O diretor interino da Aldeia de Crianças SOS, Domingos António Francisco Gomes, revelou que 77 por cento das crianças guineenses com idades entre 0 e 14 anos já foram vítimas de violência doméstica. Segundo os dados apresentados, 20 por cento sofrem castigos físicos, 48 por cento são vítimas de agressões psicológicas e nove por cento enfrentam outras formas de violência.
Domingos António Francisco Gomes fez estas declarações durante o lançamento do Projeto Escola de Família, realizado esta quinta‑feira, 26 de fevereiro de 2026, na sala de conferências da Aldeia SOS. Na sua intervenção, explicou que o contexto social em que o projeto surge exige respostas estruturadas, sustentadas em dados e evidências concretas.
“Por isso, entendemos ser importante apresentar alguns dados estatísticos nacionais que ilustram o nível de vulnerabilidade das crianças e das famílias guineenses”, afirmou.

O responsável da Aldeia SOS referiu ainda que o mais recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) sobre a análise da situação dos direitos e do bem‑estar das crianças na Guiné‑Bissau indica que 97 por cento das crianças com menos de 18 anos sofrem pelo menos uma privação, enquanto 75 por cento enfrentam três ou mais privações. O relatório aponta também que 52 por cento das crianças vivem quatro privações simultaneamente.
Acrescentou que quatro em cada dez crianças guineenses vivem em situação de pobreza absoluta, sublinhando que as privações estão essencialmente relacionadas com as condições de vida, habitação e saneamento básico.
Gomes alertou igualmente que a maioria dos casos de violação e de outras formas de violência sexual não é denunciada às autoridades competentes. Em algumas situações, disse, as raparigas são forçadas a casar com os autores dos abusos ou devolvidas aos lares e comunidades onde os crimes ocorreram, o que lhes provoca danos sociais e psicológicos adicionais.
O diretor criticou o que considera ser o desrespeito pela legislação existente, situação que, no seu entender, contribui para o aumento da discriminação e da exclusão social, sobretudo das crianças com necessidades especiais, que enfrentam dificuldades significativas no seio da família, da comunidade e do próprio sistema social.
Presente na cerimónia, a ministra da Mulher e Solidariedade Social, Cadi Florença Dabó Correia, defendeu que a família constitui o primeiro espaço de cuidado, educação e proteção da criança.

“É na família que se constroem valores, competências sociais e emocionais, bem como as bases para uma convivência harmoniosa em sociedade”, afirmou.
A governante reconheceu que muitas famílias enfrentam desafios significativos, resultantes de vulnerabilidades económicas, sociais e educativas, que acabam por influenciar diretamente o bem‑estar e o desenvolvimento das crianças e dos jovens.
“O Ministério da Mulher e Solidariedade Social acredita firmemente que a proteção da criança não pode ser alcançada apenas por meio de intervenções institucionais. Ela exige uma abordagem integrada, baseada na prevenção, na educação familiar e no envolvimento ativo das comunidades”, declarou.
A ministra reafirmou ainda que o Governo da Guiné‑Bissau está totalmente disponível para continuar a trabalhar em estreita colaboração com as Aldeias de Crianças SOS, bem como com parceiros nacionais e internacionais, com vista ao reforço das políticas públicas de proteção social, promoção dos direitos da criança e empoderamento das famílias.
Por: Natcha Mário M’bundé

















