A ilha de Canhabaque é considerada uma das ilhas mais tradicionais e menos desenvolvidas do arquipélago dos Bijagós. As atividades mais comuns são o cultivo do arroz, a pesca e a exploração de moluscos e produtos florestais. Contudo, nos últimos tempos, a ilha tem registado, em maior escala, uma intensa caça aos roedores conhecidos localmente como “djinkindur”, praticada por jovens e adolescentes.
De acordo com os dados disponíveis, a ilha tem uma área de 111 quilómetros quadrados (43 milhas quadradas) e uma população de 2.478 habitantes (Censo de 2009), distribuída pelas aldeias de Ambuduco, Ampucute, Ancanhozinho, Indenazinho, Ancaguine, Ancatipe, Angaura, Indena Grande, Ga-Cote, Inore, Ambena, Bine, Inhoda, Idjoue, Eboco, Meneque, Ancanam, Anghudjiga, Anghumba e Antchurupe.
O povo desta ilha é considerado um dos mais conservadores da cultura e tradição dos Bijagós, cuja sociedade é matriarcal.
O semanário O Democrata esteve nesta ilha e viveu de perto um pouco da sua realidade.
Em Canhabaque, tradicionalmente, cada tabanca conta com o seu régulo, mas o régulo principal fica na tabanca de Inhoda. A aldeia é reconhecida como a primeira tabanca onde têm início todas as importantes cerimónias tradicionais.
Nesta ilha, os conflitos relacionados com a posse de terras são raros, assim como roubos, agressões físicas ou outros crimes que impliquem derramamento de sangue, de acordo com as crenças tradicionais e espirituais dos bijagós de Canhabaque.
Se um dos membros da comunidade cometer um desses crimes, enfrenta consequências. O infrator é obrigado a realizar a cerimónia de “rónia” na baloba, um lugar sagrado onde são realizados rituais e cerimónias tradicionais. Nesse local, é sacrificado gado para expiação dos erros cometidos.
Sem posto policial, a ilha dispõe de um transporte regular que liga Canhabaque a Bubaque duas vezes por semana, ao custo de 1.000 francos CFA.
Em termos de eletricidade, a ilha não dispõe de rede pública. As populações recorrem a painéis solares e à iluminação pública alimentada por energia solar em algumas tabancas, graças ao apoio de organizações que atuam nessas localidades.
A ilha possui um centro de saúde do tipo C, que cobre as 20 localidades que compõem a área sanitária de Canhabaque. Apesar de contar com mais de sete instituições escolares, entre as quais quatro públicas e três privadas, dispõe de apenas um liceu, que funciona até ao 9.º ano de escolaridade. A insuficiência de professores obriga muitos alunos a deixarem os seus lares para prosseguirem os estudos em Bubaque ou Bissau.
A estrutura dos pavilhões do liceu encontra-se em estado de degradação. A instituição tem 13 professores, dos quais apenas um é efetivo, cinco são novos ingressos e os restantes contratados. Conta ainda com quatro funcionários de limpeza contratados pelo Ministério da Educação Nacional, Ensino Superior e Investigação Científica.

As matrículas e mensalidades variam entre 1.000 e 2.500 francos CFA, o que tem permitido o funcionamento regular da escola em regime de autogestão e em dois turnos. Apesar de dispor de água potável, o liceu enfrenta a falta de eletricidade. Questões administrativas, como a emissão de recibos e declarações, são feitas manualmente e enviadas para Bubaque para digitalização e impressão.
Interpelado pela equipa do jornal O Democrata, o diretor da Escola do Ensino Básico Esperança de Canhabaque, Marito Fernandes, explicou que a escola foi construída em 2005 graças a uma parceria entre a comunidade e um cidadão coreano.
Inicialmente, a escola funcionava do pré-escolar ao 4.º ano. Anos mais tarde, foram introduzidos outros níveis de ensino. Dados estatísticos indicam que, desde a sua construção em 2005, o estabelecimento nunca recebeu obras de manutenção. Além disso, enfrenta falta de professores para os 7.º e 9.º anos, sobretudo nas disciplinas de Física e Matemática.
