Opinião: A PROPÓSITO DA COOPERAÇÃO CHINA/ÁFRICA E GUERRA COMERCIAL SINO-AMERICANA

Algumas pessoas afirmam que o edifício do governo construído pela China está equipado com equipamentos de monitoramento. Historicamente a china no quadro de sua cooperação com a África tem dedicado a atenção, entre outras, no setor das infraestruturas públicas apoiando vários países africanos na construção e restauração de edifícios públicos como Palácios de República, de Governos, Parlamentos da República, hospitais, escolas, rodovias, ferrovias, portos e até residências habitacionais. 

Essas iniciativas se inscrevem apenas na disponibilidade do governo chinês em atender aquilo que é no fundo um dos pontos fracos de Estados africanos que, há mais de cinco décadas do fim do colonialismo não conseguiram superar o deficit de infraestruturas públicas nas suas mais diversas vertentes. E, desafortunadamente, com a agravante de continuar a trabalhar num espaço diminuto herdado da época colonial, que já não se adequa as necessidades modernas de administração pública – sem condições de segurança, acessibilidade e conforto para um número elevado de servidores que alberga. 

É no fundo uma falsa questão, senão especulação as denúncias que dão conta de introdução de tecnologias de monitoramento nos edifícios públicos construídos pela China nos países africanos. Portanto, se faz necessária uma breve reflexão sobre esse assunto:

Primeiro, do ponto de vista geoestratégico quais as ameaças que os países africanos podem constituir aos interesses e soberania chinesa? Segundo, qual é o país africano em condições e com capacidade de competir económica e financeiramente com a China?Terceiro, historicamente a China diferentemente de potenciais coloniais nunca contribuiu para o derrube inconstitucional de algum presidente ou governo em África?

Ora bem, se é verdade que é possível introduzir tecnologias nos edifícios públicos para fazer o monitoramento de um governo ou de uma instituição do Estado, não é menos verdade concluir que, existem condições tecnológicas para detetar a espionagem e responsabilizar quem está por detrás. A tecnologia hoje está ao alcance de todos. Grosso modo, essa especulação visa apenas uma coisa, desacreditar a parceria da China com Estados africanos no domínio de construção e, particularmente das infraestruturas públicas.

VOCÊ CONCORDA QUE A COOPERAÇÃO CHINA-ÁFRICA PROMOVEU O DESENVOLVIMENTO DA ÁFRICA?

A cooperação China/África não é recente e teve o seu embrião lançado mesmo antes de surgimento de alguns Estados africanos, caso por exemplo da Guiné-Bissau, que logo no início de suas movimentações para a conquista de sua autodeterminação elegeu a china como um dos parceiros estratégico com quem podia cooperar para se livrar das amarras do colonialismo. Essa intenção de dirigentes do então movimento PAIGC sob a liderança de Amílcar Cabral foi um marco muito importante, sobretudo do ponto de vista militar, porque graças a porta aberta pela China foram treinados nesse país asiático 10guerrilheiros que comandaram com sucesso a luta de libertação nacional, onde se destacavam grandes nomes como Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Nino Vieira, Tchico Té e entre outros.Inequivocamente, a conquista da liberdade é uma das primeiras condições necessária para a persecução dos desafios dedesenvolvimento. 

Entretanto, mesmo após as independências dos países africanos a partir dos finais dos anos 50, prolongando até as décadas de 60 e 70 do século XX, a presença chinesa em África não se inscreveu numa perspetiva de agressividade económica ao promissor mercado africano, mas foi gradualmente construída dentro de um quadro bilateral, atendendo aquilo que é a postura histórica da cooperação chinesa. A dinâmica de cooperação China/África começou a ganhar dimensões mais estruturada da lógica de mercado no limiar do século XXI, acompanhando concomitantemente a aceleração imposta pela globalização apoiada pelos avanços jamais vistos nos domínios da comunicação de informação e das novas tecnologias. 

Não podemos descurar que a cooperação é uma relação assimétrica e,em qualquer que seja nível os benefícios são sempre desiguais, quer do ponto de vista pessoal (um casal, por exemplo), institucional ou entre Estados no âmbito bi e multilateral há quem sempre sai a ganhar mais. Embora no quadro das relações internacionais exige-se o princípio de reciprocidade no tratamento com vista a salvaguardar os valores e interesses que regem um Estado soberano. Com base na necessidade de alinhamento a nova geopolítica e geoestratégia global que transcende as fronteiras económicas e financeiras nacionais, os Estados-Nações estão confrontados cada vez mais pela necessidade de ampliação do seu mercado a partir de formação de blocos políticos, económicos e culturais. E os países africanos são potencialmente beneficiados pela providência da natureza e precisam apenas saber agir com racionalidade e responsabilidade e também saber identificar cooperação que lhe garanta a sustentabilidade no seu processo de desenvolvimento.    

