Figura da semana: Vasco Cabral recordado como referência da literatura e do pensamento guineense

A Casa das Letras e Artes Vasco Cabral (CLAVC) e a União Nacional dos Artistas e Escritores (UNAE) assinalaram o centenário do nascimento de Vasco Cabral sob o lema “A Luta é a Minha Primavera: 100 Anos de Poesia, Memória e Liberdade”.

As celebrações destacaram o contributo fundamental do escritor, poeta e pensador guineense, considerado uma das maiores referências intelectuais da história contemporânea da Guiné-Bissau.

Para marcar a efeméride, o Governo da Guiné-Bissau instituiu a primeira edição do Prémio Nacional de Literatura “Vasco Cabral”, iniciativa que visa incentivar a produção literária nacional e promover os hábitos de leitura no país. Diversas entidades e personalidades ligadas à cultura manifestaram publicamente o seu reconhecimento e apreço pela obra e pelo legado do autor.

BIOGRAFIA

António Vasco da Costa Rebelo Cabral foi um dos mais importantes intelectuais, poetas e dirigentes políticos da Guiné-Bissau. Nasceu em Farim, no norte do país, a 23 de agosto de 1926, e licenciou-se em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa. Destacou-se como uma das figuras mais relevantes da política, da intelectualidade e da literatura guineense.

Durante a sua permanência em Portugal, dedicou-se ao ensino, à tradução literária e à produção intelectual, afirmando-se também como ensaísta e estudioso da economia. O seu envolvimento político teve início ainda na década de 1940, através da participação em movimentos africanos e antifascistas que defendiam a liberdade dos povos colonizados. Trabalhou lado a lado com figuras históricas como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos e Mário de Andrade. Em consequência da sua militância contra o regime colonial português, foi preso duas vezes pela PIDE, em 1951 e 1954.

Em 1962, regressou clandestinamente a África para integrar a luta de libertação nacional conduzida pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Durante a guerra de independência, desempenhou um papel fundamental na divulgação da ideologia do partido e na organização política das zonas libertadas, exercendo funções de comandante político da luta de libertação nacional.

Após a independência da Guiné-Bissau, assumiu importantes responsabilidades governativas. Foi deputado na Assembleia Nacional Popular que proclamou a independência do país e exerceu os cargos de Ministro da Economia e Finanças, do Planeamento e do Desenvolvimento Económico. Ocupou ainda posições de relevo como Vice-Presidente do Conselho de Estado e Ministro de Estado em diversas áreas governativas. No seio do PAIGC, desempenhou igualmente funções de liderança, incluindo a de Secretário Permanente do Comité Central.

Paralelamente à atividade política, destacou-se no campo literário. A sua obra mais conhecida, A Luta é a Minha Primavera, publicada em 1981, reúne poemas escritos entre 1951 e 1974 e tornou-se uma referência da poesia de resistência e libertação africana. Os seus textos foram traduzidos para diversas línguas e integrados em importantes antologias da literatura africana de expressão portuguesa.

O seu contributo para a literatura lusófona encontra-se também simbolizado em Portugal, onde a sua figura é homenageada no Parque dos Poetas, em Oeiras.

Vasco Cabral foi uma das personalidades que contribuíram para a construção do projeto que viria a dar origem à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e exerceu o cargo de Vice-Presidente do Conselho Mundial da Paz.

Ao longo da sua vida, recebeu várias distinções nacionais e internacionais pelo seu contributo para a cultura, para a luta pela independência e para a promoção da paz. É reconhecido como uma figura incontornável da história política, cultural e literária da Guiné-Bissau, cuja trajetória uniu o compromisso revolucionário à criação poética.

Por: Epifânia Mendonça

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