PROFISSIONALIZAÇÃO DAS BARRACAS E PACOTES TURÍSTICOS PODEM TRANSFORMAR O CARNAVAL EM MOTOR ECONÓMICO, defende o economista 

O jovem economista guineense Serifo Cassamá defendeu a profissionalização das barracas para a venda de produtos certificados, bem como a criação de pacotes turísticos integrados com festivais regionais. Segundo explicou, essas iniciativas podem contribuir para a diversificação da economia nacional, reduzir a dependência do setor primário e fomentar um turismo sustentável.

O mestrando em Finanças e Contabilidade afirmou que, em comparação com outros eventos culturais ou desportivos — como a Taça Amílcar Cabral, realizada em 2007, que impulsionou temporariamente a ocupação hoteleira — o Carnaval apresenta um impacto económico mais amplo e recorrente. O evento mobiliza a diversidade étnica de mais de 30 grupos do país, como Balantas, Bijagós e Mandingas, em desfiles nacionais que atraem turistas estrangeiros e membros da diáspora.

“Diferentemente de festivais regionais de menor dimensão, como o Mandjuandadi, o Carnaval é uma festa nacional com duração de quatro dias e grande potencial para gerar crescimento económico sustentável, desde que seja bem gerido. Contudo, os seus efeitos nem sempre são duradouros devido à forte dependência de importações”, sublinhou.

Cassamá acrescentou que um Carnaval bem organizado, sustentado por uma estrutura técnica competente e dinâmica, pode gerar benefícios económicos significativos para a Guiné-Bissau, incluindo a promoção da imagem do país, o aumento do turismo — com elevada taxa de ocupação hoteleira — a entrada de divisas estrangeiras e a criação de emprego nos setores criativos, como música, teatro e artesanato, contribuindo assim para a redução da pobreza.

“Com uma estratégia de marketing apoiada pela UNESCO e parcerias estratégicas, seria possível elevar o PIB cultural, fomentar o microcrédito e gerar efeitos multiplicadores no comércio informal, posicionando a Guiné-Bissau como um hub turístico da CEDEAO”, afirmou.

Entrevista

O Democrata (OD): Qual é a importância económica do Carnaval para a Guiné-Bissau, especialmente em comparação com outros eventos culturais?

Serifo Cassamá (SC): O Carnaval é a maior manifestação cultural da Guiné-Bissau e funciona como uma verdadeira alavanca económica. Promove o turismo, atrai divisas estrangeiras e impulsiona setores como o comércio de bebidas, o artesanato e a gastronomia. Além disso, gera emprego temporário, aumenta as receitas do Estado por meio de impostos e taxas e eleva os rendimentos das famílias, contribuindo para o equilíbrio da balança de pagamentos.

Em 2024, o défice comercial do país atingiu 241 milhões de dólares, agravado pelas importações de bebidas, que totalizaram cerca de 10,5 milhões de dólares, sobretudo provenientes de Portugal. O Carnaval pode ajudar a mitigar esse impacto ao dinamizar a procura interna.

Comparado a outros eventos culturais, como a Taça Amílcar Cabral de 2007, cujo efeito foi pontual, o Carnaval apresenta um impacto mais abrangente e recorrente, uma vez que mobiliza mais de 30 grupos étnicos em desfiles nacionais e atrai turistas estrangeiros e da diáspora.

OD: Como as movimentações nas barracas e no comércio local durante o Carnaval impactam a economia dos bairros?

SC: As barracas — espaços informais de venda e convívio — impulsionam significativamente o comércio local em bairros de Bissau como Ajuda, Brá e Chão de Papel. Há um aumento do consumo de bebidas, comidas tradicionais, como caldo de mancarra, cuscuz de milho e peixe seco, além de produtos importados.

Isso gera receitas para microempresas familiares, vendedoras informais — maioritariamente mulheres — e associações comunitárias, como os mandjuandadis, fomentando emprego sazonal e reforçando a solidariedade local, inclusive na produção de máscaras tradicionais (N’turudu) e trajes.