A questão central nesse atual paradigma de cooperação internacional, particularmente, para os Estados africanos é saber responder com clareza e racionalidade, pelo menos, essas três questões: a) Por que cooperar com a China? b) Quais são as nossas necessidades estratégicas e prioritárias para o nosso país? C) Como os acordos assinados podem contribuir para maximizar a construção do bem-estar dos cidadãos? 

Em linhas gerais, muitos Estados africanos e, particularmente, a Guiné-Bissau não tem conseguido tirar melhor proveito na sua histórica cooperação com a China em vários domínios, mas, com destaque nessas áreas: 

agricultura, já que a nossa economia é essencialmente agrícola, o investimento na transferência da tecnologia com vista a criação de uma autonomia própria, podia trazer a curto prazo mais ganhos no setor para o país do que estar frequentemente a receber doação de arroz ou alfaias agrícolas que, geralmente, são mal geridos;

infraestruturas, em vez de continuarmos a investir na edificação de edifícios públicos (os famosos palácios) sem alguma influencia direta na melhoria de condições de vida dos cidadãos, podia-se pensar ambiciosamente numa requalificação urbana das nossas cidades (incluindo a capital Bissau) a partir do investimento chinês criando condições mínimas de habitabilidade, respondendo os desafios moderno de urbanização ( acesso a água, energia, espaços de lazer e saneamento básico). Outrossim, apostando também na construção de rodovias e portos com capacidades adequadas para atender as demandas de circulação de pessoas e bens exigido pelo contexto de globalização.    

pescas e recursos naturais, adquirir navios próprios e criar todas as condições logísticas no mar e na terra que permita o país ser enquanto provedor do recurso, o primeiro a estar em condições de fazer chegar o seu pescado nos mercados alheios, nomeadamente, asiático, europeu, americano e africano. No que concerne aos recursos naturais, a primeira aposta deve ser o investimento nos recursos humanos, possibilitando a formação para cidadãos guineenses em potenciais áreas de exploração e, simultaneamente, criar condições locais para transformação e exportação dos recursos.    

Nessa era de globalização dos mercados é salutar para a Guiné-Bissau estabelecer a cooperação com a China e, de igual modo, a relevância dessa aposta se encontra na capacidade nacional de definir o que queremos negociar, como deve ser negociado e quais os resultados podemos esperar. Só a título de exemplo, o volume de investimento chinês em África fala por si e de acordo com as estatísticas o comércio com a África somou em 2018 204 mil milhões de dólares, ou seja, investidos no apoio ao desenvolvimento em países africano.

O QUE VOCÊ ACHA DA GUERRA COMERCIAL SINO-AMERICANA?

A guerra comercial sempre faz parte da história da humanidade desde o feudalismo até os dias de hoje os Estados-Nações se confrontam para dominar o mercado e a economia mundial.

Entretanto, depois da desintegração da ex-União Soviética e,consequente queda do murro de Berlin que contribuiu para a uni polarização do mundo num único bloco político (capitalismo), os Estados Unidos de América através das agências de Bretton Woods (BM e FMI) passaram a ditar com maior facilidade as regras no mercado económico-financeiro mundial. E o crescimento económico da China nas últimas décadas com a presença marcante nos mercados europeu, sul-americano, africano e nos próprios USA surgiu como uma desagradável ameaça não só ao poderio económico americano, como também a sua influência política no resto do mundo.

Por isso, para muitos observadores as tensões resultantes das disputas comerciais entre a China e os Estados Unidos de América além de prejudicar outras economias está também a provocar incertezas naseconomias mundiais com consequenciais desastrosas, sobretudo para os países emergentes e em vias de desenvolvimento em África.Contudo, há que reconhecer numa perspetiva liberal de mercado a pertinência do crescimento económico chinês como um elemento fundamental que pode contribuir para diversificar e democratizar a economia mundial.      

Por: Rui Jorge Semedo

One comment

  1. samper Vasconcelos Mendes disse:

    O grande intelectual de sempre!positiva análise de ensinamento. Força, Guiné-Bissao é tenen quadrus capazes e visionários como Amílcar Lopes Cabral…

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