IMIGRANTES GUINEENSES REPRESENTAM UM TERÇO DA POPULAÇÃO ESTRANGEIRA RESIDENTE EM CABO VERDE

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) de Cabo Verde, resultantes do V Recenseamento Geral da População e Habitação (RGPH 2021), divulgados em 2022, revelam que os imigrantes provenientes da Guiné-Bissau representam cerca de um terço da população estrangeira residente em Cabo Verde.

Segundo o INE, estes dados não incluem cidadãos naturalizados nem pessoas com dupla nacionalidade.

Foi em Cabo Verde que o jornal O Democrata conversou com António Watna Embana, cidadão guineense radicado no arquipélago desde 2000. Empresário do setor da construção civil e proprietário da empresa Watna Construções, Embana afirma ter contribuído para a formação profissional de jovens cabo-verdianos e para a geração de rendimento de muitas famílias.

Em entrevista ao O Democrata, António Watna destacou que o seu percurso em Cabo Verde tem sido marcado pelo trabalho, pela integração e pelo compromisso com a formação de mão de obra local.

Sediada no concelho do Porto Novo, na ilha de Santo Antão, a empresa Watna Construções atua no setor da construção civil e empreitadas. A maioria dos seus trabalhadores são jovens cabo-verdianos. Segundo o empresário, apenas um funcionário da empresa é guineense, tendo chegado recentemente ao país.

De acordo com Watna, a maior parte dos guineenses residentes no concelho do Porto Novo dedica-se ao comércio e à venda ambulante de produtos e serviços, sendo reduzida a presença da comunidade no setor da construção civil naquela região.

A informação foi avançada pelo empresário durante uma entrevista concedida à equipa de reportagem de O Democrata, que se deslocou ao município do Porto Novo em junho passado para acompanhar e divulgar as festividades de São João (Son Jon) 2026, a convite da Câmara Municipal local.

“Eu trabalho maioritariamente com jovens e a maioria dos meus funcionários são jovens cabo-verdianos. Tenho contribuído não apenas para a sua fonte de rendimento, mas também para a sua formação profissional. Muitos deles foram formados por mim e hoje são profissionais capacitados”, afirmou.

Watna acrescentou que o único trabalhador guineense da empresa chegou recentemente a Cabo Verde e encontra-se em processo de integração profissional.

“Este conterrâneo chegou recentemente ao país e já começou a integrar-se gradualmente através do trabalho e da aprendizagem profissional, para posteriormente conquistar a sua independência financeira”, explicou.

Conhecido por “Toi” entre os habitantes do Porto Novo, António Watna trabalha há mais de duas décadas no setor da construção civil em Cabo Verde. Segundo disse, os imigrantes guineenses têm uma forte presença neste setor, sobretudo nas ilhas do Sal e da Boa Vista.

“Praticamente, os guineenses dominam uma parte importante do setor da construção civil nas ilhas do Sal e da Boa Vista. Em Santo Antão somos poucos. Chegámos a ser dois empresários guineenses nesta área, mas atualmente sou o único, porque o meu colega emigrou para Portugal”, referiu.

O empresário afirma incentivar os compatriotas que chegam a Cabo Verde a apostarem na construção civil, uma área que continua a necessitar de mão de obra qualificada.

Natural da região de Oio, no norte da Guiné-Bissau, António Watna emigrou para Cabo Verde em busca de melhores condições de vida. Inicialmente estabeleceu-se na cidade da Praia, onde trabalhou numa fábrica da Coca-Cola. Mais tarde mudou-se para a ilha do Sal, onde conciliou trabalho e formação profissional na área da construção civil.

Depois de adquirir experiência e qualificação, fixou residência no Porto Novo, em Santo Antão, em 2004. Trabalhou durante cinco anos na construção do Hotel Santantão Art Resort, integrado numa empresa italiana liderada por Andrea Stefanina. Posteriormente, esteve ligado à empresa Spencer Andrade Construções entre 2009 e 2018.

Após vários anos de experiência profissional, decidiu fundar a sua própria empresa, a Watna Construções, que atualmente participa em projetos de habitação, edifícios, empreendimentos turísticos e obras públicas.

Segundo explicou, em 2024 a empresa executou uma obra de construção de estrada, experiência que considerou um importante teste à sua capacidade técnica.

Apesar dos desafios relacionados com a escassez de mão de obra em Cabo Verde, consequência da emigração de muitos jovens para a Europa, Watna afirma que a sua empresa continua a recrutar trabalhadores.

“Em 2026 começámos a sentir mais dificuldades devido à saída de trabalhadores para a Europa. Ainda assim, graças ao empenho e à dedicação, a empresa continua a receber pedidos de emprego de forma regular”, afirmou.

Sobre a sua integração na sociedade cabo-verdiana, Watna reconhece que o processo não foi fácil, mas considera que o respeito pelas leis, o trabalho e o bom comportamento são fundamentais para o sucesso de qualquer imigrante.

“Em Cabo Verde as oportunidades existem para todos, incluindo os guineenses. Sou um exemplo disso. O que faz a diferença é o empenho e a dedicação de cada pessoa”, sublinhou.

Além da construção civil, o empresário investiu nos setores do turismo e da restauração, criando um restaurante e uma unidade de alojamento na zona de Ribeira de Corujinha, no Porto Novo.

Após duas décadas de residência em Cabo Verde, decidiu também ingressar na vida política através do Movimento para a Democracia (MpD). Foi eleito deputado municipal do Porto Novo nas eleições autárquicas de 2020, embora não tenha conseguido renovar o mandato nas eleições seguintes.

Segundo explicou, entrou na política para contribuir para a melhoria das condições de vida da população do município e representar as preocupações dos cidadãos junto das autoridades locais.

Watna considera ainda que a participação de cidadãos guineenses na vida política cabo-verdiana constitui um sinal positivo de integração.

“São poucos os municípios cabo-verdianos onde os guineenses não estão representados nas listas dos dois maiores partidos, o MpD e o PAICV. Isso demonstra a confiança conquistada pela comunidade guineense ao longo dos anos”, afirmou.

Casado com uma cidadã cabo-verdiana e pai de dois filhos nascidos em Cabo Verde, António Watna diz sentir-se plenamente integrado na sociedade do país que o acolheu. Apesar da distância, mantém uma forte ligação à sua terra natal, a região de Oio, na Guiné-Bissau.

Por: Alison Cabral

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