
NETOS DE BANDIM APOIA A INICIATIVA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DO CARNAVAL

Solicitado a pronunciar-se sobre a ideia de institucionalizar o carnaval, disse que a institucionalização do carnaval seria muito bom, porque permitiria que as pessoas que trabalhassem no carnaval tivessem a noção de que a sua responsabilidade e os seus termos de referência são a organização do carnaval, assim como das actividades pós carnaval.

Realçou que depois do carnaval há um monte de actividades que poderiam ser levadas a cabo, mas as pessoas não trabalham com este propósito. Assim que termina o desfile, acomodam-se e ficam à espera do desfile seguinte. Porém, se o carnaval fosse institucionalizado as pessoas que constituem a equipa ou a direcção poderiam trabalhar na criação de outras iniciativas.
“Os organizadores do Carnaval teriam muitas tarefas, e sem dúvidas isso seria muito útil, podendo retirar da Direcção-geral da Cultura essa responsabilidade que mantém ao longo de anos, mas que nunca conseguiu cumprir. O carnaval é sempre organizado a partir de 1 de Janeiro, mas entendemos que isso deveria ser um trabalho de 12 meses, para que o carnaval pudesse ter vida que merece ter”, exortou Negado.

Lamentou a forma como a maior manifestação cultural do país fica apenas dentro de um espaço de superfície de 36 mil quilómetros quadrados, apesar de ser considerada a terceira mais rica a nível mundial. Segundo Negado, graças à um pequeno número de turistas, as imagens do nosso carnaval consegue ultrapassar as fronteiras.
“Porque é que o país não pode ter um site sobre o carnaval, permitindo a comunicação ao mundo do que é carnaval da Guiné-Bissau?!”, questionou.

Explicou que depois da festa do carnaval o seu grupo leva a cabo algumas actividades que denominam “Carnaval Extra – Temporal”. No âmbito dessas atividades, o grupo passa por vários bairros da capital, mas se tivessem patrocínios, essa passagem poderia ser alargada a nível nacional para mostrar às pessoas que não tiveram oportunidade de presenciar o desfile do carnaval em Bissau. Frisou ainda que ganhando ou não o desfile nacional do carnaval, o grupo irá premiar o povo guineense com aquilo que tem de bom no aspecto da cultura.
INICIAMOS O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DOS “NETOS DE BANDIM” EM 2010

Falando do percurso do Grupo “Netos de Bandim”, o seu coordenador disse que chegaram à conclusão que era necessário internacionalizar o grupo. O processo foi iniciado em 2010 através da criação de uma página oficial na Internet que lhes permite entrar em contacto com o mundo. Acrescentou ainda que foi assim que conseguiram entrar em contacto com um Educador Social brasileiro que serviu de ponte para que o grupo pudesse tomar parte no carnaval brasileiro.

“Este educador social ajudou-nos muito porque falou com diferentes municípios, exibindo as nossas fotografias e vídeos. E foi assim que conseguimos chegar ao Brasil em 2011. Fizemos a abertura oficial do Carnaval 2011 em Araraquara (São Paulo), tendo como o palco principal o palacete da cidade”, explicou.

Recordou ainda que o seu grupo foi convidado a desfilar no encerramento do carnaval da cidade de Itirapina no mesmo Estado de São Paulo e que no fim do carnaval o seu grupo foi homenageado pela Câmara Municipal da cidade de Araraquara. Todavia, lamentou o facto de seu grupo não ter conseguido voltar ao Brasil em 2012, devido ao golpe de estado de 12 de Abril.

“Lembro-me que quando em 2011 estávamos de regresso ao país vindos do Brasil, fizemos uma escala em Cabo Verde. A associação dos guineenses que vivem em Cabo Verde organizou, em colaboração com a Câmara Municipal da Praia, um grande espectáculo no Auditório Nacional, no qual actuamos para vereadores e seus familiares, assim como para os guineenses em Cabo Verde. Foi um espectáculo que nos marcou bastante, porque foi presidido pela Câmara de Praia e a recepção foi outra. Foram buscar-nos desde à porta do avião e fomos conduzidos até ao hotel”, explanou.

O responsável lembrou na entrevista que os “Netos de Bandim” voltaram a pisar o solo Brasileiro em 2013, mas para outra cidade chamada Marília, em São Paulo, no âmbito de um projecto designado “Africanizando Marília”. O grupo realizou workshops sobre as percussões e danças da Guiné-Bissau com educadores sociais da Universidade de UNESP. O grupo realizou também alguns espectáculos nos diferentes pontos da cidade, de acordo com os planos da Câmara Municipal de Marília.
INSTITUCIONALIZAMOS O GRUPO NETOS DE BANDIM EM 2010
Solicitado a pronunciar-se sobre a origem de fundos que permitem ao grupo a realização das suas actividades, o coordenador disse que quando falaou da internacionalização, não mencionara a institucionalização do próprio grupo que começou em 2010. A partir daí a sua organização decidiu criar um fundo próprio. Revelou que o grupo não tem um patrocinador oficial, mas que as receitas da organização têm origem nas suas actividades.

