WELKET CONSIDERA GUINÉ-BISSAU “DIAMANTE EM BRUTO” PARA A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA

[ENTREVISTA] O jovem realizador e argumentista luso guineense, Welket Bungué, disse que a Guiné-Bissau ainda é um “diamante em bruto” para o seu trabalho de produção cinematográfica, sobretudo pelas “Histórias” que tem do seu passado e da própria escrita e “Histórias” da cultura guineense, sobretudo de ponto de vista do seu potencial funcional. Welket Bungué, que estreou no passado mês de maio o seu filme de curta-metragem intitulado “Arriaga” que estreou no IndieLisboa (Festival Internacional de Cinema 2019), esteve no país no âmbito da semana de “Krioulofonia” que se realizou, em Bissau, no mês de maio último e para acompanhar também o dia a dia dos guineenses.

Sobre o assunto, o cineasta revelou em entrevista conjunta concedida ao semanário O Democrata, à Radiodifusão Portuguesa/África (RDP – África) e à Rádio Jovem que, a parte da semana da “Krioulofonia”, que já aconteceu, sentiu a necessidade de fazer um registo (filme) sobre o estado em que se encontra a cidade Bissau para mostrar ao mundo o quotidiano dos citadinos de Bissau.

Ou seja, na sua constatação, é um aspeto que vai para além de se tratar de apenas uma coisa bonita ou menos bonita. Disse que o que está a tentar fazer é dar cobertura àquilo que é a rotina quotidiana das pessoas em Bissau, tentar perceber determinados lugares por onde tem passado, nomeadamente: o Ilhéu do Rei, o Memorial da Escravatura em Cacheu, o projeto da Irmã Solange, em Canchungo e a imagem de uma criança que vive no bairro de Cuntum Madina, bairro tradicional nas imediações de Bissau e sobretudo as imagens registadas na capital sobre a dinâmica que acontece no centro, um projeto que o levou a descobrir e perceber como é que as pessoas reagem quando veem alguém com uma câmera na mão e que de alguma maneira quer captar aquilo que de mais belo há no dia-a-dia delas.

Em relação à produção cinematográfica guineense, Welket Bungué disse que o cinema guineense está numa fase embrionária, não obstante ter uma estrutura reflexo na cinematografia de Flora Gomes e Sana Na N’Hada. Sustentou que é uma cinematografia que tem como objetivo resgatar os valores da cultura guineense através de produções feitas localmente ou fora da Guiné-Bissau.

WELKET QUER RETRATAR A ROTINA DIÁRIA DOS ESTRANGEIROS QUE ESCOLHERAM A GUINÉ-BISSAU

No fundo, um dos objetivos do realizador é compilar uma recordação sobre essa Guiné em permanente desenvolvimento que tem uma geração de pessoas que, embora tenham ido lá para fora, têm cada vez mais vontade de investir no país. Welket Bungué esclarece que decidiu escolher o bairro de Cuntum Madina porque estava a acompanhar a sua pareceira Kristin Bethge (Fotógrafa) que recebeu uma encomenda de uma revista alemã para seguir o cotidiano de uma criança ou de uma família tradicional guineense.  

Para, além disso, destaca que também tinha ido lá visitar a sua família e percebeu que o bairro tem algo. Decidiu então escolhê-lo para ver e acompanhar como as pessoas sobrevivem e tentar perceber os seus hábitos e como contornam algumas precariedades que o bairro tem e que enfrentam no seu dia a dia, do ponto de vista estrutural.

“Isso para nós que viemos de fora, onde a princípio temos tudo como um dado adquirido e garantido, mas quando fomos conforntados com a realidade do país percebemos que há uma grande contradição. Perceber que há ainda pessoas que têm muito pouco e que ainda assim conseguem levar a acabo as suas rotinas e as suas necessidades”, observou.

