Na ausência do Estado: ILHA DE UNHOCOMO CRIA A SUA PRÓPRIA POLÍCIA E ESCOLA COMUNITÁRIA 

Face à ausência prolongada do Estado e, em particular, das forças de segurança e defesa, os habitantes da ilha de Unhocomo, no setor de Uno, região de Bolama/Bijagós, decidiram organizar-se para garantir a segurança local. 

Com o apoio dos chefes tradicionais e dos anciãos, a comunidade criou uma esquadra local, formou polícias tradicionais e estruturou um sistema comunitário de mediação de conflitos, incluindo juízes tradicionais, para responder aos desafios de segurança e manter a ordem pública.

A secção de Unhocomo é composta por duas ilhas — Unhocomo e Unhocomozinho — consideradas das últimas do arquipélago dos Bijagós, situadas a cerca de 15 quilómetros a oeste da ilha de Uno, distância que corresponde a aproximadamente duas horas de navegação em piroga. Segundo o censo (recenseamento geral da população) de 2009, Unhocomo conta com 678 habitantes. Em 1996, as ilhas foram classificadas pela UNESCO como Reserva da Biosfera, devido à sua elevada diversidade biológica.

FRUTOS SILVESTRES E EXTRAÇÃO DE SAL SUSTENTAM AS FAMÍLIAS

A mobilidade na ilha faz-se essencialmente por piroga de pescadores, meio também utilizado para a evacuação de doentes e grávidas em trabalho de parto. A viagem entre Unhocomo e a capital, Bissau, dura entre nove e dez horas em canoa de pesca.

Para além da ausência quase total do Estado, a ilha não dispõe de rede de telecomunicações móveis. Existem apenas duas escolas, com um total de 110 alunos: uma privada, que funciona do pré-escolar à 2.ª classe, e outra pública, que vai da 1.ª à 5.ª classe.

A escola pública conta com seis professores, dos quais cinco são contratados — alguns pelo Estado, outros pela própria comunidade. Todos são nativos da ilha, uma vez que o isolamento dificulta a colocação de docentes vindos de fora.

A mensalidade escolar é de 1.000 francos CFA, verba utilizada para custear despesas da escola e apoiar os professores contratados pela comunidade. O estabelecimento funciona sem água nem eletricidade, e as cozinheiras acumulam a função de serventes. Apesar das dificuldades, a ilha dispõe de um centro de saúde tipo C, que cobre seis aldeias, incluindo Unhocomozinho.

A ilha de Unhocomozinho não possui centro de saúde; os doentes são encaminhados para Unhocomo ou Bubaque. A comunidade enfrenta escassez de água, embora disponha de uma escola que leciona do pré-escolar à 4.ª classe.

A escola funciona num pavilhão com duas salas, sem água nem eletricidade, e dispõe de apenas 17 carteiras, muitas em más condições, para 54 alunos.

O funcionamento das escolas públicas e privadas nas duas ilhas é assegurado pelos próprios nativos, numa tentativa de garantir a educação e a sobrevivência das comunidades.

PROFESSORES RECEBEM APENAS TRÊS MESES DE SALÁRIOS POR ANO

O diretor da Escola do Ensino Básico Egará de Unhocomo, Arlindo Joãozinho, contou à nossa reportagem que mobilizou colegas ainda durante a formação em Bolama para aceitarem colocação na ilha, como forma de combater a falta de professores.

“Trabalhamos aqui há anos praticamente sem nada. Desde 2022, nunca recebemos mais de três meses de salário por ano. Para levantar o salário, temos de ir a Bissau, enfrentando mau tempo em canoas de pesca. O que nos ajuda é praticar pesca nas férias ou aos fins de semana”, explicou.

Segundo o diretor, a escola enfrenta grande carência de material didático, obrigando até quatro alunos a partilhar um único livro.

“Prometeram livros e tablets, mas até agora nada. Continuamos a usar livros antigos e a copiar os conteúdos para os cadernos”, disse.

Este ano letivo, a escola pública não abriu a 1.ª classe por falta de alunos, uma vez que existe uma escola privada que funciona do pré-escolar à 2.ª classe.

Em Unhocomozinho, a escola local foi reabilitada em 2016 graças à iniciativa de um turista espanhol, que financiou a construção após conhecer a realidade da comunidade. Apesar das melhorias, persistem a falta de professores, salas de aula e serviços básicos.

Muitos habitantes estudaram apenas até à 4.ª classe, por inexistência de níveis mais avançados. Quem deseja prosseguir os estudos precisa deslocar-se para Bissau ou Uno, opção restrita a quem tem familiares capazes de acolher os estudantes.

“É uma realidade triste. Ficar aqui é viver no escuro e no isolamento. Não conseguimos aumentar a nossa capacidade académica”, lamentou o diretor.

O centro de saúde local funciona com apenas dois enfermeiros, sem parteiras nem farmácia, e num edifício de dimensões reduzidas. Na ausência de farmácia, são os próprios enfermeiros que vendem medicamentos, evitando que os pacientes fiquem sem tratamento. Grávidas são enviadas antecipadamente para Bissau ou Bolama.

Quanto às telecomunicações, apesar de várias diligências, nenhuma operadora instalou rede móvel.

“Conseguimos registar mais de 300 linhas, mas mesmo assim não temos rede. Para ligar, é preciso deslocar-se a pontos específicos da aldeia”, relatou.

A população manifesta preocupação com a presença de pescadores estrangeiros, sobretudo senegaleses, acusados de pesca abusiva.

“Sem rede móvel, não conseguimos denunciar quando invadem o nosso mar”, denunciou.

A criação de um Parque Comunitário é defendida como forma de preservar recursos marinhos e promover o desenvolvimento local.

O representante do Comité das Ilhas de Unhocomo e Unhocomozinho, Manuel Simão, classificou a situação das ilhas como “grave” e denunciou o abandono estatal.

Segundo explicou, a comunidade recrutou jovens para atuarem como polícia comunitária, sem ligação formal ao Estado. Estes realizam patrulhas, mediam conflitos e garantem maior sensação de segurança. Em casos mais graves, os processos são encaminhados para Uno.

As sanções incluem permanência diária na “esquadra” comunitária e o pagamento de taxas simbólicas que alimentam o fundo comum da comunidade.

Por: Epifânia Mendonça

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