As entidades religiosas da região de Bafatá apelaram ao voto consciente e responsável no referendo de 30 de agosto de 2026 e pediram aos eleitores que participassem massivamente na votação. Contudo, reconheceram a existência de divergências de opinião entre a população, sublinhando a necessidade de mudar o sistema democrático semipresidencialista em vigor desde 1994.
Mais de novecentos mil eleitores guineenses são chamados às urnas no dia 30 de agosto do corrente ano para a consulta popular sobre a nova Constituição da República da Guiné-Bissau, aprovada pelo Conselho Nacional de Transição. A votação realiza-se por sufrágio universal, direto, secreto e pessoal, em todo o território nacional, através de 3.562 mesas de assembleia de voto, distribuídas por 2.036 secções eleitorais, e é organizada pela Comissão Nacional de Eleições (CNE).
Entre as principais alterações previstas na nova Constituição da República destaca-se o reforço dos poderes do Chefe de Estado e a redução do número de deputados da Assembleia Nacional Popular, de 102 para 65 representantes do povo, de acordo com a nova Lei Eleitoral. Segundo as autoridades de transição, esta medida visa aumentar a produtividade parlamentar, melhorar a qualidade dos debates e permitir uma análise mais aprofundada dos assuntos de interesse nacional.
O Democrata ouviu as opiniões de líderes religiosos e tradicionais da região de Bafatá, a segunda maior região do país, sobre o referendo nacional e o apelo ao voto dirigido à população local. Os líderes ouvidos pela nossa reportagem foram o Vigário-Geral da Diocese de Bafatá, Padre Abrão Ambessum Sambú, o Imame Central de Bafatá, Tcherno Culabio Bá, e o Régulo de Bafatá, Seco Mussa Sidibe.
“Referendo está a criar diversidade de opiniões entre os cidadãos” – Diocese de Bafatá

Interpelado pelo jornal O Democrata no âmbito do referendo nacional de 30 de agosto, o Vigário-Geral da Diocese de Bafatá, Padre Abrão Ambessum Sambú, disse que, de acordo com as informações de que dispõe, o referendo “está a criar diversidade de opiniões entre a população”.
Na opinião do Vigário-Geral da Diocese de Bafatá, “é um ato muito normal”. Por isso, enquanto responsável religioso, aconselhou os cidadãos a escutarem a voz da sua consciência, porque “o melhor juiz do mundo é a consciência”.
“De modo geral, foram realizadas várias alterações na Constituição e algumas pessoas têm conhecimento delas, enquanto outras não. Na medida do possível, e de acordo com o nível de conhecimento de cada indivíduo, cada um pode decidir votar ‘Sim’ ou ‘Não’”, sublinhou.
O Vigário-Geral da Diocese de Bafatá manifestou ainda preocupação com as pessoas que não possuem nível de escolaridade suficiente para compreender as alterações introduzidas na Constituição que será submetida a votação no dia 30 do corrente mês.
O líder religioso receia que esse grupo de cidadãos possa estar condicionado e, provavelmente, não decida de forma livre e de acordo com a sua consciência, uma vez que terá de recorrer a terceiros com maior capacidade de compreensão para obter informações e depois avaliar se deve votar “Sim” ou “Não”.
“Quanto à redução do número de deputados, não posso pronunciar-me. Não sei em que fundamentos se baseou essa decisão, nem a redução dos círculos eleitorais. Como desconheço as razões dessa medida, estou limitado nos comentários que possa fazer”, sublinhou.
“Enquanto servidores e parceiros do Governo, devemos abraçar a nova Constituição” – Régulo de Bafatá

