O governador do Banco de Moçambique, Rogério Lucas Zandamela, afirmou que as autoridades monetárias africanas chegaram “muito tarde ao jogo” da regulação dos criptoativos, muitas vezes mais por pressão de exigências internacionais do que por antecipação estratégica.
Ao intervir em Dakar, está sexta-feira, 8 de maio de 2026, numa mesa-redonda dos governadores dos bancos centrais subordinada ao tema “Criptoativos e Inovações Digitais: Que Lições para os Bancos Centrais?”, Zandamela reconheceu que, numa fase inicial, a instituição não dispunha de conhecimentos técnicos nem de recursos suficientes para lidar com esses ativos digitais.
Segundo o governador, durante muito tempo, as prioridades dos bancos centrais estiveram centradas nos riscos tradicionais associados à estabilidade financeira, enquanto questões como a proteção do consumidor, a integridade do sistema financeiro e a supervisão das criptomoedas ficaram em segundo plano.
No entanto, ao analisarem dados do Banco Mundial e de outras instituições internacionais, as autoridades constataram que Moçambique figurava entre os mercados africanos mais dinâmicos no domínio dos criptoativos, sem que o banco central tivesse plena consciência dessa realidade.
Perante esse cenário, o governador defendeu que os bancos centrais africanos precisam de aprender rapidamente a supervisionar esses mercados, sublinhando a necessidade de formações práticas que permitam identificar, avaliar e mitigar riscos.
Zandamela destacou ainda a importância da cooperação internacional, afirmando que nenhum país, por mais desenvolvido que seja, consegue regular sozinho um setor tão complexo e globalizado.
Como exemplo, revelou que, há dois anos, o Banco de Moçambique foi alvo de um ciberataque de grande dimensão sem que a instituição tivesse capacidade para o detetar.
“O alerta veio da Interpol, através de um contacto com o Procurador-Geral da República. Nem sequer tínhamos capacidade para saber que estávamos a ser atacados”, admitiu.
Após o incidente, explicou que solicitou apoio ao Banco Central da África do Sul, que recomendou duas empresas privadas especializadas em cibersegurança para identificar a falha e conter o ataque.

Para o governador, essa experiência evidencia a necessidade de uma colaboração estreita entre os bancos centrais e o setor privado, que detém competências tecnológicas mais avançadas.
Por fim, Rogério Lucas Zandamela alertou que nenhum país está imune aos riscos associados aos criptoativos e às ameaças cibernéticas.
“Quando pensamos que já aprendemos o suficiente, novos riscos já estão a surgir”, concluiu.
Por: Tiago Seide
Enviado Especial





