Enquanto realizador e argumentista, Welket Bungué acredita que a Guiné-Bissau ainda é um “diamante em bruto” para o seu trabalho, sobretudo pelas “Histórias” do seu passado e a própria escrita e “Histórias” da cultura guineense, sobretudo do ponto de vista do seu potencial funcional.

“Temos vários lugares que são autênticas paisagens cinematográficas. É o caso de tudo o que vemos no dia-a-dia dos guineenses enquanto acontecimentos e gestos de corporalidade. Literariamente, se captarmos o que as pessoas dizem e a forma digo, muito especial, que o guineense têm de se dirigir a outro ou então de tratar assuntos sérios com uma certa poesia, através do uso dos ditos e ditados, são esses aspetos que fazem com que esta cultura tenha muito potencial para alguém que produz cinema”, realçou.

REALIZADOR LEVA A IMAGEM DO QUOTIDIANO DE BISSAU PARA OS ECRÃS DO MUNDO

Para além dos aspetos iniciais mencionados no início da entrevista, o argumentista quis narrar uma história, um documentário de ficção através de imagens filmadas que, na produção do filme, serão intercaladas com depoimentos de cidadãos guineenses, mulheres, homens e crianças) de diversos setores.

“Temos pessoas que trabalham com canoas que vêm deixar, por exemplo, castanhas de cajú diariamente nos portos de Bissau e que têm que dormir aqui porque não têm como voltar para as suas casas no mesmo dia. Depois são obrigadas a carregar os barcos para voltar com carga (e rentabilizar o serviço). Temos o caso de um alfaiate que se formou no Senegal e que veio montar o seu negócio em Bissau, mas que não conseguiu progredir. Mora no bairro de Sintra, Bissau, um bairro tradicional. Temos ainda uma captura de imagens que retrata o mercado de Bandim, uma feira que tem muitos negociantes que vendem seus produtos em muitos lugares. É interessante saber como lidam no seu dia-a-dia comunitariamente, sobretudo quando um não consegue vender. A questão é como conseguem, de alguma maneira, apoiarem-se mutuamente, porque depois, numa outra altura, poderá ser outro a precisar de ajuda para conseguir vender”, detalhou.

Relata que a capital Bissau tem ainda outra situação que lhe é caraterística, a questão das curtas deslocações. Nesse caso coloca-se, de alguma maneira, a questão das acessibilidades em Bissau, muito condicionadas. As pessoas acabam por ter de viajar de táxi ou de Toca-tocas e a sinalização é precária nas estradas. Por último, destaca a situação da juventude, senão mesmo da infância guineense, em que se tenta perceber como brincam as crianças, quais os seus sonhos e para onde querem ir.

Welket Bungué diz acreditar que no fim, poderá encerrar todas essas valências e paralelamente a isso fará, com certeza, uma leitura do estado da cidade.

“Somos muito abençoados, porque neste período em que aqui estamos presenciamos uma ou duas greves na função pública e paralisações em vários setores, que foi algo único. Presenciamos também alguns dias do Ramadão na Guiné-Bissau e a retoma da vida após o Ramadão. Portanto, do ponto de vista de imagem, são muito ricos os momentos que consegui captar aqui da cidade. É claro que será um trabalho muito árduo. Vou levar o filme para a Europa e terei que ser eu a fazer a montagem porque foi filmado com uma técnica muito específica, minha, e farei o máximo possível para que o resultado final seja dignificante para a cidade Bissau”, assegurou.

O argumentista luso guineense revelou que sempre foi sua preocupação retratar a rotina diária dos estrangeiros que escolheram a Guiné-Bissau como sua segunda pátria e disse que a Christine, a sua colega de equipa, quando vinha à Guiné-Bissau sabia, naturalmente, que vinha captar imagens da beleza guineense. E o fato de o país ter acolhido a exposição da Christine no Centro Cultural Português, em Bissau, representa algo especial e único, porque ela tem gravado na Alemanha, sobretudo no Brasil, várias realidades e chegou a vez de gravar imagens de Bissau para que estivessem naquela exposição.