Embora o impacto seja positivo, com mobilização de recursos próprios para as competições — envolvendo grupos com mais de 100 participantes e cerca de 30 máscaras — os ganhos permanecem limitados pela informalidade. Apesar de a economia informal representar cerca de 46,5% do PIB nacional, sem processos de formalização os benefícios tornam-se efémeros e não se traduzem em investimentos sustentáveis nos bairros.

OD: De que forma o setor do turismo é afetado pelo Carnaval e que oportunidades podem ser exploradas?

SC: O Carnaval tem um impacto muito positivo no turismo, ao atrair visitantes estrangeiros e membros da diáspora para os desfiles em Bissau, resultando numa ocupação quase total de hotéis, restaurantes e serviços de transporte. Além disso, promove experiências culturais autênticas, como danças étnicas e gastronomia tradicional, gerando divisas e ajudando a equilibrar a balança comercial.

Entre as principais oportunidades destacam-se a candidatura do Carnaval a Património Cultural Imaterial da Humanidade junto da UNESCO — em processo de formalização desde 2025 —, parcerias estruturadas com empresas de telecomunicações, como a Orange e a Telecel, e a criação de rotas turísticas integradas, incluindo o arquipélago dos Bijagós e outras regiões do país.

A profissionalização das barracas para a venda de produtos certificados, como máscaras tradicionais, bem como a criação de pacotes turísticos combinados com festivais regionais, poderia diversificar a economia e reduzir a dependência do setor primário, que representa cerca de 55% do PIB.

OD: Quais foram as principais consequências económicas da degradação do Carnaval nos últimos seis anos, especialmente após a pandemia da Covid-19?

SC: Entre 2020 e 2026, a degradação do Carnaval, agravada pela pandemia, resultou em cancelamentos — como em 2021 —, redução de participantes e desorganização generalizada. Hotéis e restaurantes registaram quebras significativas, enquanto o setor informal perdeu rendimentos sazonais importantes.

A economia, já fragilizada pela contração de 1,5% do PIB em 2020, sofreu com a diminuição do fluxo turístico, agravando o défice comercial e o desemprego juvenil. A instabilidade política e a escassez de financiamento reduziram o número e a qualidade dos desfiles, limitando também o emprego nos setores do artesanato e da gastronomia.

OD: Como a falta de envolvimento do Governo tem afetado o desenvolvimento do Carnaval enquanto evento económico?

SC: A fraca participação do Governo, visível nos atrasos de financiamento e na desorganização institucional, tem impedido a profissionalização dos grupos carnavalescos e reduzido a capacidade de atrair turistas. O evento passou a depender excessivamente de patrocínios privados, em vez de integrar uma estratégia pública estruturada, o que limita o seu impacto económico sustentável.

Sem instrumentos como a regulamentação da Lei de Mecenato ou a criação de um Instituto Nacional do Carnaval, o desenvolvimento económico associado ao evento permanece estagnado, perpetuando a informalidade e impedindo que o Carnaval se afirme como um verdadeiro motor de soberania económica.

OD: Que medidas poderiam revitalizar o Carnaval e maximizar o seu potencial económico?

SC: Entre as principais medidas estão:

(i) a criação de um Instituto Nacional do Carnaval, com uma equipa técnica permanente;

(ii) a regulamentação da Lei de Mecenato e do estatuto da carreira artística;

(iii) a candidatura à UNESCO e o mapeamento das práticas culturais;

(iv) o incentivo à profissionalização das barracas com produtos tradicionais certificados;

(v) a promoção da produção local para reduzir importações e equilibrar a balança comercial.

Essas ações, inspiradas em estratégias como o plano Terra Ranka (2015–2020), poderiam gerar emprego juvenil, fortalecer a economia criativa e atrair investimentos, transformando o Carnaval numa poderosa ferramenta de inclusão social e crescimento sustentável.

OD: De que maneira o Carnaval pode influenciar a imagem da Guiné-Bissau na sub-região?

SC: O Carnaval projeta a diversidade étnica como símbolo de unidade, paz e identidade nacional. Uma promoção eficaz pode atrair visitantes de países vizinhos, como Senegal e Guiné-Conacri, gerar divisas, impulsionar o emprego nos setores criativos e contribuir para a redução da pobreza, posicionando a Guiné-Bissau como um polo turístico relevante na África Ocidental.

Por: Assana Sambú

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