Por seu lado, o Régulo de Bafatá, Seco Mussa Sidibe, afirmou que, enquanto servidores e parceiros do Governo, sentem-se obrigados a abraçar o projeto da nova Constituição para o bem do país.
Nesse sentido, garantiu que irão acatar, na medida do possível, todos os apelos das autoridades e mobilizar os cidadãos que integram os regulados nacionais para participarem massivamente no referendo, tendo em conta as vantagens anunciadas para o país.
O responsável do poder tradicional de Bafatá assegurou que as informações recebidas sobre a redução do número de deputados, de 102 para 65, bem como dos círculos eleitorais, demonstram que foi realizado um bom trabalho. Por isso, entende que “não há outra forma senão apoiar a iniciativa para que a Guiné-Bissau possa avançar rumo ao desenvolvimento que todos almejam”.
“O Conselho Nacional de Transição e o Governo convocaram todos os régulos da Guiné-Bissau para participarem num encontro no Palácio da República, onde nos explicaram as alterações feitas na Constituição da República. Elogiamos o trabalho realizado. A primeira Constituição foi elaborada por um grupo de pessoas e vigorou até aos dias de hoje. Se, no atual contexto, surgem outras pessoas que decidem introduzir alterações importantes, estão de parabéns. De acordo com as explicações que recebemos, essas alterações trarão vantagens para o país e, por isso, todos devemos elogiar essa iniciativa”, reforçou.
Seco Mussa Sidibe informou que, nesse encontro realizado em Bissau, os régulos assumiram a tarefa de mobilizar os cidadãos para votarem massivamente no referendo agendado para 30 de agosto, acrescentando que o trabalho de mobilização já se encontra em curso.
“Neste momento, estamos a informar os cidadãos sobre as vantagens das alterações feitas na Constituição, porque permitirão à Guiné-Bissau avançar um pouco mais. Por isso, todos devem participar na votação do referendo nacional”, apelou.
Questionado sobre a exclusão dos partidos políticos do processo, Seco Mussa Sidibe disse que não gosta de pronunciar-se sobre assuntos ligados à política. Contudo, observou que, se os partidos políticos foram deixados de fora, devem existir razões que apenas as autoridades de transição poderão esclarecer.
“Apesar disso, os responsáveis das formações políticas devem contribuir para que a votação decorra com êxito, permitindo-lhes, no futuro, exercer a atividade política sem problemas”, afirmou.
Imame Central de Bafatá pede aos eleitores um voto consciente para mudar o país

Interpelado pelo O Democrata sobre o mesmo processo, o Imame Central de Bafatá, Tcherno Culabio Bá, assegurou que as entidades religiosas da região estão a sensibilizar a população para participar massivamente no referendo, votando de acordo com a sua consciência e com a escolha que considerem mais benéfica para o país e para o povo guineense.
Segundo Tcherno Culabio Bá, desde 1994 a Guiné-Bissau optou pela democracia e pelo regime semipresidencialista. Contudo, passaram vários Chefes de Estado sem que o país registasse evolução significativa ou estabilidade política e governativa.
Perante as sucessivas crises vividas pelo país, o líder religioso considera que o referendo de 30 de agosto constitui uma oportunidade para promover mudanças ao nível do desenvolvimento e da forma de governação.
“É triste ver o que está a acontecer na Guiné-Bissau. Desde a independência até aos dias de hoje temos vivido constantes instabilidades políticas. É preciso que os guineenses se unam para contribuir para o desenvolvimento do país. O povo está cansado da forma como a política tem sido exercida na Guiné-Bissau ao longo dos anos. Queremos apelar à população para participar massivamente na votação do referendo, com o objetivo de mudar o sistema vigente e verificar se desta vez conseguimos avançar, deixando de lado os interesses pessoais e colocando em primeiro lugar o interesse coletivo”, apelou.
O Imame Central de Bafatá congratulou-se igualmente com a decisão das autoridades de transição de reduzirem o número de deputados de 102 para 65.
Sustentou que um país como a Guiné-Bissau, com mais de dois milhões de habitantes, não deve ter o número de deputados que possuía anteriormente.
“Esse exercício democrático vai contribuir para a estabilidade política do país e também para a redução das despesas financeiras do Estado da Guiné-Bissau, recursos que poderão ser aplicados nos setores sociais, nomeadamente na educação e na saúde.”
Tcherno Culabio Bá afirmou que a Constituição não foi alterada para beneficiar uma pessoa, mas sim para servir todos os guineenses, permitindo que cada cidadão exerça a atividade política sem conflitos e viva em harmonia e tranquilidade, como membro de uma mesma nação.
“Temos católicos, muçulmanos e animistas que, nos seus bilhetes de identidade, estão identificados como guineenses. Sendo assim, devemos rezar e pedir para que haja uma paz duradoura na Guiné-Bissau. Enquanto líderes religiosos, devemos sensibilizar a população para participar no referendo sem criar problemas, porque a nossa missão é trabalhar para a reconciliação e a paz entre os guineenses”, sublinhou.
Instado a pronunciar-se sobre a não participação dos partidos políticos no referendo nacional, Tcherno Culabio Bá disse que a questão do referendo “não tem a ver com os partidos políticos, mas com todos os filhos da Guiné-Bissau”.
“Todos os cidadãos devem refletir cuidadosamente sobre este processo e reconhecer que passaram vários anos por um caminho que não nos levou a lado nenhum. Por isso, é preciso mudar para verificar se a nova Constituição produzirá os resultados que todos esperam”, insistiu.
Por: Aguinaldo Ampa


















