O diretor do Hospital Regional de Canchungo, Celestino Biaguê, afirmou que a insuficiência de recursos humanos, sobretudo de médicos de diferentes especialidades, tem colocado a unidade hospitalar em sérias dificuldades. Perante esta situação, a direção decidiu contratar três médicos e reorganizar alguns serviços para garantir maior eficiência no atendimento.
Em entrevista ao jornal O Democrata, no âmbito das consultas gratuitas que a missão médica chinesa na Guiné-Bissau está a realizar em diferentes pontos do país, o médico clínico-geral revelou que o Hospital Regional de Canchungo dispõe atualmente de apenas 13 médicos, dos quais 10 são efetivos e três contratados.
Dos 10 médicos efetivos, dois encontram-se praticamente afastados do serviço devido a problemas de saúde e à idade avançada. Segundo Celestino Biaguê, em condições normais, o hospital necessitaria de cerca de 50 médicos, de acordo com um estudo estatístico realizado para avaliar as necessidades da instituição.
“Na maternidade temos três médicos; na pediatria, dois médicos, sendo um efetivo e um contratado; na medicina, um; e na cirurgia, um. Devido à insuficiência de médicos, não conseguimos desmembrar os serviços. Por exemplo, na urgência realizam-se pequenas cirurgias e funcionam também os serviços de pediatria e medicina. Os pacientes que necessitam de internamento são admitidos e posteriormente encaminhados para outras enfermarias. Temos ainda 23 enfermeiras e cinco parteiras”, explicou.
Celestino Biaguê fez uma avaliação positiva da missão médica chinesa na Guiné-Bissau, particularmente no setor de Canchungo, região de Cacheu, destacando o seu contributo na resposta às necessidades e demandas do hospital.

A 21.ª equipa médica chinesa destacada em Canchungo tem atuado principalmente nas áreas de pediatria, medicina interna e acupuntura, uma técnica tradicional chinesa utilizada na reabilitação motora e fisioterapia.
“Tem havido melhorias significativas. Conheço doentes que chegaram a este hospital em estado crítico e que hoje estão praticamente recuperados. Os médicos chineses realizam consultas em conjunto com os técnicos nacionais e intervêm no serviço de urgência. Apenas não integram a equipa médicos-cirurgiões, tanto de cirurgia geral como de gineco-obstetrícia. Sempre que há necessidade de realizar cirurgias, solicitamos apoio da equipa que está no Hospital Militar, em Bissau. Todas as quartas-feiras temos recebido esse apoio e já foram realizadas várias cirurgias na nossa unidade, programadas e de urgência. Esta colaboração tem surpreendido não só a direção do hospital, mas também os técnicos que aqui trabalham”, afirmou.
Neste sentido, apelou para que as próximas missões médicas chinesas integrem cirurgiões, de forma a facilitar e agilizar a prestação dos serviços.
“Tudo dependerá da cooperação entre os dois países. Pelo menos, foi isso que nos disseram. Nada depende exclusivamente dos técnicos chineses. Terá de ser um trabalho conjunto entre os dois Estados. Da nossa parte, temos transmitido essa preocupação à direção regional”, referiu.
Segundo Celestino Biaguê, o Hospital Regional de Canchungo dispõe atualmente de apenas um técnico de radiologia, que presta um serviço limitado, uma vez que permanece pouco tempo na cidade e não assegura serviço aos fins de semana, período em que o hospital regista frequentemente um elevado número de acidentes de viação envolvendo motorizadas.
“Nos fins de semana, ele encontra-se praticamente em Bissau. Quando ocorrem acidentes graves no setor ou na região, os pacientes são imediatamente evacuados para a capital. O bloco operatório está a funcionar, mas as intervenções cirúrgicas de maior complexidade são assumidas pelos médicos chineses. Os técnicos nacionais não estão habilitados para realizar procedimentos como amputações e outras cirurgias especializadas. Limitam-se essencialmente às cesarianas”, explicou.
Celestino Biaguê acrescentou que as evacuações ocorrem sobretudo quando o hospital recebe grávidas que necessitam de cesariana. Segundo explicou, a direção é frequentemente obrigada a contratar anestesistas de forma pontual, uma vez que o único profissional afeto ao hospital trabalha apenas de segunda a sexta-feira e passa os fins de semana em Bissau.
Para responder aos casos de urgência obstétrica durante os fins de semana, a direção recorre à contratação temporária de anestesistas ou procede à evacuação das pacientes para Bissau.
“Sim, fazemos evacuações. Evacuamos até grávidas com fetos em sofrimento. Muitas vezes essas crianças não sobrevivem. Recentemente, em junho deste ano, ocorreu um caso desta natureza. Uma grávida em trabalho de parto acabou por falecer. O caso aconteceu num fim de semana. A paciente apresentava um descolamento da placenta, com perda significativa de sangue. Era necessária uma intervenção imediata no bloco operatório, mas não foi possível evitar a morte porque o anestesista não estava no hospital. Estava em Bissau. Os médicos tentaram estabilizá-la para posterior evacuação, mas não foi possível. A ambulância disponível pertence à RIA – Rede Integrada de Ambulâncias – e existe muita burocracia. Conseguir evacuar um doente pode demorar até uma hora. Essa burocracia nem sempre ajuda”, lamentou.
O responsável informou ainda que as evacuações custam 25 mil francos CFA, no âmbito de uma parceria entre o Governo e a rede de ambulâncias.
Relativamente aos equipamentos hospitalares, Biaguê assegurou que a maioria funciona adequadamente, mas identificou a eletricidade como um dos principais constrangimentos à prestação dos serviços.
“Temos realizado estudos para identificar a origem do problema. Solicitámos o apoio de um técnico da equipa médica chinesa para analisar a situação elétrica, mas tudo indica que a dificuldade esteja relacionada com o cabo subterrâneo que transporta energia para o hospital e que poderá estar obsoleto. A sua substituição representa um custo elevado que a direção não consegue suportar. Atualmente,dependemos de um fornecedor privado, a quem pagamos cerca de 150 mil francos CFA por semana. Estamos a trabalhar para alterar esta situação. Recebemos um gerador do Banco Mundial e, se conseguirmos alcançar alguma estabilidade financeira, poderemos deixar de recorrer ao fornecedor privado e assumir internamente o fornecimento de energia. Temos também painéis solares, mas já perderam grande parte da sua capacidade de armazenamento. Estão envelhecidos e isso cria enormes dificuldades”, sublinhou.
Celestino Biaguê informou ainda que os serviços essenciais atualmente assegurados pelo hospital são pediatria, medicina interna e gineco-obstetrícia. O único serviço que não se encontra operacional é o de ortopedia, pelo que todos os casos relacionados com essa especialidade são evacuados para Bissau.
Por: Filomeno Sambú


