“Em 100 por cento das receitas de cada actividade, retemos sempre uma fatia que é destinada a escolarização das nossas crianças, sobretudo aquelas que mais necessitam. Tiramos ainda uma parte para o apoio médico e em medicamentos para as crianças. O grupo tem um médico, a Dra. Adama Seco Djibou, que oferece consultas gratuitas às nossas crianças e que sempre que necessário, oferece algum medicamento às nossas crianças. Também temos uma médica e um médico que dão consultas às meninas do grupo, assim como dão aconselhamentos na metéria de saúde sexual e reprodutiva”, assinalou o responsável do grupo, para de seguida avançar que 50 por cento das receitas ficam no fundo para a compra de materiais para o grupo.
Aquele responsável considerou que a partir de 2010, o seu grupo começou a trabalhar naquilo que chamaram de “Comunicação para o Desenvolvimento”, elaborando projectos para concorrer em projectos e campanhas de sensibilização, utilizando a música, o teatro, a poesia, as artes plásticas.

Lembrou que neste âmbito, o grupo assinou um protocolo de acordo com AMIC. O protocolo visa a participação num projecto de iniciativa juvenil denominado (Jovens Criando uma Cultura de Paz). O projecto é da iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e visa fazer uma campanha de sensibilização em diferentes estabelecimentos militares do país passando mensagens de paz. Frisou que o seu grupo voltou a ganhar a segunda fase do mesmo projecto.

Informou ainda que neste momento o grupo está a implementar uma campanha de sensibilização em matéria de métodos de prevenção do Vírus Ébola e que esta já se encontra na segunda fase. Explicou ainda que o grupo fez parcerias com outros grupos do interior do país que passam a mesma mensagem nas suas regiões e os “Netos de Bandim” implementam a sua campanha no Sector Autónomo de Bissau (SAB).

Instado a pronunciar-se sobre como a sua organização recompensa seus membros em termos monetários, Cassamá disse que os participantes em cada actividade recebem certa quantia da receita (subsidio de actividades). Contou também que a maior parte do fundo reverte para os interesses superiores dos membros da organização.
Cassamá revelou que mais de 70 por cento dos elementos do grupo estão a beneficiar de apoio na escolarização, tanto nas escolas primárias como na formação em alguns centros de formação da capital.

O primeiro homem dos “Netos de Bandim” disse que um elemento do grupo está quase a terminar um curso na área de recursos humanos, esperando que possa aplicar os conhecimentos adquiridos ao serviço do grupo, contribuindo para o seu crescimento.
NETOS DE BANDIM PRETENDE RESGATAR A CULTURA GUINEENSE

Ector Diógenes Cassamá disse que o sonho do grupo “Netos de Bandim” é de um dia tornar-se numa instituição cultural de grande dimensão, que possa trabalhar no resgate dos valores culturais da Guiné-Bissau que, segundo ele, já se encontram em fase de extinção ou do esquecimento. Afirmou que o seu grupo vai apostar no resgate dos valores culturais do país onde se encontram escondidos e trazê-los para o presente.

“O nosso objectivo é ver a nossa imagem além-fronteiras e difundir o lado bom do país. Para também facilitar a vida do próprio grupo, pedimos ao Estado da Guiné-Bissau que suporte pelo menos uma tourné internacional, porque isso pode abrir-nos as portas para o mundo”, precisou.

Este responsável assegurou que se a organização que coordena fizesse um tourné internacional, através das parcerias que iria criar, talvez quando houvesse eventos internacionais, as poder-se-ia contactar “Netos de Bandim” para tomar parte e que até aqueles parceiros poderão custear as deslocações do grupo sem que o mesmo pedisse cem francos ao Estado.
Cassamá espelhou que da mesma forma a sua organização vai transportar a imagem do próprio país, transportando a maior riqueza da Guiné-Bissau. Frisou ainda que o grupo que dirige ajudará os jovens a deixarem o mundo da delinquência para que estes começassem a sentir responsáveis.
GRUPO “NETOS DE BANDIM” QUESTIONA A FORMA COMO A COMISSÃO CONDUZIU O DESFILE 2015
Questionado se o grupo acha ter merecido a terceira posição da classificação do Carnaval 2015, respondeu “fizemos o nosso trabalho e o júri fez igualmente o seu. Porém, lamentamos muito a forma como a comissão conduziu o desfile do maior evento cultural do país”.

Aproveitou a entrevista para manifestar a sua indignação contra a comissão organizadora. No seu entender, a comissão está a matar a arte, por não ter premiado as máscaras. As máscaras deveriam ser numeradas para melhor poderem ser identificadas e pontuadas e assim receberem os prémios merecidos. A premiação das máscaras obrigaria os artistas a um esforço particular para produzirem melhores máscaras na edição seguinte do carnaval

Negado indignou-se ainda pela forma como a comissão decidiu premiar as máscaras em conjunto com o grupo, separando a rainha. Sustentou que “a rainha está mais próxima do grupo, pelo que seria normal juntar o grupo e a rainha numa única classificação, deixando as máscaras à parte”.
Cassamá disse que o terceiro lugar é uma vitória para os “Netos de Bandim”, porque participaram 12 grupos no desfile nacional e o seu grupo ocupou o terceiro posto. Revelou que um dos sonhos do grupo é construir um Palácio Cultural “Netos de Bandim” na Guiné-Bissau, onde as pessoas possam encontrar diferentes trajes culturais, instrumentos tradicionais em fase da extinção e as diferentes artes plásticas do país.

Por: Sene Camará
Foto: Marcelo N’Canha Na Ritchi

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