CRJ DE GABÚ DENUNCIA ENVOLVIMENTO DAS FORÇAS DE SEGURANÇA NA PROTEÇÃO DE TOXICODEPENDENTES

O Presidente do Conselho Regional da Juventude (CRJ) de Gabú, Wali Djau, manifestou preocupação com o facto de as autoridades policiais e outras instituições conhecerem as pessoas que vendem e consomem drogas e substâncias ilícitas, mas pouco ou nada fazerem para travar o fenómeno. O líder juvenil denunciou ainda um possível envolvimento ou cumplicidade de agentes das forças de segurança na proteção desses grupos, considerando a situação “uma bomba-relógio” para o país.

Em entrevista ao Boletim Informativo do Observatório Guineense das Drogas e Toxicodependências, retomada nesta edição de O Democrata, revelou que a maior parte dos jovens detidos na esquadra local é por crimes de roubo, agressões físicas e violação sexual — crimes que, segundo ele, têm sido motivados pelo consumo de drogas. Ainda assim, afirmou, estes jovens são autorizados a fumar cigarros dentro das celas, o que considerainadmissível. Para o responsável, a juventude de Gabú encontra-se refém do vício.

“TRÁFICO E CONSUMO DE DROGAS SÃO FENÓMENOS PREOCUPANTES E ALARMANTES NA REGIÃO”

Wali Djau criticou duramente o comportamento das autoridades policiais, que classificou como uma séria ameaça à sociedade. Argumentou que, mesmo que existissem mecanismos de reinserção — que, segundo ele, não existem — os jovens continuariam a representar um risco. 

“Essa atitude incentiva qualquer pessoa a continuar a fazer a mesma coisa. Deveria haver medidas exemplares para estes jovens implicados em crimes motivados pelo consumo de drogas”, reforçou, admitindo a possibilidade de conluio entre elementos da Polícia de Ordem Pública (POP) e consumidores.

O ativista descreveu o crime organizado, o tráfico e o consumo de drogas entre jovens como fenómenos “preocupantes e alarmantes”, sublinhando que as evidências no terreno apontam para consequências imprevisíveis na vida dos consumidores.

Segundo Djau, o consumo de drogas em Gabú atingiu níveis alarmantes nos últimos tempos, estando associado a agressões corporais graves, violação sexual e roubos — atos motivados pelas perturbações que essas substâncias provocam sobretudo em jovens vulneráveis.

“Hoje, na região de Gabú, adolescentes e jovens consomem drogas abusivamente, o que tem conduzido muitos deles à prática de crimes graves”, afirmou, destacando o aumento da criminalidade, especialmente desde 2023.

Embora reconheça fatores sociais e económicos como potenciais causas, rejeita a ideia de que o consumo de drogas seja uma resposta válida para o stress, a pobreza ou o desemprego. “Em vez de matarem o stress, os jovens matam-se”, lamentou.

Djau alertou ainda para os efeitos psicológicos, destacando que as drogas provocam alucinações e comportamentos irracionais. “Quem entra nesse mundo fica preso e dependente, e fará o que for preciso para manter o consumo”, alertou.

A CRJ de Gabú afirma ter abordado repetidamente esta problemática junto de organizações regionais da sociedade civil — como o Movimento Regional da Sociedade Civil e a PONGAB — e junto das autoridades locais, propondo a realização de uma conferência regional que envolvesse até consumidores. Contudo, a iniciativa não avançou por falta de meios financeiros ou parceiros.

Apesar disso, a CRJ não desistiu e tem realizado campanhas de sensibilização, inspiradas no modelo do Observatório da Droga, dinamizando debates e entrevistas sobre os riscos do tráfico e consumo. Essas ações estendem-se também aos setores rurais da região.

Segundo o líder juvenil, o consumo de MD, Ganza e Kush é frequente na cidade de Gabú, enquanto nas zonas rurais a liamba já “corrói a juventude” devido à ausência de controlo. A CRJ pondera lançar uma iniciativa com criadores de gado para criar canais de denúncia e envolver jovens e DJs de eventos culturais para difundir mensagens de prevenção.

Djau alertou que espaços de lazer — Batucadas, festas e almoços organizados por mulheres — têm servido como locais de consumo, inclusive de drogas transformadas em líquidos estimulantes. Denunciou também o uso de substâncias em cerimónias tradicionais, como o Djambadon de Fanadu. 

Relatou que a POP já deteve vários jovens em Plack Star graças a denúncias da CRJ, apesar das ameaças feitas aos ativistas.

O dirigente lamentou que algumas operações tenham fracassado devido a queixas das forças de segurança sobre falta de meios, embora classifique como “boa” a relação institucional entre a CRJ e os setores de segurança, educação e saúde no combate ao fenómeno.

À pergunta sobre os próximos passos, anunciou que o CRJ prepara a primeira edição da Universidade Regional de Juventude e Desenvolvimento, cujo lema incluirá “juventude consciente sem drogas, ambiente protegido, alterações climáticas e mercado de trabalho”. Questões ligadas à crise económica mundial também serão debatidas ao longo dos oito dias do evento.

Na sua mensagem final, desafiou a juventude de Gabú a dizer: “Stop droga. A droga faz mal, cria conflitos e corrompe sociedades em construção.” E concluiu: “A juventude é força de produção hoje, no presente. A transformação da Guiné-Bissau dependerá do empenho e seriedade dos seus jovens.”

Fonte: Boletim da OGDT

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