“Este é o tipo de trabalho de prazer que temos e felizmente, o fato de conseguirmos viajar muito em trabalho proporciona-nos estas dádivas. Temos contatos com pessoas, podemos capturá-las e dentro das nossas possibilidades, evidenciar para o mundo aquilo que de melhor há naqueles lugares, para desconstruir estigmas que há em relação a determinadas classes sociais, pessoas e territórios”, notou.

Segundo Welket Bungué, a curta-metragem “BASTIEN”, primeira peça do realizador luso guineense, nasceu de um estudo ou intenção artística de discutir quais os problemas das diásporas africanas nas áreas periféricas de Lisboa.

“Neste filme, temos uma multiculturalidade, porque assim é que se convive naquelas áreas. Temos pessoas brancas, mulatas, negras e nativas de determinados lugares e, do ponto de vista narrativo, o problema que se coloca são os sonhos que muitas vezes são hipotecados, a juventude deixa de poder levar avante o seu sonho ou desejo em deterimento de uma estrutura social que, aparentemente, existe para proteger e defender o interesse dessa minoria vulnerável, mas no fundo não é o que acontece”, observou.

Para Welket Bungué, essas estruturas sociais e políticas fazem com que essas pessoas sejam cada vez mais marginalizadas, porque de início não conseguem legalizar-se devido a muitos entraves e como famílias acabam por ficar disfuncionais, sobretudo no concernente à falta de emprego, de acesso a determinados lugares que empoderá-las e permiti-las ter poder de decisão sobre as suas vidas, para sobretudo influenciar outras pessoas para que lhes possam fazer chegar aquilo que elas também precisam, acabam por resvalarem para caminhos contrários ao destino, que é o caso do “BASTIEN”, ele quer ser pintor, mas para conseguir pintar teve que se meter em situações litigiosas.

“Portanto, na altura em que ele estava para dar o passo e ser reconhecido como tal e, se calhar ter sucesso, ele tinha que pagar uma dívida que contraiu. O filme é visto em primeira instância como uma questão simplesmente vivencial, mas não. O que quero dizer aqui é falar das diferenças estruturais e institucionais que favorecem mais uma classe e menos outras”, detalhou, criticando, contudo, a forma como a terceira geração da diáspora africana é tratada em Portugal.

No entendimento de argumentista luso guineense, essa geração são pessoas que nasceram em Portugal, ou seja, negros africanos portugueses, nasceram lá. Neste sentido, defende que sejam considerados portugueses, não só do ponto de vista legal como também de direitos e de vivências. Mas, segundo disse, como essas pessoas estão a ser permanentemente empurradas para uma situação de desigualdade, isto justifica muitas vezes as tomadas de decisões que lhes colocam em lugares errados.

“NÃO POSSO SER PULSEIRA DE UM PAÍS, PORQUE SOMOS MUITOS E PODEMOS SER MUITO MAIS SE AJUDARMO-NOS”

Solicitado a pronunciar-se sobre a crise política e governativa que tem abalado a Guiné-Bissau, Welket Bungué disse que prefere falar mais da arte do que da política. 

Contudo fez algumas observações sobre a situação política do país e lança um repto no qual diz “se alguém neste momento está acomodado ou passivo perante a situação em que nos encontramos, então é porque essa pessoa não tem consciência de onde o guineense pode chegar”.

“Se estamos contentes com o lugar onde estamos neste momento, é porque nós não temos noção de onde podemos chegar. Eu tenho sido muitas vezes parabenizado na rua, mas não é isso que quero ouvir! Eu não posso ser pulseira de um país, porque somos muitos e podemos ser muito mais se ajudarmo-nos uns aos outros na direção certa. Muitas coisas aconteceram nesta terra para nós cidadãos comuns entendermos que o Estado é responsável pela estagnação do nosso país e que não consegue sair da situação. Nós, enquanto cidadãos desta terra, devemo-nos unir para reivindicarmos o nosso direito, porque não podemos deixar apenas aqueles que beneficiam da posição de elite ou de uma posição prestigiante tomarem decisões que nos impliquem”, espelhou.