Marito Fernandes denunciou que a direção registou um número significativo de crianças sem registo de nascimento nem Bilhete de Identidade. Ainda assim, para garantir a inclusão, a direção sub-regional autorizou a matrícula dessas crianças, contribuindo para reduzir o número de menores fora do sistema educativo.
“Queremos implementar o 10.º ano no ano letivo 2026/2027. Já temos uma turma que pretendemos utilizar para introduzir esse nível. Neste momento, a escola funciona desde o jardim de infância até ao 9.º ano. Um dos maiores constrangimentos é a falta de professores. Se tivéssemos professores suficientes, continuaríamos a expandir os níveis de ensino, distribuindo os alunos por diferentes turnos. Desde a sua criação, a escola tem enfrentado dificuldades devido à escassez de docentes”, lamentou.
O diretor da Escola do Ensino Básico Esperança de Canhabaque afirmou ainda que, devido à insuficiência de professores, alguns docentes lecionam disciplinas fora da sua área de formação, nomeadamente Biologia e Educação Visual.
Relativamente ao fluxo escolar, Marito Fernandes revelou que houve uma adesão significativa de alunos neste ano letivo, em comparação com os anos anteriores.
“Tivemos uma média de duzentos alunos e quatro auxiliares de serviços gerais pagos pelo Ministério da Educação Nacional, Ensino Superior e Investigação Científica”, sublinhou, acrescentando que a cantina escolar tem funcionado regularmente e que os géneros alimentícios são fornecidos com base em relatórios de gestão dos períodos anteriores.
Segundo Marito Fernandes, a comunidade de Canhabaque enfrenta várias dificuldades, destacando-se o acompanhamento das crianças pelos pais no percurso escolar. Segundo ele, trata-se de um problema comum no país, uma vez que muitos encarregados de educação não acompanham a evolução académica e comportamental dos seus filhos.
“Há pais que nem sequer sabem como o filho vai à escola ou qual é o seu comportamento. A ausência dos pais na vida escolar dos filhos é considerada um fator negativo para o desenvolvimento escolar e social das crianças. Estudos mostram que, quando os responsáveis não participam das decisões e atividades escolares, as crianças podem enfrentar dificuldades de aprendizagem, menor motivação e até abandono escolar”, advertiu.
As condições socioeconómicas, as preocupações com o trabalho e os custos, os problemas familiares (divórcio, separação e conflitos), bem como as dificuldades de aprendizagem ou a falta de interesse dos alunos, são apontados como alguns dos fatores que contribuem para o afastamento dos pais da vida escolar dos filhos.
Segundo Marito Fernandes, esses desafios podem ser enfrentados com um trabalho consistente e eficaz, porque, “além de levar ao abandono escolar, que limita oportunidades de formação, emprego e cidadania, a ausência de acompanhamento também aumenta o risco de exclusão social e de problemas de saúde mental”.
No setor da saúde, Marito Fernandes traçou um quadro crítico da situação sanitária local e afirmou que o centro de saúde enfrenta grandes desafios para responder às necessidades da população, atendendo às especificidades da ilha e às limitações existentes em quase todos os setores, sobretudo nas emergências e evacuações.
“Não há meios de evacuação adequados nem permanentes. Sempre que surge uma necessidade, comunica-se a Bubaque para verificar a disponibilidade de uma embarcação”, explicou.
Canhabaque é uma das ilhas que integram o Parque Nacional Marinho João Vieira e Poilão. Apesar de o povo bijagó ser reconhecido pelo seu conservadorismo cultural, Marito Fernandes, natural da ilha, classificou como “excelentes” as relações entre as comunidades e as entidades fiscalizadoras, salientando que todos participam na proteção do território e partilham o mesmo objetivo: “salvar a ilha e garantir a sua sobrevivência”.


















