Embaixador António Serifo Embaló: “CHINA ESTÁ DISPOSTA A INSTALAR FÁBRICAS DE TRANSFORMAÇÃO DE CASTANHA DE CAJU NA GUINÉ-BISSAU”

O Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Guiné-Bissau na República Popular da China, António Serifo Embaló, revelou que empresários chineses manifestaram interesse em instalar, na Guiné-Bissau, fábricas para a transformação da castanha de caju em amêndoas, destinadas posteriormente à exportação para o mercado chinês e para outras partes do mundo.

“A China não pretende importar a nossa castanha em bruto. O objetivo é que a transformação seja feita localmente, exportando-se apenas a amêndoa. Por isso, há disponibilidade para apoiar a instalação de fábricas de processamento no país. No entanto, é indispensável o envolvimento do setor privado guineense e uma vontade política clara por parte do Governo para criar laboratórios fitossanitários que garantam a certificação e a qualidade dos produtos”, afirmou o diplomata.

António Serifo Embaló lamentou a morosidade das autoridades na criação de laboratórios fitossanitários e apontou igualmente a falta de iniciativa do setor privado nacional como um dos principais entraves ao aproveitamento desta oportunidade.

As declarações foram feitas numa entrevista exclusiva ao jornal O Democrata, na qual o embaixador abordou o estado das relações políticas e diplomáticas entre Bissau e Pequim, bem como os principais resultados alcançados durante a sua missão. Defendeu ainda que o setor privado guineense deve assumir um papel de liderança na criação de indústrias de transformação local da castanha de caju, com apoio governamental e em parceria com investidores chineses.

“INSTABILIDADE POLÍTICA PESA NO INVESTIMENTO DO SETOR PRIVADO CHINÊS”-afirma o diplomata

O diplomata considerou que a demora nas respostas às propostas apresentadas pelos parceiros internacionais tem prejudicado o país, impedindo o aproveitamento de oportunidades capazes de gerar ganhos económicos e contribuir para o desenvolvimento nacional.

Segundo explicou, a Embaixada desenvolveu todos os esforços para viabilizar o acordo de compra da castanha de caju guineense por empresários chineses, mas salientou que o sucesso do processo depende agora do setor privado nacional e do apoio do Governo.

Questionado sobre a possibilidade de promover parcerias entre empresários chineses e guineenses, António Serifo Embaló afirmou que existe total disponibilidade por parte dos investidores chineses. Contudo, alertou para a necessidade de reforçar a capacidade financeira do setor privado guineense.

“não se pode estabelecer uma parceria comercial com empresários chineses de mãos vazias”, observou.

Além das limitações financeiras, apontou a instabilidade política e governativa como um dos fatores que mais condicionam o investimento estrangeiro na Guiné-Bissau.

“A primeira coisa que um empresário faz antes de investir num país é informar-se sobre a sua estabilidade política, financeira e sobre as condições de segurança”, explicou.

Acrescentou ainda que os potenciais investidores procuram garantias junto dos respetivos governos antes de avançarem com qualquer projeto.

“Guiné-Bissau deve demonstrar vontade para beneficiar dos acordos com a China”, advertiu António Serifo Embaló.

Sobre as prioridades da sua missão diplomática, particularmente no contexto do aprofundamento da cooperação bilateral e da participação da Guiné-Bissau em iniciativas chinesas como o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) e a Iniciativa Faixa e Rota, o embaixador afirmou que todas as áreas de cooperação continuam a ser consideradas estratégicas.

“Conseguimos colocar a Guiné-Bissau no centro das atenções das autoridades chinesas e aprofundar a relação bilateral através da assinatura de vários acordos de cooperação. Visitámos diferentes províncias chinesas para apresentar as potencialidades do nosso país, com destaque para os produtos agrícolas, frutos do mar e, em particular, a castanha de caju”, destacou.

Segundo António Serifo Embaló, a cooperação permitiu igualmente o aumento do número de bolsas de estudo para estudantes guineenses e o reforço da colaboração no setor da saúde.

Apesar destes avanços, lamentou a lentidão no acompanhamento e na implementação dos acordos assinados entre os dois países.

“Os países que demonstram vontade política e apresentam projetos concretos estão a beneficiar de grandes investimentos chineses em estradas, caminhos-de-ferro e infraestruturas sociais. A Guiné-Bissau também deve mostrar determinação para executar os acordos firmados, caso contrário dificilmente conseguirá tirar pleno proveito das oportunidades existentes”, advertiu.

O DIPLOMATA ALERTA QUE CERTIFICAÇÃO FITOSSANITÁRIA CONTINUA A SER UM DESAFIO

Relativamente à isenção de tarifas aduaneiras concedida pela China a vários países africanos, o diplomata considerou que a Guiné-Bissau deve aproveitar esta oportunidade para aumentar as suas exportações.

No entanto, identificou a ausência de um sistema nacional de certificação fitossanitária como um dos principais obstáculos.

“O Governo, através do Ministério da Agricultura e das estruturas competentes, deve empenhar-se na criação de um laboratório de certificação de qualidade”, defendeu.

Segundo explicou, a própria China pode apoiar a instalação do laboratório e a formação de técnicos especializados, desde que exista vontade política por parte das autoridades nacionais.

António Serifo Embaló anuncu também que a Câmara de Comércio Indiana está interessada em cooperar com empresários guineenses em areas de transformaçã.

Ao abordar a cooperação com outros países asiáticos, António Serifo Embaló revelou que a Câmara de Comércio da Índia manifestou interesse em desenvolver parcerias com o setor privado guineense, sobretudo nas áreas das pequenas indústrias de transformação.

O embaixador referiu ainda que a representação diplomática tem acompanhado a situação dos estudantes e comunidades guineenses na China, Índia, Macau, Japão, Coreia do Sul, Filipinas e outros países da região.

Destacou igualmente o trabalho desenvolvido para reativar associações estudantis e facilitar a prestação de serviços consulares, incluindo a emissão de passaportes para estudantes e cidadãos guineenses residentes em diferentes cidades asiáticas.

“A Embaixada está a cumprir o seu papel de ponte entre a Guiné-Bissau e os países da nossa jurisdição. No entanto, é essencial que haja empenho político na implementação dos acordos assinados e uma participação mais ativa do setor privado nacional”, concluiu.

Por: Assana Sambú, Pequim

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