Assegurou que, enquanto realizador e artista, vai trabalhar na sua área para o desenvolvimento daquele setor, por isso apela que cada cidadão dentro do seu setor dê a sua contribuição para o crescimento do país.

Questionado sobre a produção cinematográfica guineense, Welket Bungué disse que o cinema guineense está numa fase embrionária, não obstante ter uma estrutura reflexo da cinematografia de Flora Gomes e Sana Na N’Hada. Contudo, sustentou que é uma cinematografia que tem como objetivo resgatar os valores da cultura guineense através de produções feitas localmente ou fora da Guiné-Bissau.

“O desafio que deixo aqui é tentar perceber quem são essas pessoas que produzem cinema e assinam enquanto guineenses? Que filmes existem? Para entendermos que filmes podem ainda ser feitos e, sobretudo, entender que ramos como cinema ou pintura, música e todos os ramos artísticos em geral que só fazem sentido se houver uma representação honesta da população de quem se fala. Muitas vezes nós artistas criadores, estando numa situação de precariedade, prometemos mundo de fundos às pessoas que nos apoiam, mas quando estamos no topo, às vezes faltamos com os nossos compromissos que são justamente dar vozes às pessoas que nos apoiam”, notou.

PERCURSO PROFISSIONAL DE WELKET BUNGUÉ

O realizador luso guineense nasceu no sector de Xitole, região de Bafatá, no leste da Guiné-Bissau. Aos três anos de idade deixou o país e foi viver para a Lisboa (Portugal), em 1991 na companhia dos seus pais que emigraram a procura de uma vida melhor.

Cresceu em Lisboa e depois foi enviado pelos seus pais para um internado no sul de Portugal. Entrou no mundo da arte aos 19 anos através de apresentação de peças teatrais. Devido ao talento demostrado, conquistou os realizadores que o convidaram para o mundo de sétima arte (cinema), para participar num filme português “EQUADOR”. 

Em 2002 mudou-se para o Brasil, para a cidade do Rio de Janeiro, onde nos últimos tempos tem trabalhado mais com os produtores brasileiros na produção de filmes.

Esteve no festival do filme na Alemanha com o filme “JOAQUIM”, no qual desempenhou o papel de protagonista principal, em 2017. O filme retrata o período pré-abolicionista no Brasil e foi seleccionado para a competição naquele festival de Alemanha.

Em 2018 participou no filme de longa metragem alemão que tem estreia ainda este ano e que considera o projeto da sua vida neste momento. Começou a trabalhar como realizador do filme em 2014, mas já escrevia argumentos do filme há muitos anos.

Realizou a Curta-Metragem “BASTIEN” e integrou o elenco de “Joaquim” de Marcelo Gomes, como também o do filme “KAMINEY” do realizador indiano Vishaal Bahardwaj.

Recebeu o ‘Prémio AEGBL’ de Artista Revelação pela Associação de Estudantes Guineenses em Lisboa na Faculdade de Letras de Lisboa, em 2011. Em 2012 foi distinguido com o “Prémio de Melhor Ator” em “MUTTER”, no Primeiro Festival de Cinema Quinta Praia – ESMERIZ. Em 2017 foi nomeado para os Prémios de Cinema Cineuphoria na categoria de melhor Ator em Curta-Metragem pela sua interpretação no filme ‘BASTIEN’.

De 2006 a 2017 interpretou personagens em duas dezenas de filmes (cinema), 8 telenovelas e 8 teatros. Welket é fluente em português, crioulo e inglês. Bungué é também locutor para entidades internacionais, bem como desenvolve Escritas Dramáticas, Argumentos de Cinema e Performances.

Por: Assana Sambú/Filomeno Sambú

Foto: A.S

Junho de 2019

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