Dodó Pereira Tecanha, conhecido como Dodó das Máscaras, um dos mais conceituados artesãos de máscaras da Guiné-Bissau, defendeu que a melhor forma de valorizar a cultura guineense e ressuscitar o ambiente carnavalesco vivido nos anos 1990 passa pela criação de uma Agência Cultural do Carnaval. Segundo ele, esta estrutura seria responsável pela organização permanente do evento, bem como pela implementação de oficinas de máscaras em bairros e regiões, impulsionando e valorizando esta arte tradicional.
Para o artesão, em entrevista ao Democrata, esta medida evitaria a criação de comissões organizadoras diferentes a cada ano, garantindo continuidade, profissionalismo e impacto cultural e económico.
“Esta agência cultural terá como missão envolver as escolas na criação de Nturudus, criando as condições necessárias para a descoberta de jovens artistas que possam dar continuidade ao trabalho no futuro. Caso contrário, o Carnaval corre o risco de desaparecer completamente na Guiné-Bissau”, alertou, defendendo ainda que a agência seja encarregue de transformar o Carnaval na maior festa cultural do país, com capacidade para atrair visitantes da sub-região.
“NÃO EXISTE CARNAVAL SEM NTURUDU, PORQUE É UMA FESTA DE IMAGEM E EXPRESSÃO ARTÍSTICA”
Dodó das Máscaras fez estas declarações numa entrevista exclusiva ao Jornal O Democrata, na qual abordou o impacto negativo da ausência de desfiles e competições de máscaras entre bairros e regiões na cultura e tradição do Carnaval guineense.
Ao explicar as principais características das máscaras e o seu significado tradicional, o artesão referiu que estas são construídas para exprimir acontecimentos históricos, recordar histórias das diferentes etnias e evocar a luta de libertação nacional.
“As máscaras servem igualmente para homenagear e recordar as façanhas dos nossos antepassados, nomeadamente a Rainha Okinka Pampa e Mama Djanke Wale, valorizando as suas bravuras e permitindo que a nova geração conheça a história ligada à cultura do país”, afirmou.
Acrescentou ainda que, para além da dimensão histórica, as máscaras representam também imagens de animais e expressões da cultura étnica das várias regiões da Guiné-Bissau.
Segundo Dodó, os artistas demonstram a sua criatividade porque “não existe Carnaval sem Nturudu”, uma vez que se trata de uma festa de imagem e expressão artística, acompanhada por canções tradicionais e danças culturais que preservam a memória dos antepassados e transmitem conhecimento às novas gerações.
APOIO INSTITUCIONAL E PAPEL DO ESTADO
Dodó revelou que o Centro Cultural Francês já aceitou apoiar a criação de oficinas de máscaras em alguns bairros da capital. No entanto, sublinhou que este deveria ser, sobretudo, um papel do Estado.
“O governo deve apoiar a abertura de oficinas nos bairros, permitindo que o país tenha espaços para o turismo e a arrecadação de receitas que, depois, financiem a atividade cultural. Isto incentivaria os jovens a expressar a sua criatividade. O Carnaval pode e deve servir como fonte de economia para o país”, defendeu.
ARTESÃO ALERTA PARA A DEGRADAÇÃO DO CARNAVAL

O decano dos artesãos de máscaras considerou que uma das formas de dinamizar a cultura guineense passa pela realização de pequenos carnavais regionais antes do período oficial da festa, incentivando a participação dos grupos e a descoberta de novos talentos.
Questionado sobre os efeitos da ausência de desfiles e competições, afirmou que esta situação prejudicou profundamente a cultura nacional.
“É nesse momento que os diferentes grupos demonstram a cultura dos grupos étnicos que compõem o mosaico da Guiné-Bissau”, explicou.
Recordou ainda que, no passado, apesar de os prémios não serem elevados, funcionavam como estímulo à competição. “Quando o Estado deixou de apoiar, a valorização da cultura degradou-se e o Carnaval perdeu a sua essência. A ausência do desfile nacional fez com que as pessoas deixassem de se vestir de cultura para representar a sua etnia”, lamentou.
Segundo o artesão, os grupos mobilizam diversos materiais e expressões culturais — máscaras, danças, músicas tradicionais, trajes de rainhas — para mostrar a riqueza cultural do país aos visitantes.
“Não podemos continuar a ter um Carnaval que beneficia apenas um grupo de indivíduos. Deve ser uma festa que beneficia todo o povo guineense, porque é a festa popular do povo”, frisou.
IMPACTO DA PANDEMIA E PROJETO DE SALVAGUARDA CULTURAL
Sobre os desafios enfrentados pelos artesãos desde a pandemia da Covid-19, Dodó afirmou que a classe viveu enormes dificuldades.
“Muitos artesãos desmoralizaram-se, abandonaram o país, alguns morreram e outros estão doentes, como o Carlitos Barros, uma grande figura cultural do Chão de Pepel. A falta de valorização e incentivo do Estado levou muitos a desistir”, afirmou.
Defendeu, por isso, a criação de um fundo governamental para financiar oficinas de máscaras em bairros e regiões, como forma de preservar a maior festa cultural do país.
“Sem traje cultural, Nturudu, canções e danças tradicionais, isso pode ter outro nome, mas não pode ser chamado de Carnaval”, alertou.
Relativamente à exposição de máscaras no Centro Cultural Francês, explicou que a iniciativa integra o projeto Oficina de Máscaras “No Kumpu no Cultura”, cujo objetivo é salvar e revitalizar o Carnaval guineense, atualmente em risco.
O projeto intervém em 10 bairros da cidade de Bissau — Antula, Bôr, Cuntum, QG, Pilum, Missira, Brá, Tchada e Pessack — formando jovens em artesanato de máscaras, tanto na teoria como na prática. A meta é que estes jovens produzam as máscaras que serão utilizadas no Carnaval de 2026, preservando assim a identidade cultural da Guiné-Bissau.
O projeto conta com o apoio do Centro Cultural Francês.
Por: Aguinaldo Ampa






















