O coordenador nacional da Organização Não Governamental Jovens Acesso à Formação e Emprego (JAFE), Bidamone Joãozinho Siga, defendeu a criação de escolas técnico-profissionais nas regiões do país como forma de reduzir o fluxo migratório das zonas rurais para a capital, Bissau. A medida, no entendimento da organização, visa essencialmente combater o desemprego e, por consequência, apoiar a subsistência das famílias.
“Temos centros de formação técnico-profissional que oferecem cursos de seis meses nas áreas de canalização, eletricidade e construção civil, mas a maioria funciona em Bissau. Dispomos ainda de centros de cursos intensivos, com formações de três meses em culinária, pastelaria e decoração, secretariado, administração, elaboração de projetos, empreendedorismo e técnicas de comunicação em público. Estes centros de formação devem ser implementados em todas as regiões do país”, disse o ativista social em entrevista ao jornal O Democrata.
O responsável falava a propósito dos projetos recentemente lançados pela organização, designadamente o “Nô Labra, Nô Kume i Nô Bindi”, uma iniciativa que visa a promoção e a diversificação de produtos agrícolas com o objetivo de combater a insegurança alimentar nas regiões.
“DEVEMOS ACREDITAR NA GUINÉ-BISSAU, UM PAÍS VERDE E CHEIO DE OPORTUNIDADES”-diz Ativista

A JAFE tem uma estrutura implementada em todas as regiões do país. A sua missão é apoiar as iniciativas locais, promovendo formações intensivas e a criação de centros de formação técnico-profissional, com o objetivo de incentivar o empreendedorismo juvenil.
Em entrevista, Bidamone Joãozinho Siga lamentou o facto de a maioria dos jovens guineenses apostar na emigração em busca de melhores oportunidades, tanto para a realização de estudos superiores como para o trabalho. Contudo, apelou à juventude para acreditar no potencial do país e continuar a lutar pelos seus direitos, contribuindo para o desenvolvimento da Guiné-Bissau.
“Devemos acreditar na Guiné-Bissau, um país verde e com muitas oportunidades que ainda não foram aproveitadas”, afirmou.
Em seguida, lamentou a ausência de uma cultura de empreendedorismo no país e defendeu um maior investimento na agricultura como forma de garantir a segurança alimentar das famílias guineenses.
“Os jovens residentes nas zonas rurais enfrentam dificuldades económicas, sobretudo em determinados períodos do ano, o que os leva a abandonar o campo e a dirigir-se para a capital, Bissau, em busca de melhores oportunidades”, assegurou. Aproveitou a ocasião para encorajar os jovens a dedicarem-se à produção agrícola durante as férias escolares.
“Existem culturas, como a abóbora e o feijão de sete semanas, que podem ser colhidas em poucos meses e ajudar a reduzir os períodos de escassez alimentar”, explicou.
Alertou ainda o executivo e a população em geral para o risco de agravamento da insegurança alimentar no país, “porque os rendimentos obtidos durante a campanha de comercialização da castanha de caju não são suficientes para garantir a subsistência das famílias ao longo de todo o ano”.
“Três meses de campanha de comercialização da castanha não conseguem sustentar uma família durante os restantes nove meses do ano, particularmente neste ano em que se registou uma produção muito reduzida de castanha de caju em todo o país”, advertiu o ativista social.
Sobre os projetos agrícolas “Nô Labra, Nô Kume i Nô Bindi”, lançados pela sua organização, Bidamone Joãozinho Siga explicou que a iniciativa visa sensibilizar não apenas as populações rurais, mas também os profissionais residentes em Bissau que enfrentam dificuldades de emprego.
“Quem não consegue encontrar trabalho na cidade pode investir na agricultura para garantir a sua sobrevivência”, defendeu. Aproveitou ainda a entrevista para apelar à juventude guineense no sentido de investir na criação de gado e de animais de ciclo curto, uma atividade que, segundo explicou, pode contribuir para a redução da pobreza e do desemprego.
“Uma pessoa que se dedica à criação de gado, particularmente de animais de ciclo curto, pode vender os animais e obter rendimentos para colmatar várias necessidades”, aconselhou.
Relativamente ao nome dado ao centro “Escola do Século – Américo Gomes”, Bidamone Joãozinho Siga esclareceu que a homenagem resulta do contributo do falecido músico guineense para a valorização da pátria através da arte.
“Américo Gomes ultrapassou a dimensão familiar e tornou-se uma figura de referência nacional. A nossa escola tem como lema ‘Defender a Pátria através do Livro’, enquanto Américo Gomes a defendeu através da música”, justificou.
DEFENDE QUE GOVERNO DEVE APOSTAR NA AGRICULTURA FAMILIAR E NA DIVERSIFICAÇÃO DE PRODUTOS AGRÍCOLAS
Na entrevista, Bidamone Joãozinho Siga chamou igualmente a atenção para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres comerciantes.
“As mulheres saem diariamente para vender os seus produtos, mas muitas vezes regressam sem conseguir vender, porque não existe poder de compra suficiente”, afirmou, frisando que os sinais de agravamento da fome já são visíveis no país.
“Não precisamos apenas de estatísticas para perceber a situação. A população já sente as dificuldades no dia a dia”, acrescentou.
Defendeu que o Governo deve apostar em campanhas de sensibilização e incentivo à agricultura familiar e à diversificação da produção agrícola, tendo criticado a ausência de uma política agrícola consistente na Guiné-Bissau e lembrado que o país já foi exportador de arroz, assim como de vários outros produtos agrícolas.
No entendimento do coordenador nacional da ONG JAFE, a aposta excessiva na monocultura da castanha de caju contribuiu para a redução da produção de outros produtos agrícolas.
Questionado sobre quem deve ser responsabilizado pela perda da capacidade de produção agrícola do país — que outrora era exportador de arroz — considerou que tanto o Estado como a população têm responsabilidades.
“O Governo deve criar incentivos, mas os agricultores também precisam assumir o seu papel e apostar mais na produção”, advertiu, criticando igualmente a falta de diálogo entre as organizações que apoiam a produção agrícola e o Ministério da Agricultura.
“A nossa organização enviou várias cartas ao Ministério da Agricultura, mas nunca obtivemos resposta. Por isso, não conseguimos estabelecer uma relação de trabalho com o Ministério da Agricultura”, revelou.
Por: Natcha Mário M’Bundé
















