“Poesia é coisa de gente que sabe ler para gente que sabe ler bem”.* (Félix Sigá, poeta, escritor, jornalista e editor guineense)
Caro leitor do jornal O Democrata celebrou-se no passado dia 21 de Março o Dia Mundial da Poesia. Quisera eu partilhar, na altura, esta Crónica. Porém, não fi-lo porque não tinha condições ideias de o fazer, mesmo porque naquela semana muitas coisas desnorteantes aconteceram-me. Mas também boas. Por exemplo, a entrevista dada ao jurista, poeta e jornalista, Gabriel Ié, da TGB, ao programa Vede Quem Somos.
Trata-se, entretanto, de um texto em que rendo homenagem a todos os poetas guineenses, desde os de outrora até os de agora. Faço-o por gosto mas também por questão de honestidade intelectual. E talvez principalmente por render a mais justa homenagem aos artesãos da palavra. Homens e mulheres que falam escrituralmente da vida (e sobre a vida) nas suas diferentes vertentes. Vida bem vivida, e vida mal vivida. Importa que se a viva. E, de preferência, com intensidade e tenacidade.
Talvez, quiçá, mereça uma homenagem especial ao mestre da palavra encantada, autor do texto em epígrafe, Félis Sigá, por tudo o que fez a meus colegas da AGE (Associação Guineense de Escritores), seus exímios discípulos de literatura, e mais do que isso: seu nome escrito a letras de ouro no cenário da literatura nacional e de língua portuguesa.
Dia Mundial da Poesia celebrado, com astúcia utópica típica dos poetas em regime distópico, foi instituída pela UNESCO durante sua XXX Conferência Geral decorrido de 26 de Outubro a 17 de Novembro de 1999, na Cidade-luz, Paris. Pensou-se poeticamente (e bem), objetivando a promoção da leitura, da escrita, da publicação e do ensino da poesia pelos diáfanos e puros ares que sibilam em torno do planeta terra.
Assim, em rememoração, comemoração e exaltação da poesia é que vos ofereço esta crónica para a fruição intelectual, além de sentimental, é claro. Pois:
Acreditei, desde os primórdios da minha existência, que a poesia nasce das relações biopsicossociossomáticas. Ela vem das linhas intersticiais do entendimento humano. Habita, sorrateira e silenciosamente, o nosso ser na sua ontologia fundamental.
A poesia, como disse, nasce (corrijo-me agora) para dizer que ela é uma constante renascença. Por isso, a poyésis muda (para celebrar os gregos) a minha experiência na presença do ato poético de produzir o efeito sonoro da metáfora aguda, incomensurável, retinente (e porque não reticente?). E singularmente significante transformando a estrutura fundamental do meu relacionamento (ser humano que sou) com as coisas. A poesia faz de mim um (re)criador do mundo e das coisas que moram no mundo.
Digo, moram, porque tal como nós, seres humanos, as coisas também habitam o mundo. E é nessa intenção de relação ontológica que navegamos pelo rio da subjetividade para, efetivamente, nos desembocarmos no mar da objetividade.
O meu lugar no mundo é-me dado pelas condições objetivas de lugares outros que a imaginação poético-literária trilha (e percorre com notas dissonantes da poemúsica).
A poesia mais bela, mais sedutora, mais envolvente e mais alegoricamente sublime é aquela desconcertante. É aquela poesia surda, dura, áspera, àquela que toca fundo o ser da alma humana. É a poesia autêntica, verdadeira, real, concreta.
A arte poética amadurece o homem. Faz dele um ser que desabrocha, desdobra noutros entes essenciais na forma e na substância.
É por isso que o homem desabrocha em sémen (o nome latino da semente).
Espero que a semente poética espalhe reflexões crítico-científicas. Porque, na poesia, trabalha-se também com a exatidão das palavras.
Num verso (curto ou longo) a palavra exata no lugar exato coloca a ideia na ordem suprema das coisas, na ordem benéfica da saúde primordial do termo justo no templo do verbo. Não do verbo divino, mas do verbo humano comovente.
Do humano processo da criação escritural ex nihilo.
Da palavra incerta que produz metáfora certa. Estou em crer que a poesia opera no âmbito da crítica gnoseológica porque diferencia o mundo das emoções (e o das ideias) humanas.
A crítica poética (e social) propicia novas possibilidades objetivas de assunção duma nova ordem sociocultural.
A poesia, em suma, é o canto do sublime! Opera no inesperado, no inebriante, no efeito sonoro literalmente transcrito, traduzido e impresso (por registo) no papel-ideia movente.
As ideias movem, porque viajam na imaginação.
Quando escrevo poesia estou a exercer o mais nobre ofício da sublimação. Isto é, estou a convocar no ato produtivo do verso vozes passadas (mas também passantes), presentes (sempre contentes) e futuras (indutoras do devir) para a celebração da vida! Porque a vida é o supremo canto da esperança.
Rogo a Deus, o exímio arquiteto do universo, que interceda por nós para que tenhamos a consciência poética de alcançar grandes consensos, através de diálogo sincero e honesto, de modo a que saiamos do imbróglio em que nós nos metemos a todos. Ou nos meterem? Digo todos, porque o chão onde os políticos pisam somos nós povo. Somos nós, o mesmo chão, que os elege, os acolhe e os dá sustento. E porque não sustentação? Somos nós, os pilares da democracia. Que não caiamos nas astúcias de ninguém. Mas de ninguém mesmo.
Que planos maquiavélicos de analfabetos, pseudo-intelectuais, analfabetos funcionais e os excelentíssimos senhores analfabetizados nos conduza ao abismo. Ou seja, que não adiem o país, mais uma vez, como o fora no 0706.
Fora praga!
Para dizer, por conseguinte, que esta nossa mania de pisarmos no outro – e acabamos por pisarmo-nos a todos – só nos trouxe (e vem trazendo) dor e amargura. Mudança de mentalidade está já na altura.
Esta nossa política do pisa-se aqui, pisa-se acolá; e no fim, eles pisam-se a todos. E em todos nós. Ficam engalfinhados – e como abraços dos afogados… adiamos o nosso destino. E o progresso continua em desatino. E eles? Como sempre safam-se, apesar do Dom diabete das quatorzinhas tietes, trombose da osmose intelectual. E assim entre intrigas e futricas o país vai se definhando e seu povo sentindo-se impotente, sem orgulho da famigerada guineidade (guine’n’dadi).
Até a próxima, que o cronista precisa descansar, meu caro leitor d’O Democrata.
Por: Jorge Otinta, poeta ensaísta e crítico literário guineense
*in prefácio de Félix Sigá 2012, na obra UMBRAIS de MM, ainda por editar





















